FestiVale

Birita e a faca afiada das sutilezas

Lívia Mattos
26/10/2021 às 17:00.
Atualizado em 26/10/2021 às 17:00

Com um humor sensível e instigante, Ariadne Antico trouxe, através do espetáculo "Birita, Procura-se", um documento poético extremamente tocante e belo, que nos desloca e nos espeta. Reflexões acerca do capacitismo*  são provocadas ao "respeitável público", orquestradas pela comicidade construída pela palhaça, com seu corpo, sua história e sua dramaturgia. Trata-se de um convite ao riso, mas deslocando o viço preconceituoso, historicamente reiterado, de rir da deficiência alheia, na medida em que convida o público para rir com ela - não dela. 

Através de uma pesquisa de corpo interessantíssima, explorando as possibilidades cênicas dos seus movimentos voluntários e involuntários - por conta de uma paralisia cerebral (PCD) - Ariadne apresenta um partitura corporal única, que oferece um vasto repertório cômico para sua palhaça, para alegria de quem a contempla. Desta forma, desperta-nos a entender cada corpo como único e potente, bem como sentir, em nossas reverberações individuais e coletivas, a arte como agente transformador. Pela faca afiada das sutilezas, as violências do capacitismo são expressadas no espetáculo, questionando a superproteção à pessoas com deficiência, deslocando o caminho de um humor depreciativo, para uma comicidade pautada num corpo que cria suas lógicas, suas soluções, sua maneira de ser e estar no mundo.

O roteiro é costurado pela busca de emprego da personagem, que metaforiza a busca do seu lugar no mundo. Como estratégia cômica, escolhe-se passar pelo experimento de profissões que dilatam as suas dificuldades motoras - garçonete, locutora de rádio e enfermeira - explorando jogos com objetos e consigo mesma, até chegar a uma vaga de cota para deficientes numa empresa multinacional, como se enfim, teoricamente, encontrasse um lugar que fosse para ela. No auge do seu conforto em alcançar este emprego, confronta-se por 3 anos com o capacitismo de seus colegas de trabalho, que a tratam como  incapaz para toda e qualquer função. Generalizam a sua deficiência para toda sua existência, infantilizando sua capacidade e menosprezando as suas emoções, como se sempre fosse aceitar a violência do preconceito de forma amável e tolerante  - como se aquele emprego fosse uma ato generoso da empresa e não um direito. O final do espetáculo marca uma ruptura com essa emblematização e a consagração da ideia de que cada um - cada corpo, cada pessoa - é única, assim, é preciso desconstruir padrões de normalidade hegemonicamente estabelecidos e aprender a lidar com as possibilidades-potência de cada um.

Finalizo essa escrita parabenizando o trabalho maravilhoso de Ésio Magalhães, responsável pela direção do espetáculo, bem como toda equipe responsável pela apresentação, destacando o trabalho desenvolvido com a captação audiovisual - Marcos Yoshi e Yghor Boy - onde vê-se um diálogo e interlocução criativa e dinâmica, ora atuando como os  olhos do público, guiando-nos em planos sequência, ora respondendo às provocações da palhaça ou da voz em off; ora provocando-nos em sensações. Fico à espreita dos próximos trabalhos de Ariadne, atenta aos caminhos que a sua inquietação artística nos levará. E que a sua militância seja a de todos nós.

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