Especial

Morte por síndrome respiratória aguda grave aumenta 500% no Vale este ano

Por falta de exames, a Covid-19 pode estar ganhando nome de outras doenças respiratórias nos atestados de óbito

Xandu AlvesPublicado em 06/05/2020 às 00:00Atualizado há 24/07/2021 às 21:26
Pandemia em São José dos Campos (Sergio Nascimento)

Pandemia em São José dos Campos (Sergio Nascimento)

O número de mortos pela Covid-19 pode ser ainda maior do que as estatísticas oficiais apontam no Vale do Paraíba.  O motivo é que cartórios da região têm registrado aumento de óbitos por doenças respiratórias, principalmente de síndrome respiratória aguda grave, conhecida pela sigla SRAG.

Segundo dados do portal de Transparência do Registro Civil, com levantamento nas 12 maiores cidades do Vale, que representam 84% da população da região, o número de mortes por síndrome respiratória aguda grave aumentou 500% neste ano na comparação com o ano passado.

De janeiro a 15 de maio de 2020, as 12 cidades registraram 18 mortes por SRAG, contra três óbitos no mesmo período do ano passado. Segundo epidemiologistas, a síndrome respiratória aguda grave pode ser consequência de outros vírus e doenças, mas o aumento no meio de uma pandemia causada pelo novo coronavírus não deixaria dúvidas.

Por falta de exames, a Covid-19 pode estar ganhando nome de outras doenças respiratórias nos atestados de óbito.

No país, de acordo com dados de cartórios, desde o registro da primeira morte por Covid, em 16 de março, houve um aumento de 1.035% no número de mortes por síndrome respiratória aguda grave. “Se houvesse exames confirmatórios, os pacientes iria de alta ou óbito com diagnóstico fechado. O problema é a falta de exames específicos para o diagnóstico do coronavírus”, disse Sérgio Zanetta, médico sanitarista e professor de Saúde Pública do Centro Universitário São Camilo, em entrevista a O Globo.

O que também reforça a tese de subnotificação das mortes por Covid-19 na região do Vale é o aumento de 25% no registro de mortes por causa indeterminada. Foram 55 casos neste ano, de janeiro a 15 de maio, contra 44 no ano passado, no mesmo período.

MORTES.

Outra diferença em dados registrados em cartórios é no número de mortes atribuídas à Covid-19. Nas 12 maiores cidades da região, neste ano, os cartórios apontam 64 óbitos pela doença, enquanto os municípios divulgam 45 mortes por Covid-19, 42% de aumento.

“O que acredito que esteja ocorrendo é uma demora da notificação”, disse o demógrafo Leandro Becceneri, de São José dos Campos e que é doutorando em Demografia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“A declaração de óbito é feita em quatro vias. Uma delas vai para a Secretaria Municipal de Saúde e a outra é protocolada no cartório. Quando se quer os dados rapidamente, pode ocorrer esse tipo de incompatibilidade”, completou.

REGISTRO.

A Secretaria de Saúde de São José dos Campos explicou que a informação dada pela pasta é considerada oficial, de 19 mortes até 15 de maio. Nos cartórios, a cidade aparece com 27 óbitos, também 42% acima dos dados oficiais.

A explicação é que, no início da epidemia, com a demora no resultado de testes, médicos teriam atestado o óbito por Covid-19 em razão de sintomas do pacientes, mas sem a confirmação por exame. A pasta reforça que o dado oficial é aquele lançado pelo município no sistema do Ministério da Saúde, que aponta 19 casos em São José, e não 27 como apontam os cartórios.

SUBNOTIFICAÇÃO.

O Secretário Estadual da Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, admitiu a existência de subnotificação no controle da doença, que seria menor no caso de óbitos.  “Pelas próprias características da Covid-19, no seu contingente de casos confirmados, 20% irão para atendimento hospitalar. São esses que estão sendo testados. O índice de 20% internação faz parte da patologia”, afirmou.

Segundo ele, o número correto de casos se aproximaria de cinco vezes o quantificado, em razão de que 80% das pessoas contaminadas por coronavírus terão pouco ou nenhum sintoma, e não procurarão o serviço de saúde. “Os 80% não aparecem e não tem sintomas e necessidade de tratamento, muito menos de tratamento hospitalar.”

RETROVISOR.

O médico Dimas Covas, coordenador do Comitê de Contingência do Coronavírus em São Paulo e diretor do Instituto Butantan, disse que a subnotificação “existe em todos os países do mundo”.

“Temos que entender que casos internados e confirmados representam o limite inferior da curva de ascensão. A subnotificação vai acontecer. Temos que adiantar os testes para ter uma visão mais próxima da realidade, mas ainda assim é olhar pelo retrovisor. É importante olhar à frente e estabelecer cenários do que encontraremos pela frente”, informou o coordenador.

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