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O Coração nas Sombras: um álbum crudelíssimo repleto de fotos, sem nenhum tratamento

Alexandre Mate
26/10/2021 às 17:43.
Atualizado em 26/10/2021 às 17:43

Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força

Tão paradas e frias e mortas,

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil: 

Em que espelho ficou perdida minha face?

Cecília Meireles (Retrato).

Sim, tinha de começar com um/este poema. Sim tinha de expressar, inicialmente, o rebuliço interior provocado por obra tão bela! Sim, tinha de... de fazer um salto!

À semelhança de cada pessoa, um espetáculo teatral apresenta-se envolvido em distintas e nem sempre harmônicas camadas de sentidos, principalmente simbólicos. Talvez a característica mais intrínseca e profunda, mesmo não se caracterizando propriamente em uma camada, diga respeito à atmosfera de mistério repleta de metáforas metonímicas poderosas, a exigir decifração. Pessoas e espetáculos têm reservas, segredos escondidos, potências deslimitadas, adversidades harmônicas em profusão, altos e baixos, instabilidades, arrebatamentos... A relação com um espetáculo, estou convencido, caracteriza-se em uma espécie exemplar de ser vivo, que ao ser aceito ou rejeitado pode nos conduzir ao melhor (ou ao seu contrário/adverso) de nós mesmos. Genericamente, um espetáculo pode ser o outro, mas – e tantas vezes, o que é muito bom – pode ser um se-me-lhan-te. Uma palavra “parente” de espetáculo é, exatamente, admirar...  e têm a ver com esse estado de simbiose cognitivo-emocional.

O Coração nas Sombras é obra delirante! Sua narrativa é constituída por uma conjunção de belezas. O texto dramatúrgico de Luís Alberto de Abreu é comovedor, contundente, nele apreensão crítica e tratamento lírico imbricam-se excepcionalmente. A direção do espetáculo é impecável, limpa (e mesmo tendo ocorrido de modo virtual) materializa-se em belíssimo trabalho de Kiko Marques. O trabalho de interpretação, conciliando narração e mimese, é maravilhosamente apresentado por Andréia Barros, Caren Ruaro, Josivan Costa e Sheila Faermann. Tomando o memorável texto de Luís Alberto de Abreu, trata-se de uma obra inserida em proposição épico-teatralista. Portanto, do ponto de vista formal, há determinantes históricos e geográficos bem definidos. Nessa periodização espaço-territorial, cujo epicentro refere-se ao Sanatório de Barbacena, em Minas Gerais, há um aterramento que une, em similaridade e contraste, ancestralidades e tempos passados mais distantes e próximos.

Nestes últimos, Letícia Poletti tem função protagônica e representa alegoricamente todas as mulheres que têm sido seviciadas, massacradas e pisadas (e, do mesmo modo como aparece no texto, “a gente preta, pobre e parda”) pelas sociedades administradas e geridas pelo patriarcado misógeno e feminicida. Na criação visual, compreendendo cenografia, figurinos e adereços, de Pitiu Bomfin, predominam os tons cinzas e brancos, para se assemelhar aos documentos videofotográficos e às cores das instituições de encarceramento da gente “diferente”, que foge dos padrões. Beto Quadros, sempre certeiro e contundente, pontua a obra com uma trilha que lembra a sonoridade do ninar aos gritos calados, entretanto lancinantes, da música Querelas do Brasil.

Com relação à inserção de materiais reais na obra (por exemplo as reproduções videocinematográficas e fotos), em teatro existe um conjunto de convenções que chegam pelo crivo do estético. Então, em artes transita-se com a realidade, com os simulacros (aquilo que se coloca no lugar do real). Aliás, quais são as diferenças entre o que é real e o que é ficcional?! O que se encontra na condição de algo ficcional que não tenha partido de algo real?

Gostaria muito de fazer uma discussão a esse respeito, mas não se tem aqui um espaço propício para isso. Desse modo, a legitimidade dos documentos em arte, fundamentalmente, pode ser encontrada na potência dos atos manifestados pelos sujeitos da criação. De outro modo, o fenômeno teatral “acontece potencialmente” quando, como é o caso de O Coração nas Sombras, se tem a contundência de uma obra cujos pontos de vista sócio-histórico-estético-politicos são expostos e apreendidos nos diversos elementos de sua constituição ou tecimento.  

Por último, além de louvar o trabalho coletivo (como já o fiz), quero manifestar e documentar aqui uma de minhas ponderações apresentadas durante o bate papo, conduzido magistralmente por Simone Carleto. O grande mestre Claudio Mendel, sem a menor sombra de dúvidas, poderia dirigir (e muito bem a obra que completa a trilogia criada por Luís Alberto de Abreu e a Companhia Teatro da Cidade), mas, generoso que é, preferiu colocar-se como assistente de direção. 

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