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Tempos – Crítica da peça Espaços, de A Casa das Lagartixas – Teatro Clube

Daniele Avila Small
26/10/2021 às 16:58.
Atualizado em 26/10/2021 às 16:58

Muitas vezes é difícil determinar o que faz a gente gostar ou não de uma peça. Geralmente, as pessoas falam que é por causa da “qualidade”, mas eu desconfio um pouco dessa ideia.

Penso que a relação entre uma pessoa e uma peça de teatro é mais uma questão de afinidade que de reconhecimento de méritos. Como a amizade, é relacional. Assim como existe uma “química” entre as pessoas, o mesmo se dá entre as pessoas e as obras de arte.

Você está lá assistindo ao espetáculo e, quando se dá conta, está dentro, foi fisgada, e nem sabe dizer a partir de que momento isso aconteceu. Fui fisgada pela peça Espaços, do grupo A Casa das Lagartixas, a que pude assistir na terça-feira 26 de outubro na programação online do 35º FESTIVALE. O vídeo da peça, aliás muito bem realizado, ainda está disponível no canal da Fundação Cultural Cassiano Ricardo no YouTube, e esperamos que em breve o espetáculo criado em 2019 volte a se apresentar presencialmente em São José e que possa também ganhar outros mundos por aí.

Antes da peça começar, aparecem avisos de gatilho, uma atitude ética por parte dos artistas, um gesto de cuidado com pessoas sensíveis a determinados conteúdos. Ao ver as cartelas com os avisos, pensei nas tantas vezes em que, assistindo a um telejornal, por exemplo, fui pega de surpresa com a exposição de imagens insuportáveis de miséria e violência, que me perturbam profundamente. Enquanto isso, qualquer imagem de nudez, condição básica do ser humano, é tratada com alarde, como se a visão de um corpo nu causasse perturbação. É curioso, porque o corpo nu sempre foi objeto de estudo da arte (e do belo na arte) e agora se tornou uma espécie de gatilho de recalque de uma sociedade ressentida consigo mesma, reprimida e moralista. Mas, enfim, esse breve comentário sobre gatilhos está aqui para marcar uma posição, fazendo coro com a peça: depressão, pânico e vontade de se matar são problemas reais e imensos. 

O que vemos neste trabalho solo de Renato de Sousa Júnior é um palhaço na lida com uma profunda solidão. Pode-se dizer que esta é uma peça de temática adulta, mas vale fazer a ressalva de que as crianças podem também ter uma experiência com o espetáculo. A figura do palhaço, nesse sentido, é uma chave que pode suspender algumas diferenças, encurtar certas distâncias. O palhaço (ou a palhaça) pode ter a capacidade de furar a bolha do mundo adultocêntrico em que nos aprisionamos e nos fazer perceber o que está à nossa volta com outros sentidos. Acontece de tudo na jornada desse personagem, que começa oprimido pela solidão e pelo tédio no confinamento do espaço doméstico, mas depois se lança em aventuras pelo espaço – e aqui podemos dizer que enquanto ele viaja pelo imaginário mais externo que podemos imaginar, ele viaja também para o seu espaço interior, experimentando afetos e movimentando o desejo pela vida.

A cenografia e o figurino apresentam no início um mundo em preto e branco. Apenas alguns elementos, indicativos de vida, estão pontuados de vermelho: uma flor, o nariz de palhaço e os domingos no calendário dos dias que passam em vão. Os domingos podem ser vistos como aqueles dias que são completamente nossos, em que as repostas às demandas externas podem ficar todas para o dia seguinte. O nariz de palhaço é o sinal do tipo de elaboração que vira a chave da percepção, que mostra o avesso das coisas. A flor, um indicativo de que a vida está aí, mas que passa rápido. Além disso, esse objeto de cena, uma flor artificial vermelha, vai ser uma poderosa fonte catalisadora de ternuras. 

A vida, na peça, vai chegando com as cores, especialmente com as imagens de um livro, em que se vê artefatos que podem fazer uma pessoa voar. Asas gigantes acopladas às costas de um homem com uma espécie de tanga. Um chapéu com hélices. Um conjunto de balões de que me lembraram da já lendária história do padre do balão. Um estilingue humano. Os foguetes e suas formas, inegavelmente fálicas, que tanto nos dizem sobre as motivações mais primárias da corrida espacial no mundo dos homens. 

Depois de muitos fracassos na sua empreitada suicida, o palhaço vai enfrentar as frustrações e as conquistas de quem está disposto a se lançar ao desconhecido. Mas como ele faz para que nós, espectadoras e espectadores, partamos com ele nessa viagem? Penso que há duas forças no espetáculo que nos costuram nessa história, que criam vínculo entre a cena e o público. 

Uma delas é o tempo. Nos primeiros minutos da peça, há uma relação de tensão com o tempo. O vazio e o tédio dão a sensação de que tudo é inócuo, sem sentido. Há dois relógios em cena. Em um deles, os ponteiros giram vertiginosamente, como se a vida estivesse escapando por entre os dedos. No outro, os ponteiros estão parados, numa sensação de marasmo. O andamento marcado pelo som do metrônomo e a repetição dos acordes na trilha sonora colaboram para dar ênfase à percepção densa do tempo. Renato ocupa esse espaço vazio, cuida do tempo da cena de um modo que nos convida a sair do tempo acelerado da produtividade cotidiana e a entrar no tempo da peça, no tempo da sua tristeza – quem em breve se desdobra no tempo da sua curiosidade e do seu humor. A edição do vídeo também brinca com o tempo, acelerando ações ou criando repetições. 

Pelo que também se vê em Birita procura-se, outro espetáculo do grupo em cartaz no ambiente online do FESTIVALE, a lida com o tempo na palhaçaria parece ser uma pesquisa específica e consistente do grupo. Talvez seja por causa da sua relação com o tempo que as crianças tenham mais facilidade do que imaginamos (ou lembramos) de lidar com espetáculos que não necessariamente foram criados para elas. Imagino que seja mais possível embarcar numa peça quando ela aposta com firmeza nos seus próprios ritmos. É como no tempo da infância, considerando a conexão profunda da criança com o universo ficcional da brincadeira, que constrói seu estado de presença no momento em que o jogo está acontecendo. 

A outra força da peça é a amizade. Ao longo do espetáculo, aquele homem solitário vai estreitando laços com a florzinha que é sua única companhia. A relação entre eles é tão bem amarrada que nos inclui. Tem um amor ali. E onde podemos amar é onde devemos nos demorar. 

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