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Sertania Nordestina – as Léguas Tiranas de Luiz “Lua” Gonzaga: um lindo tributo ao grande representa

Alexandre Mate
26/10/2021 às 16:56.
Atualizado em 26/10/2021 às 16:56

Dizem, as gentes lá das sertanias, mais especificamente aquelas próximas da Serra do Araripe, que, no agora distante 1912, nasceu um moleque. Evidente, desde sempre nascem moleques e meninas... Aquele moleque, entretanto, ao ficar peladinho, apresentava movimentos das mãos e dos dedinhos como se estivesse a tocar uma sanfona. Quanto aos pés, percebia e comentava toda a gente: “oxi, parece que tá a dança um baião!!!” Verdade ou mentira (e esse par de oposição tem suas variantes tão próximas,,,), o fato é que aquele moleque, além de observar agudamente seu quintal, campeou mundos para conquistar sua sanfona.

Luiz “Lua” Gonzaga teve, como toda a sua gente, uma vida difícil, mas, distante de sua sertania, descobriu o mundo pela musicalidade de seu talento e sensibilidade para os “xaxamentos”, sempre fortemente líricos, dos sons em estado de musicalidade.

Realmente, não é possível saber se Cláudio do Vale esteve lá para as bandas da Araripe, se ele brincou com Luiz Gonzaga, se eles mamulengaram, cantaram e fizeram aquelas peripécias que a criança experimenta... o fato é que em sua imensidão artístico-humana, Cláudio que tem lá os seus segredos... presta uma lindíssima e pungente homenagem ao maravilhoso e inesquecível artista brasileiro; Luiz “Lua” Gonzaga. Impossível não ficar emocionado com o belíssimo espetáculo (lindo rebento com 22 anos de idade!). Gente!! É possível imaginar o número de pessoas que se emocionaram, ao longo deste significativo percurso de tempo, ao ter contato com a obra? É possível imaginar quanta gente chorou, cantou, sentiu-se parte de um imenso território Brasil? Gente, que expulsa de sua terra, pelos mais diversos motivos, conseguiu voltar ao seus Nordestes de origem, sem precisar sair do lugar? É isso Sertania Nordestina – as Léguas Tiranas de Luiz “Lua” Gonzaga, além de suas belezas, promove uma viagem metafórica, singrando (cortando) tempos e espaços, limites e

(im)possibilidades.

O espetáculo concebido, dirigido e apresentado pelo excepcional rapsodo (narrador) e ator-cantor Cláudio Vale caracteriza-se em tributo encantatório a Luiz Gonzaga e a toda gente artista dos Nordestes brasileiros. Seguido por um trio de músicos: Denilson de Paula – zabumbeiro e percussionista; Gileno Borges – trianguleiro (sobretudo) e o impecável e comovente Eliomar Landim. Em determinados momentos do espetáculo, fica difícil saber quem é o instrumento e quem é o instrumentista, tal a simbiose entre ambos. Neste trio arrebatador, Gileno e Eliomar são sérios, mas Denilson tem o “espírito da festa”, também na performatização com os instrumentos. Enfim, o quarteto e arrebatador. A qualidade cênico-musical tem momentos inesquecíveis, de arrancar choros gritados pelo silêncio da beleza popular. Um desses momentos, e perdoem por destacá-lo, aproxima as belezas do baião e do tango: as mnarrativas de Cláudio tendo ao fundo Por una cabeza (de para todo o sempre Carlos Gardel) é de indescritível beleza!!

De modo adverso àquele por meio do qual o espetáculo é apresentado na sinopse, não se trata de um repente, por um conjunto de motivos, sobretudo em razão de ser um trabalho solo e estruturado a partir de uma partitura (muitíssimo bem urdida) e não porosa. Na obra ganha destaque o sujeito efabulador, que sabe contar, vividamente e com corpo mamulengueiro, uma bela história de vida. De certo modo, e como comentei durante o bate papo, pós-espetáculo, trata-se de um “número de cortina”, expediente que ficou muito famoso do teatro de revista e permitiu às/aos artistas que mostrassem seu imenso talento relacional e expressivo.

Cláudio do Vale é ator, dançarino, tem um domínio absoluto da respiração, dos tempos e da melodiosidade da fala. É aquilo que antigamente se chamava de “homem do teatro” ou artista completo. Beto Quadros e o nosso muito mais que querido Calixto de Inhamuns, durante a apresentação da obra, e na coluna de bate-papo, teceram comentários muito elogiosos ao Cláudio e ao trio musical. Então, é isso, temos raízes, sim! 

Temos um imenso trabalho de retirar do lodo do esquecimento (imposto, sobretudo, por “vendilhões dos templos modernos”) tanta gente maravilhosa que veio antes de nós. Claudinho está fazendo a sua parte, e nós!? Aliás, MUITA gente artista de valor, tem cantado a linda São José dos Campos, e esta 35ª edição do Festivale tem demonstrado, cabalmente, isso!

Para finalizar, indiquei ao Claudinho que buscasse Assis Valente e que o trouxesse até nós... Então, Alegria, do maravilhoso compositor, nascido na Bahia: “Alegria, pra cantar a batucada/ As morenas vão sambar,/ Quem samba tem alegria,/ Minha gente era triste, amargurada/ Inventou a batucada,/ Pra deixar de padecer,/ Salve o prazer, salve o prazer”.

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