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Desde meados de março, no começo do isolamento social por conta do coronavírus, a cantora Teresa Cristina faz lives praticamente diárias reunindo milhares de pessoas. Um projeto que começou improvisado, "como um remédio", diz ela, entrou na rotina noturna de muitos, com música, informação e convidados. Passaram-se mais de dois meses e, entre as mais de 60 transmissões pelo Instagram, parte deste conteúdo se perdeu. "Algumas noites eu perdi, mas sei que parte delas foi gravada pelos cristiners [como os fãs das lives da cantora se autointitulam]. Quero recuperar esse material para poder subir no YouTube", diz Teresa, que desde o dia 13 de maio tem salvado todo o conteúdo. "Toda essa troca, as participações, a forma como os artistas e o público interagem, isso precisa ser preservado". A preocupação de Teresa reflete uma insegurança antiga: a finitude do que é produzido nas plataformas digitais, que mobiliza sites como Archive.org e Way Back Machine. A questão se agrava com o confinamento, que fez os artistas voltarem sua produção para a web diante da impossibilidade de fazer shows, lançamentos físicos de livros e estreias de peças. E a live, um recurso emergencial, acabou virando moda com a Covid-19. Mas, terminada a transmissão, surgem dúvidas sobre sua permanência. E se o conteúdo esconder-se nas zonas abissais da web ou for apagado por problemas técnicos? E se a rede social em que foi postada acabar? "Vivemos um momento em que a internet não tem memória, e isso é preocupante", diz Ronaldo Lemos, pesquisador especialista em tecnologia, mídia e propriedade intelectual. — Com essa cultura da live, as pessoas estão produzindo conteúdo de alta qualidade em plataformas que foram desenhadas para que as coisas desapareçam. Para Lemos, a estrutura das redes sociais, em sua sede infinita por novidade, está gerando conteúdos efêmeros. "No Facebook, por exemplo: é muito difícil encontrar nos perfis qualquer coisa que não seja da semana em que a busca é feita. As coisas ficam enterradas nos feeds dos usuários, não há uma opção para pesquisar efetivamente dentro dos perfis". Lives não vivem O problema é sobretudo técnico. Cientista e professor da Cesar School, em Pernambuco, Silvio Meira lembra que o espaço de armazenamento digital disponível este ano é 20 vezes menor que toda a produção global na internet ao longo de 2020. Por isso, optamos por não guardar quase todas as conversas, fotos e vídeos que geramos on-line. De acordo com estimativas da empresa de dados americana Interactive Data Corporation, 95% de toda a produção digital no mundo em 2020 será jogada fora. E o que ficou armazenado não deverá ter vida longa. "A quase totalidade se perde imediatamente, e a chance de sobrevivência até 2025 daquilo que é guardado é quase zero", diz Meira. "Temos um problema monumental de preservação da memória digital, de todos os seus fragmentos, seja da mídia, das universidades, das instituições..." Em seus diálogos publicados na obra "Não contem com o fim do livro" (Record), de 2009, o escritor Jean-Claude Carrière e o semiólogo Umberto Eco lembram de antigos suportes digitais criados para armazenar livros e outros documentos, como disquetes e CD-ROM. Os dois pensadores observam que essas ferramentas — consideradas a fina flor da tecnologia em suas épocas — já estão superadas há tempos, enquanto manuscritos medievais continuam bem preservados nas bibliotecas. O próprio formato do livro físico segue firme e forte, apesar da concorrência do e-book. Na era do digital, um exemplo que causou grande impacto no Brasil foi o Orkut, a primeira rede social do país, que chegou a ter quase 30 milhões de usuários em 2011. O site saiu do ar em 2014, desaparecendo com bilhões de fotos e interações. Pouquíssima gente se lembrou — ou teve paciência — para salvar o que tinha colocado lá. "Nada impede que o mesmo aconteça amanhã com o Instagram ou o YouTube", diz Silvio Meira. "Sem falar que, para governos que querem limitar o acesso aos sites, é quase como desligar da tomada. Basta subir um firewall para bloqueá-los, como acontece na China e no Irã". Quem posta, cuida? Procurado, o YouTube respondeu que "cabe ao criador ou a quem administra seu canal decidir sua estratégia com o conteúdo, e quanto tempo ele ficará disponível". Perguntado sobre o eventual risco de tirar algum material do ar, a resposta limitou-se a questões jurídicas: "Quando removemos um conteúdo, essa ação é reflexo de uma violação às nossas diretrizes, ou de uma decisão judicial, de acordo com o que estabelece o Marco Civil da Internet", disse o site, via assessoria. Já o Instagram, também por meio de sua assessoria, diz que, em abril, começaram a ser realizados testes "para permitir que as pessoas possam facilmente salvar seus vídeos Ao Vivo diretamente no IGTV, para preservar esses momentos e fazer com que o conteúdo permaneça disponível por mais que o limite de 24 horas do Stories". Também em abril, a plataforma anunciou a possibilidade de o usuário ver e comentar vídeos ao vivo por meio da versão web do Instagram — além de poder enviar mensagens individuais ("no Direct"). Na produção cultural, a fugacidade tem um efeito tanto na performance dos artistas quanto na forma como a consumimos. Para Agnes Arruda, doutora em Comunicação e professora na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), não importa mais tanto o conteúdo, mas sim o quanto ele gera de comentários, compartilhamentos e repercussão... até no máximo o dia seguinte. "Ninguém pensa muito sobre o que vai ser feito com o material de uma live, ou se ele inclusive vai deixar de existir", diz Agnes. "A preocupação maior é capitalizar o máximo de audiência para aquele momento". Cantor e compositor que também aderiu às lives na pandemia, Pedro Luiz concorda que a cultura da internet é perecível e que ela trabalha com o calor do momento. Mas acredita que um tipo de memória não se perde aí: a afetiva. "A ferramenta pode ser efêmera, mas o que é efêmero também fica de alguma forma", diz o cantor. "Estamos vivendo uma época em que a disseminação das ideias e nossas práticas estão sendo pelas janelas virtuais. As palmas, os acolhimentos estão sendo por elas. Tudo isso vai gerar uma memória afetiva, amorosa e combativa de uma fase que não sabemos quanto tempo vai durar".
Neste sábado, 30, a série Crianças #EmCasaComSesc traz sua segunda atração: Fortuna em ‘Cantando pelo Mundo’. Para a apresentação, a cantora fez uma adaptação especial de seu espetáculo, construído em parceria com um dos mais importantes nomes da música infantil brasileira, Hélio Ziskind. A programação da série Crianças é dedicada ao público familiar e acontece todos os sábados, ao meio-dia, com transmissão pelo YouTube do Sesc São Paulo e Instagram do Sesc ao Vivo. Em ‘Cantando pelo Mundo’, Fortuna convida a todos para uma viagem musical ao redor do mundo: China, Itália, Israel, África, México, Nova Zelândia e, claro, Brasil. “Criei a sequência como se as canções fossem peças de um jogo, em que a Fortuna sairia do Brasil e viajaria para lugares de onde vieram as melodias”, explica o compositor Hélio Ziskind. Adaptando canções tradicionais de diversos países para o universo infantil, a dupla traz informações de história e geografia desses lugares de forma divertida e musical. A série Crianças #EmCasaComSesc, que teve início no dia 23 de maio, com a apresentação da Palhaça Rubra (angariando mais de três mil visualizações), pretende oferecer todos os sábados, ao meio-dia, uma atração, ao vivo, diferente para que pais e filhos possam curtir juntos e em segurança diretamente de suas casas. A programação é pensada para o público familiar em tempos de isolamento social por conta do novo coronavírus, que levou ao fechamento das unidades em todo o Estado para evitar a disseminação da Covid-19.
A pandemia do novo coronavírus criou, ou melhor, acentuou uma tendência dos últimos anos do mundo moderno: o aumento do uso das redes sociais. Sem poder sair de casa, a maioria das pessoas tem a internet como recurso principal. No caso dos casais que vivem juntos, isso também não é diferente. E, muitas vezes acaba gerando conflito e desconforto de ambos os lados. Para Andréa Leão, psicóloga em São José dos Campos, as redes sociais trazem uma sensação de liberdade para as pessoas. "O uso de redes sociais e aplicativos tem aumentado porque agora nós estamos com a mobilidade física mais restrita. Devido a isso, a gente recorre a meios que nos dão umas sensação de liberdade", disse. "Em relação a casais, especificamente, é importante ser combinado. Toda pessoa tem o direito à individualidade dela, isso é importante preservar. Por outro lado, ela também tem um contrato que não é meramente social, mas também emocional com a pessoa com que ela se relaciona, seja namorado, marido, enfim", enfatiza. "Quando a pessoa usa de forma excessiva e de maneira que parece escondido do outro, inaugura dúvidas no parceiro quanto ao relacionamento. Isso pode ser nocivo". Segundo ela, uma eventual traição pode acontecer, mas isso vale também fora das redes sociais. "Pode gerar infidelidade? Pode, como também pode quando eu saio para tomar café com amigas, por exemplo", disse. "Infidelidade tem N fatores, um deles é não estar em um bom momento da relação, se sentir psicologicamente vulnerável e então o uso das redes sociais pode ser um gatilho para isso", disse. A psicóloga clínica Cris Borges, especialista em Medicina Sexual, também concorda com a colega. Segundo ela, a rede virtual, assim como a real (bar, academia), só gera ciúme e desconforto em um casal que já está passando por algum problema relacional. "Um casal que está tranquilo, que tem uma relação afetiva estável, não sente ciúme. O ciúme vem, normalmente, quando está com algum problema de auto estima ou que a relação não está sendo satisfatória. Você não está se vendo muito no olhar do outro, então, não é a rede social que causa o problema, mas o problema é interior no relacionamento", afirmou. Aplicativo pode ser boa diversão, mas também é preciso agir com equilíbrio O aplicativo de celular 'Tik Tok', no qual é possível gravar vídeos, fazer edições de imagens e mudar a aparência, tem se tornado cada vez mais comum. Para a psicóloga Andréa Leão, pode ser divertido, mas também precisa de controle. "É uma ferramenta divertida e aí a gente pode se sentir um pouco artista usando ela. Isso é legal. Mas volto a dizer: quanto tempo a gente fica nisso? Estamos ficando indisponíveis para as pessoas porque isso está tomando muito o nosso tempo? É importante dosar e estar atento às pessoas ao nosso entorno. Nosso contato com o outro já está tão restrito, já estamos tão impossibilitados da presença física do outro, então precisamos ter esse cuidado com as pessoas a nossa volta", disse. Para a psicóloga clínica Cris Borges, o equilíbrio é fundamental. "O aplicativo tok tok é um entretenimento e a dica que eu dou para que as pessoas utilizem qualquer coisa de entretenimento é ter o equilíbrio. A rede social é muito mais uma idealização do que a pessoa quer passar", disse. "Tem duas palavras que eu gosto de utilizar na quarentena e que está fazendo as pessoas terem sucesso na saúde mental e física: criatividade equilíbrio".
Nova-iorquinos estão relutantes em voltar às plateias da Broadway em setembro, mês em que companhias de teatro devem retomar suas atividades nos Estados Unidos — no Brasil, muitos grupos mantêm a mesma data à vista. De acordo com uma pesquisa feita pelo New York Times e pelo Siena College, o público americano estaria disposto a retornar aos teatros no fim de 2020, e apenas se medidas severas entrarem em vigor. Para os hesitantes, a grande preocupação mora na poltrona ao lado. A maior parte da população diz que se preocupa com espectadores sem máscaras ou pessoas que possivelmente ignorarão as regras de distanciamento social. Realizada entre 17 e 21 de maio, a pesquisa perguntou, a cidadãos eleitores da cidade, em quanto tempo eles se sentiriam à vontade para assistir a apresentações ao vivo como espetáculos da Broadway. Os entrevistados demonstraram receio em retornar a salas de teatro e casas de show se as atividades realmente forem retomadas por volta de 1º de setembro. Produtores já miram 2021 Muitos dos maiores produtores culturais dos EUA já desistiram da ideia de realizar shows de outono (entre setembro e dezembro), voltando suas atenções para 2021. A pesquisa sugere que eles leram corretamente o comportamento do público. Administradores da Broadway anunciaram que suas salas permanecerão de portas cerradas até, pelo menos, 6 de setembro. Muitos acreditam, porém, que a reabertura só acontecerá mesmo em janeiro. No meio cultural, a indústria teatral de Nova York é a que enfrenta maiores dificuldades em sua retomada, já que os shows da Broadway são assistidos essencialmente por turistas e idosos, dois grupos que voltarão à circular pela Times Square mais lentamente do que os outros. Com o turismo em queda dramática, os nova-iorquinos são mais importantes do que nunca para o setor, que busca reter seu público-alvo, mesmo com a escassez de visitantes na cidade. Entre os 796 eleitores de Nova York entrevistados, apenas 39% das pessoas que assistem a peças da Broadway com alguma frequência afirmaram que voltariam a ver um espetáculo se as salas fossem reabertas em 1º de setembro. O número salta para 57% entre os que consideram comparecer a peças em dezembro, supondo que os teatros tomassem todas as precauções que o próprio entrevistado julga ser necessária. "Isso não representa o total de clientes regulares, mas expõe um grupo considerável", ressalta Don P. Levy, diretor do instituto de pesquisa — Há aí uma audiência e um mercado. Presidente da Broadway League, organização comercial que representa produtores e proprietários de teatros, Charlotte St. Martin diz que não está surpresa com o fato de um grupo significativo de espectadores manifestar interesse em assistir a peças a partir de setembro. "Minha caixa de entrada no e-mail está cheia de pessoas dizendo: "Depressa, estou pronta para retornar às plateias", conta ela. "Mas não voltaremos antes que seja seguro". Para público, colegas de plateia são problema O estabelecimento de uma "sensação de segurança" é a maior tarefa que produtores de espetáculo ao vivo devem superar para que algumas pessoas retornem às salas. E, para muitas dessas pessoas, os principais obstáculos são os colegas de plateia. Aqueles que dizem que não voltarão tão cedo à Broadway ressaltam que o motivo de seus receios está na falta de confiança de uma adesão geral da plateia aos protocolos de segurança. "Um homem na fileira M pode se recusar a cobrir o nariz e a boca com a máscara", especula um dos entrevistados. "Numa fila, alguém pode ficar muito perto da pessoa na frente dela, sem respeitar o distanciamento", prevê outro entrevistado. Segundo a pesquisa, 58% dos nova-iorquinos que assistiram a pelo menos um show da Broadway em 2019 disseram que não confiam que os demais espectadores vão aderir adequadamente ao distanciamento social. Entre os entrevistados, 55% justificaram o temor de retornar aos teatros da seguinte forma: eles não acreditam que todos na plateia usarão máscaras de forma correta. Essas preocupações superam duas outras frases frequentes: "Chegar ao teatro não seria seguro para mim" e "Estar no distrito dos teatros é demais para mim agora". Cerca de 72% dos entrevistados disseram que para assistir a uma apresentação ao vivo em 2020 seria necessário que o local separasse os membros da plateia em distância de 1,80 metros. A grande maioria das pessoas — cerca de 90% — exigiria produtos de limpeza profissionais para desinfetar o teatro ou a sala de concertos entre os espetáculos. Viabilidade financeira ainda é dúvida Organizações artísticas enfrentam dificuldades financeiras por causa do cancelamento em massa da programação cultural. Muitos produtores ainda avaliam se as futuras restrições ao ofício serão viáveis financeiramente. Para a Broadway e as salas de ópera de Nova York, o modelo socialmente distanciado seria insustentável. A tendência, segundo gestores da área, é que os espetáculos se tornem ainda mais caros. Para as salas de cinema, o desafio é parecido. "Como eles podem fazer com que o público se sinta seguro e ainda sejam financeiramente viáveis?", Dr. Levy questiona. St. Martin frisa que a Liga da Broadway está estudando todos os protocolos de segurança, desde verificações de temperatura até drones que espalham desinfetantes no ar. O distanciamento social, no entanto, "não funcionará para a Broadway", atesta ela.