Especial

Inpe em risco: instituto vive ameaça de desmonte e vira alvo de ataques da ala ideológica do governo e do próprio Bolsonaro

29/08/2020 às 01:47.
Atualizado em 24/07/2021 às 15:05
Ciência. Pesquisadores trabalhando no Inpe, em São José dos Campos; corte de verba ameaça pesquisas (Divulgação)

Ciência. Pesquisadores trabalhando no Inpe, em São José dos Campos; corte de verba ameaça pesquisas (Divulgação)

O Inpe é o novo inimigo.

De nação estrangeira de olho na expertise internacionalmente reconhecida do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que faz 60 anos em 2021? Nada disso.

O Inpe virou o inimigo da onda negacionista que varre o mundo e chegou ao poder pelas mãos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus apoiadores.

O embate começou “oficialmente” com questionamentos aos dados do desmatamento da Amazônia, em julho do ano passado, pelo próprio Bolsonaro. Embora já houvesse críticas desde antes da posse.

As ilações sem base científica culminaram na demissão do então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, que bateu de frente com o presidente.

Mas criticar os dados do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia não é novidade. Tem histórico em governos bem diferentes, como os de José Sarney, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Mas há na atual gestão um fator mais grave. O Inpe confronta a política ambiental de Bolsonaro, acusado de desprezar a preservação.

O presidente também sonha em ter um satélite “sem ideologia” para monitorar a Amazônia, além de querer transformar o instituto em uma organização militar ou ao menos torná-lo similar a uma. Nela, ordens são cumpridas.

Em artigo para o site ‘Direto da Ciência’, Claudio Angelo, coordenador de Comunicação do Observatório do Clima, resumiu a cruzada de Bolsonaro: “O Inpe é o novo Ibama”.

“Demorou mais de um ano e meio, mas finalmente o governo Bolsonaro parece ter aprendido o que fazer para não ter mais dor de cabeça com os dados de desmatamento. Vai destroçar o instituto”.

LEIA MAIS: Escolha do próximo diretor do Inpe indicará rumo que instituição tomará nos próximos anos

DESMONTE.

OVALE conversou com diversos pesquisadores do Inpe, membros da comunidade científica e pessoas ligadas ao instituto e o sentimento é o mesmo. Há um desmonte do Inpe em curso. A medida obedece algumas fases.

A primeira é desacreditar o instituto frente à opinião pública, contando com milhares de repetidores nas redes sociais para alastrar críticas ao Inpe, que teria viés “esquerdista” e até “comunista”.

Depois, redução no orçamento. A previsão para 2021 (ainda não fechada pelo governo) é de R$ 79,7 milhões, contra R$ 118 milhões em 2020, este já abaixo de anos anteriores.

Em 2016 e 2017, o valor foi de R$ 149 milhões, que teria sido superior a R$ 200 milhões em anos anteriores, segundo fontes no Inpe.

O orçamento do instituto vem direto do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e parte da AEB (Agência Espacial Brasileira). Esta, agora em agosto, informou que reduzirá o valor à metade, com a verba para pesquisas praticamente zerada.

O anúncio pegou muito mal ao se revelar que, ao mesmo tempo em que zera o valor para pesquisa no Inpe, a AEB gastará R$ 5,5 milhões para comprar divisórias. Mais ainda: a troca do comando.

Após a saída do cientista Ricardo Galvão, o governo indicou o coronel da Aeronáutica Darcton Damião como diretor interino. Segundo fontes, ele é um dos mais fortes candidatos a ocupar o cargo em definitivo (leia texto na página 4).

Além de não ter respaldo da comunidade científica, Damião comanda uma reestruturação no Inpe, que reduz e retira poderes das coordenações, com exoneração da pesquisadora Lubia Vinhas da coordenação-geral de Observação da Terra. A ela estava subordinado o Programa Amazônia, que mede o desmatamento.

“Parece que o Inpe está sendo preparado para deixar de existir formalmente e ser diluído em mais instituições”, disse um analista do Inpe. “O clima é de total tensão”.

Outra pancada em agosto.

O Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), órgão do Ministério da Defesa, empenhou R$ 145 milhões para comprar um microssatélite que gerará imagens-radar para monitorar a Amazônia, sendo que imagens semelhantes estão disponíveis gratuitamente.

“O governo não vai fechar o Inpe, mas vai reduzindo aos poucos. Daqui a pouco, o órgão vai desaparecendo e deixa de ter serventia. Forma mais insidiosa de atacar uma organização”, disse um servidor com quase 40 anos de Inpe.

O Ministério da Ciência e o diretor interino do Inpe negam que a reestruturação vá prejudicar o instituto e confirmam a importância do órgão ao país.

'Atual situação é de desastre anunciado',afirma o sindicato dos servidores do Inpe

O SindCT (Sindicato dos Servidores de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial), que tem sede em São José, aponta que o Inpe está com metade da sua força de trabalho, em torno de 700 servidores --2.080 em 1990.

Um 'socorro' vem das contratações indiretas, como de bolsistas, mas não resolve o problema. "Não fará o instituto sobreviver enquanto produtor de ciências, serviços ambientais, satélites e formação de pessoal para estas atividades", disse Francisco Rimoli Conde, secretário Jurídico do sindicato.

Para ele, o instituto não sobrevive mais "meia década" sem gente e com queda no orçamento.

Conde disse ainda que militares da Aeronáutica têm interesse direto na área de satélites, programa que hoje é todo civil. "A entrada abrupta [dos militares] sem longo preparo é temerária, senão assustadora"..

Siga OVALE nas redes sociais
Copyright © - 2021 - OVALETodos os direitos reservados. | Política de Privacidade
Desenvolvido por
Distribuido por