Investigação

Provas reunidas por ex-assessores reforçam suspeita de rachadinha em gabinete

Entre essas provas, às quais OVALE teve acesso, estão conversas gravadas em vídeo e em áudio e também trocas de mensagens pelo WhatsApp; gabinete de Leticia Aguiar é alvo de inquérito do MP

Julio Codazzi
15/10/2021 às 21:30.
Atualizado em 15/10/2021 às 23:20
A deputada estadual Leticia Aguiar (PSL) e o chefe de gabinete dela, Anderson Senna (Divulgação)

A deputada estadual Leticia Aguiar (PSL) e o chefe de gabinete dela, Anderson Senna (Divulgação)

Provas reunidas por ex-assessores e entregues ao Ministério Público reforçaram a suspeita da existência de um esquema de rachadinha no gabinete da deputada estadual Leticia Aguiar (PSL).

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Entre essas provas, às quais OVALE teve acesso, estão conversas gravadas em vídeo e em áudio e também trocas de mensagens pelo WhatsApp.

Os diálogos apontam que os assessores repassavam até 80% dos salários para o chefe de gabinete, Anderson Senna, e para o assessor especial parlamentar Carlos Alberto Fávaro, que é o terceiro na hierarquia do gabinete – atrás apenas de Leticia e de Senna.

Um dos materiais é um vídeo gravado no escritório regional da deputada, em São José dos Campos, no dia 21 de fevereiro de 2021, 11 dias após o MP instaurar inquérito para apurar o caso.

O vídeo foi gravado por J.P., um assessor que havia ingressado no gabinete em janeiro. Ele recebia salário bruto de R$ 5.236,43 – o líquido era de R$ 4.110,58, além de vale-alimentação (R$ 631 depositados com o salário) e vale-refeição (um cartão com R$ 1.048).

Na conversa com Fávaro, J.P. diz que Senna havia combinado que o funcionário poderia ficar com R$ 2.000 do salário líquido e com os dois benefícios – ou seja, ele repassaria R$ 2.110,58 ao chefe de gabinete. No mês seguinte, Senna teria mudado o cálculo e dito que os R$ 2.000 a que o assessor teria direito já incluíam o valor do vale-alimentação.

No diálogo, Fávaro se oferece para conversar com Senna sobre o problema. “Ele [Senna] comentou comigo que vocês dois iam dividir [o salário]”, diz o assessor especial, que também demonstra preocupação com a investigação da Promotoria. “Se precisar depois conversar com todos vocês a respeito, aí é uma decisão da deputada e do Senna, e eu também quero chegar num ponto para eu sentar com o Senna, quero ver se eu tenho que ficar preocupado”.

BRONCA.

Contrariado com o não cumprimento do acordo inicial, J.P. passou a fazer mais gravações. Gravou, por exemplo, uma conversa por telefone em que Senna – segundo o relato – combinaria de passar no escritório para receber o dinheiro. “Hoje tô aí, mais tarde, depois do almoço tô aí, e a gente faz aquele fechamento”, diz o chefe de gabinete.

J.P. também gravou conversas com outras duas assessoras que, assim como ele, tinham que devolver parte do dinheiro que recebiam. Nos diálogos, J.P. diz que avisaria Senna que não iria mais dividir o salário e que, se fosse exonerado por não aceitar mais participar do esquema, iria procurar o MP – de fato, as gravações só foram divulgadas após a demissão do assessor, no dia 13 de setembro. “Eu vou ser conivente? Eu não tenho dinheiro para pagar advogado. Isso é corrupção passiva, o que nós fazemos é corrupção passiva”, afirma J.P..

Uma das assessoras gravadas foi M.A., que recebia o mesmo salário que J.P, mas diz que devolvia uma quantia maior. “Eu fico com o Sodexo [o vale-refeição], mais R$ 1.500”. Esses R$ 1.500 seriam a soma de cerca de R$ 900 de salário e R$ 631 de vale-alimentação.

Na conversa, M.A. diz para J.P. que chegou a reclamar com Senna sobre o montante que precisava repassar ao chefe de gabinete. “O mês passado, quando fui conversar com ele, ele falou: 'já era para você ter saído, eu que te segurei, para te ajudar'. Eu falei: 'me ajudar? Dou 80% do meu salário para você, e você tá me ajudando?'. Falei: 'ah, Senna, tá louco, pelo amor de Deus, só está nós dois aqui. Tá querendo enganar quem?'. 'Ah, vou ver se eu consigo te segurar mais um tempo'. Falei: 'não segura, não. Manda embora agora. Hoje mesmo, faz o meu papel, e já vamos acabar com isso aqui'. 'Não, calma, calma. Não é bem assim. Vai lá pro seu canto, fica tranquila, vou falar com a Leticia, vamos ver o que a gente pode fazer'. Hoje faz um mês que eu falei. Hoje veio cobrar, que precisa do dinheiro”, diz a assessora.

“O pior é você pegar o holerite, ter R$ 4.900 lá na sua conta, e você saber que não é seu. E esses R$ 4.900 vai fazer falta diferença nas contas que eu tenho. Eu não ia estar com nada atrasado”, reclama M.A, que foi exonerada em julho.

Outra assessora, F.C., diz que fica constrangida ao dar parte do salário para Senna. “Eu morro de vergonha de levar o dinheiro para ele, eu nunca sei a hora que eu tenho que ir lá e levar”.

WHATSAPP.

Outra prova enviada ao Ministério Público consiste em mensagens que teriam sido trocadas pelo WhatsApp entre M.A. e Fávaro entre outubro e novembro de 2020 – a assessora havia sido nomeada para o gabinete em agosto daquele ano.

Troca de mensagens pelo WhatsApp entre assessora da deputada Leticia Aguiar e Carlos Alberto Fávaro, 'número 3' do gabinete (Reprodução/WhatsApp)

Troca de mensagens pelo WhatsApp entre assessora da deputada Leticia Aguiar e Carlos Alberto Fávaro, 'número 3' do gabinete (Reprodução/WhatsApp)

Em outubro, segundo as mensagens, M.A. pediu os dados bancários da conta de Fávaro e depois transferiu R$ 3.280 para o assessor especial, enviando o comprovante em seguida.

Em novembro, Fávaro diz que “Senna não gostou” que o dinheiro fosse transferido diretamente à conta e ainda afirma que poderia levar M.A. ao banco para que ela fizesse o saque. “Não diga nada a ninguém”, alerta. Na conversa, Fávaro pede que M.A. leve o dinheiro para o escritório no dia seguinte. “Amanhã me entregue aqui”.

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