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Jurema Werneck* Ao nascer, seres frágeis que somos, nosso primeiro impulso é respirar. Num grito, puxamos o ar para os pulmões. Um dos primeiros sinais de gravidade da Covid-19 é a falta de ar: é o instinto de respirar que está sob ameaça agora. Atualmente no Brasil, mais de mil pessoas morrem por dia, muitas delas por não conseguirem encher de ar os pulmões. Não bastasse a pandemia, cresce, nas favelas e periferias de vários estados do país o assassinato de pessoas - e de crianças!- em operações policiais. Mizael, de 13 anos, foi morto dormindo, em uma comunidade do Ceará. João Pedro, de 14 anos, foi morto brincando, vítima de um dos 70 tiros disparados pela polícia, no Rio de Janeiro. A crise na saúde nos revelou descaso e negligência das autoridades nas diferentes esferas de governo. Como o veto presidencial recente da lei  1142/2020 aprovada pelo Congresso para garantir água potável, comida e assistência em saúde para indígenas e quilombolas. É, mais uma vez, a "velha" desigualdade brasileira, exposta sem constrangimento, atrelada a violações de direitos humanos e sem a devida responsabilização de seus autores. Não à toa que, para alguns, o termo cidadania ganhou conotações pejorativas. Assistimos a naturalização do que de pior nossa sociedade produziu e cultivou: a exclusão baseada no racismo, nas posições de classe, na identidade de gênero, na idade, na condição física e mental. Mas do lado de cá, na parte da sociedade onde cidadania é esperança e imperativo, a luta é cotidiana. Grupos inteiros recusam a apatia e buscam garantir o oxigênio necessário para a sobrevivência pessoal da família e da comunidade. No Complexo do Alemão, o Gabinete de Crise formado por organizações de moradores já distribuiu 11.353 cestas básicas e kits de higiene, que beneficiaram 45.412 pessoas, até 08 de julho. A iniciativa não esperou a ação do Estado que nunca chegou. Criola, organização de mulheres negras atuantes há 28 anos, tem trabalhado em todo o Estado do Rio de Janeiro em parceria com organizações locais. Elas levam às mulheres das favelas, periferias e quilombos, os recursos mínimos necessários para que façam valer seu direito à renda emergencial, entregam alimentos, materiais de higiene e, também, reconhecimento e esperança. Nós da Anistia Internacional Brasil e 36 organizações lançamos a campanha Nossas Vidas Importam, e afirmamos que é sob a lente da cidadania que devemos ser tratados e acolhidos. Sobretudo aquelas e aqueles vulnerabilizados pela omissão das autoridades: os moradores de favelas e periferias, negros e negras, quilombolas e indígenas, mulheres, pessoas em situação de rua, pessoas em privação de liberdade, adolescentes e jovens do sistema socioeducativo, mulheres trans, crianças e adolescentes, trabalhadora e trabalhadores da saúde, defensoras e defensores da ciência, dos direitos humanos e da saúde coletiva. Exercemos nossa cidadania pressionando as autoridades brasileiras por nossos direitos. É possível ser um cidadão consciente, empático, agente transformador e defensor dos direitos humanos. A pandemia nos trouxe muitos vexames e outros tantos 7x1, mas só coletivamente conseguimos virar esse jogo. *Diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.
Heloisa Murgel Starling* Antes de ser realidade, cidadão era uma ideia, um argumento e uma causa, na cidade do Rio de Janeiro. Ser livre e ser cidadão significam a mesma e única coisa. Mas a palavra é antiga. Surgiu em algum momento entre 510 e 509 a. C, e remete à República romana. Indica que cada cidadão (cives) tem, por direito, seu lugar na cidade (civitas), na comunidade política (res publica) e a viver em uma sociedade onde todos estão igualmente protegidos contra a interferência arbitrária de pessoas ou grupos pela adesão à mesma lei. Nos últimos 200 anos, os cariocas se engajaram de diversas maneiras no propósito de colocar essa ideia em uso. São histórias que vale a pena lembrar - para pensarmos sobre o que estamos fazendo hoje. O protagonista de uma delas chamava-se Ezequiel Correia dos Santos, um jornalista que viveu no Rio de Janeiro durante a primeira metade do século XIX. Não era difícil publicar um jornal naquela época - só precisava de resmas de papel, uma fonte de tipos e saber ranger uma prensa pela madrugada. A maioria não durava muito. Mas "Nova Luz Brasileira" foi o melhor e mais desabusado jornal em defesa da democracia que circulou pelas ruas da cidade, entre 1829 e 1831. Ezequiel estava disposto a arriscar o pescoço na esperança de mudar o Rio de Janeiro e o Brasil - para melhor. Democracia não podia ser apenas uma maneira de organizar o poder. Ele acreditava ser essencial defender o princípio igualitário que cria o cidadão e expandir a cidadania ao maior número possível de pessoas. Aquilo que afeta a todos precisa ser aprovado por todos, argumentava, em seu jornal, em 1830: "Mendigo também é cidadão que pede os desvelos e a compaixão da Sociedade. (...) Miserável também é cidadão e pede os cuidados da Sociedade. (...) Pobre é Cidadão como qualquer", concluía. Foi um deus nos acuda. Afinal, a sociedade carioca era hierárquica, escravista, desigual e autoritária. Ezequiel não quis saber. Nas páginas de "Nova Luz Brasileira", ele apresentou provavelmente a nossa primeira campanha planejada de políticas públicas. Incluía a plena participação das mulheres na vida política, a proposta de reforma urbana no Rio de Janeiro sustentada no barateamento dos aluguéis e na construção de casas populares, e o combate à discriminação e ao preconceito racial. Ezequiel tem muito a dizer aos seus conterrâneos, no presente. A democracia não é só um sistema de governo baseado em instituições. É também um modo de vida em uma sociedade que se orienta por um conjunto de valores praticados cotidianamente pelos cidadãos. Sem isso, restam medo e tirania. Uma cidade onde não há espaço para os valores da tolerância, solidariedade, amizade e compaixão é apenas um aglomerado de homens e mulheres vorazes, violentos, egoístas. "Não merece o nome de cidade, mas antes o de solidão". A definição é de Baruch de Spinoza, um filósofo holandês que viveu no século XVII. Mas Ezequiel Correia dos Santos não discordaria dela. *Historiadora e cientista política
Gabriella Fregni* O cenário nacional atual tem apresentado denúncias ligadas a atos de corrupção de agentes políticos e muitas discussões em torno da democracia. E estas parecem ser, numa visão superficial, questões desassociadas do crescimento econômico e do desenvolvimento do país. Ocorre, que tanto a integridade, quanto a democracia são aspectos essenciais do desenvolvimento. O desenvolvimento, é importante ressaltar, é um processo que se compõe de uma série de componentes que devem estar presentes de forma concomitante. São elementos de ordem econômica, social e política que, em conjunto, visam a assegurar crescimento e progresso com adequada distribuição, proteção aos direitos humanos fundamentais, participação dos principais atores sociais e políticas de sustentabilidade. É que, como ensina Amartya Sen, a definição de desenvolvimento inclui os seguintes aspectos: (i)Mais do que acumulação de riquezas ou o aumento da lucratividade, o desenvolvimento está relacionado à capacidade de se colocar fim à pobreza. (ii)As liberdades individuais são os fundamentos do processo de desenvolvimento. (iii)O mercado deve estar atrelado aos arranjos políticos e sociais, assegurando eficiência e equidade. (iv)O desenvolvimento faz com que as pessoas possam viver de acordo com suas reais potencialidades e valores. (v)O direito ao desenvolvimento tem como fundamento a busca por condições e recursos necessários ao bem-estar material, saúde, educação, segurança e a liberdade para escolher o tipo de vida desejada. Por essa razão, a governança se apresenta como um fator relevante na construção do desenvolvimento, na medida em que, para sejam conquistadas políticas públicas adequadas, exige-se uma burocracia com uma visão ética, organizada e eficiente e a adequada interação entre os diversos níveis da sociedade. Nesse sentido, é parte da governança o direito à boa administração, que compreende, conforme preconizado pela Comunidade Europeia, assegurar aos administrados direito à igualdade, à não discriminação, à objetividade na tomada de decisões, à equidade, além de imparcialidade, independência e proporcionalidade. E, a boa governança exige a presença de democracia e de integridade, esta última entendida como ausência de corrupção. Em primeiro lugar, quanto à democracia, observa-se que o Estado deve assegurar os direitos humanos fundamentais e dar voz a todos os atores sociais. A coexistência humana e a consciência racional dos interesses comuns é parte das funções estatais. Em segundo lugar, quanto à integridade, esta é a noção que procurar acoplar noções éticas à agenda da administração pública, por meio de um conjunto de arranjos destinados a uma atuação adequada, imparcial e eficiente, com programas de aumento da transparência, gestão adequada de recursos públicos, punição de agentes por desvios de conduta e corrupção e gerenciamento de riscos e controles. Tudo visando a promover a credibilidade. No mais, a integridade exige uma política de capacitação permanente, com desenvolvimento de habilidades e enquadramento de profissionais adequados para cada tipo de função. Assim, a nova governança substitui uma visão exclusivamente técnica e procedimental da burocracia por um conceito que impõe regras de desempenho, resultados e transparência. De modo que Estado, mercado e sociedade deverão agir de forma concertada, buscando-se uma administração pautada pela confiança e pela participação social. Como se vê, a concepção moderna de desenvolvimento não significa apenas crescimento econômico, progresso e inovação. Trata-se, isto sim, de um conjunto de práticas advindas especialmente de uma administração pública séria, competente, que respeite regras de participação democrática e respeito aos direitos humanos fundamentais. Por isso, atos de violação aos ideais de integridade e discursos antidemocráticos, além de atentarem contra a nossa Constituição Federal e às normas de direito penal, são também formas de atentado ao direito constitucional ao desenvolvimento. Como referiu Tetros Adhanom, Diretor Geral da Organização Mundial de Saúde (em tradução livre): “este é um tempo para renovar nosso compromisso de construir um mundo mais seguro, justo, verde e inclusivo. Nós já perdemos muito, mas não vamos perder a esperança.” *Gabriella Fregni é advogada, sócia do escritório Fregni Advogados, doutora em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da USP e relatora do Tribunal de Ética da OAB/SP Referências: SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Tratado de Amsterdã. Disponível em: https://europa.eu/european-union/sites/europaeu/files/docs/body/treaty_of_amsterdam_pt.pdf. TRUBEK, David. M. Para uma teoria social do direito . Um ensaio sobre o estudo de direito e desenvolvimento. In: RODRIGUEZ, José Rodrigo (org.). Direito em debate – o novo direito e desenvolvimento: presente, passado e futuro. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 61.
Cristiane Prizibisczki* Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, teve uma semana conturbada. Na segunda (6), o Ministério Público Federal entrou com ação de improbidade administrativa contra o mandatário da pasta ambiental, pedindo seu imediato afastamento. Naquele mesmo dia, lideranças de 38 grandes empresas brasileiras e estrangeiras, e de quatro entidades setoriais do agronegócio, mercado financeiro e indústria – isto é, gente graúda – colocaram a gestão de Salles na berlinda, ao enviar carta aberta ao vice-presidente Hamilton Mourão manifestando preocupação com o modo como a política ambiental brasileira vem sendo conduzida. Na quinta-feira, a Organização das Nações Unidas (ONU) recebeu, durante a 44ª sessão do Conselho de Direitos Humanos, mais uma denúncia contra o Governo Bolsonaro, desta vez sobre a desregulamentação e desmonte das políticas ambientais no país. Salles, por sua vez, segue dando de ombros, menosprezando as críticas que sua gestão vem recebendo, nacional e internacionalmente. Ainda na quinta-feira, o ministro escreveu em sua rede social: “seguimos fortes e inabaláveis”. A fala de Salles tem a chancela de Mourão, que defendeu os trabalhos do Ministério do Meio Ambiente em reunião com investidores, nesse mesmo dia. Tem também o aval do recém-chegado ministro das Comunicações, Fábio Faria, aquele que ainda precisa aprender que a Mata Atlântica não fica na Amazônia. De uma coisa Ricardo Salles não pode ser acusado: falta de coerência. Desde sua gestão como Secretário de Meio Ambiente de São Paulo (2016-2017), o político vem demonstrando seu alinhamento com o setor ruralista e industrial, e contra o meio ambiente. Salles foi condenado pela Justiça, ao final de 2018, também por improbidade administrativa, ao fraudar o processo de Plano de Manejo de uma área de proteção ambiental paulista, em 2016, para beneficiar empresas de mineração. E fraudar aí engloba alterar documentos e mapas e perseguir servidores, segundo a denúncia do Ministério Público, à época. Como ministro de Estado, ele não faz diferente. A lista de atos que seguem uma lógica totalmente contrária ao dever estatal da pasta que comanda, a proteção ao Meio Ambiente, é longa. Entre os atos anti-ambientais de Salles estão a promoção do desmonte no sistema de proteção dos ecossistemas no país, interferência em institutos de pesquisa (como foi o caso do INPE), ataques infundados aos mecanismos de financiamento e atuação de organizações do terceiro setor, entre outras inúmeras ações, coroadas com a declaração durante a fatídica reunião ministerial de 22 de abril, de que o governo deveria aproveitar a pandemia para ir “passando a boiada”, mudando as regras ambientais. Como resultado, o Brasil já registra em 2020 recordes nas taxas de desmatamento e no número de queimadas em diferentes biomas, como Amazônia, Cerrado e Pantanal. E ainda nem chegamos ao pico da temporada de estiagem (entre agosto e setembro), quando, historicamente, os números tendem a ser mais altos. Salles segue, como na música de Paulo Valle e José Augusto Cougil, negando as aparências e disfarçando as evidências. Mas, do jeito que a corda tem se estirado, é provável que Bolsonaro esteja ponderando se quer mesmo manter os laços com este seu ministro. Além da ação de improbidade, da denúncia da ONU e do descontentamento expressado pelas grandes empresas nesta semana, o Parlamento Europeu já manifestou, em junho passado, sua preocupação com a política ambiental brasileira - colocando em risco o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul- e representantes de 32 fundos de investimento e pensão de todo o mundo, com patrimônio alcançando US$ 4,5 trilhões, enviaram carta a embaixadas brasileiras alertando o governo Bolsonaro que o desmatamento poderá atrapalhar investimentos no Brasil. Por tudo isso, é só uma questão de tempo até que as commodities agrícolas, florestais e minerais do país passem a sofrer duras barreiras comerciais e, daí, a questão não será somente ambiental. Pelo andar da carruagem, falta pouco para Ricardo Salles ouvir de Bolsonaro outro trecho da famosa música, desta vez, aquele que diz: “Eu preciso aceitar que não dá mais/Pra separar as nossas vidas”. *Jornalista formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina, alumni da Universidade de Cambridge (UK), onde desenvolveu pesquisa sobre a comunicação das mudanças climáticas, e há 13 anos dedica-se ao jornalismo ambiental. Cristiane mora em Jacareí.
Flavio Amary* Todos nós já percebemos que a pandemia do coronavirus mudou o formato do trabalho de todas as empresas e órgãos públicos e a maneira como nos relacionamos. Reuniões e eventos deixaram de aglomerar pessoas e migraram para ambientes virtuais, e a digitalização de processos, que já era uma tendência mesmo antes da chegada da doença no Brasil, tornou-se prioridade para que as atividades não estagnassem. Com a Secretaria de Estado da Habitação do Governo de São Paulo não foi diferente. Nos adaptamos e nos reinventamos para continuar a exercer nossa missão primeira de dar atendimento e fomentar a produção de moradias para as famílias que mais precisam. O novo normal da Habitação inclui, por exemplo, a substituição dos antigos sorteios presenciais, que reuniam milhares de inscritos em estádios, ginásios ou praças públicas, pela versão digital com transmissão ao vivo pela internet. Sem plateia, sem abraços, sem olho no olho e sem calor humano, típicos desta ocasião tão especial na vida das famílias, mas com a certeza de que estamos cumprindo nosso papel. Os eventos nesse novo formato começaram no dia 25 de maio e para os próximos meses estão previstas a realização de outros 126 sorteios para 12.759 unidades habitacionais e 118 municípios. Todo o processo tem acompanhamento de uma empresa de auditoria externa, garantindo lisura e transparência. Outra importante ação da Secretaria foi o início do processo de construção de 13.645 moradias, por meio da assinatura de convênios e novos credenciamentos em todas as regiões do nosso estado. Dentro do Programa Nossa Casa lançado em setembro de 2019 pelo governador João Doria, que conecta municípios e a iniciativa privada para ofertar habitação abaixo do valor de mercado a famílias com renda de até 3 salários mínimos, serão inicialmente 5.215 unidades. A cerimônia de assinatura aconteceu por meio de videoconferência com a participação virtual dos prefeitos das cidades beneficiadas, que na oportunidade também assinaram digitalmente os documentos no âmbito do Programa São Paulo Sem Papel. As outras 8.430 moradias referem-se à assinatura de novos convênios e o credenciamento do Nossa Casa na modalidade CDHU, que conta com o envolvimento por parte da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, na elaboração dos projetos e execução das obras. Vale ressaltar, ainda, o Programa de regularização fundiária, Cidade Legal que passou a emitir de forma digital, a DCUA (Declaração de Conformidade Urbanística e Ambiental), certificado que possibilita às prefeituras registrar o loteamento e o núcleo habitacional no cartório de imóveis. Nos adaptamos, enfim, à nova realidade imposta pela pandemia. As obras da Secretaria da Habitação e praticamente todos os cronogramas das quase 40 mil unidades habitacionais em construção no Estado de São Paulo seguem seu ritmo normal bem como a entrega de unidades habitacionais a seus beneficiados, com a entrega de chaves feitas por família de forma individualizada, sem a realização de eventos para evitar aglomeração. Desde o início da pandemia, já entregamos mais de 2 mil casas em 15 municípios. As famílias e os funcionários da CDHU recebem máscaras, luvas e todos os cuidados relativos a distanciamento social são observados. Vai passar. Espero que, muito em breve, possamos estar de volta na estrada para celebrar junto das famílias a entrega das chaves. Enquanto isso não acontece, seguimos com ações digitais e virtuais, mas, sem dúvida, realizando de forma muito real e com a mesma emoção e sentimento de dever cumprido o sonho da casa própria dos brasileiros de São Paulo. Secretário de Estado da Habitação do Governo de São Paulo
Osman Cordeiro* A crise provocada pelo coronavírus gerou no país uma situação sem precedentes do ponto de vista econômico. Completou-se mais de 100 dias de quarentena e ainda não se sabe quantos mais estão por vir. O Brasil possui aproximadamente 12 milhões de pequenas e médias empresas, e em sua grande maioria sem acesso a recursos para atravessar a pandemia. Os programas anunciados pelo governo se concentram na liberação de recursos ao sistema financeiro, que por sua vez, não tem atingido “a ponta”. Vejamos o exemplo da linha de R$ 40 bilhões criada para os bancos financiarem folha de pagamento das pequenas empresas, por meio da qual o governo bancou a maior parte do risco, no entanto até agora apenas 10% do total disponível foi efetivamente liberado, conforme dados do banco do central. Com isso, o governo lançou mais uma linha, de quase R$ 16 bilhões, dentro do programa de apoio às micro e pequenas empresas, e desta vez o governo garantirá até 85% do risco de crédito das operações. Resta ver se esse dinheiro chegará “na ponta”, antes da morte das empresas. No Brasil há grande concentração de riquezas nas mãos de poucos, inclusive, no setor financeiro, pois é dominado por 3 ou 4 bancos. Será isso mais um dificultador? Reforçando a filosofia de pensar globalmente e agir localmente é imperativo olhar para a São José, buscar modelos que garanta o seu desenvolvimento socioeconômico, que todos os esforços empreendidos devam ter como premissa a geração de emprego e renda. Nesse sentido, o embrião para o desenvolvimento da cidade e região é o Parque Tecnológico São José dos Campos. Como exemplo do que o Parque tem feito, nesse período de 100 dias, pode-se citar alguns dos trabalhos desenvolvidos, dados esses fornecidos pelo próprio parque: •96 mentorias; •84 atendimentos para projetos; •72 webinars; •30 ações estratégicas para empresas; •22 soluções contra o convid19; •20 novas startups; •18 novos parceiros; e •9 workshops. Vale ressaltar que, dentre as 22 soluções contra o covid19, há equipamentos médicos hospitalares desenvolvidos e testados em tempo recorde. Obviamente, isso não é suficiente para garantir o desenvolvimento da cidade, mas indica o caminho e modelo para que seja replicado nas demais áreas da economia, e o mais interessante desse exemplo do parque, depende exclusivamente da vontade política do governo local, já que o parque pertence ao município. Empreendedor, empresário, fundador CECOMPI/Parque Tecnológico São José dos Campos, ex-diretor do CIESP, ex-Secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, Transportes e Administração da prefeitura de São José dos Campos.
Emanuelle Costa* O mundo nunca mais será o mesmo! 2020 será para sempre lembrado como o ano da crise da saúde pública mundial. O ano das inúmeras e diversificadas “lives”. O ano da reclusão social. O ano da paralisação das atividades empresariais e consequente impactos devastadores na economia. E claro, o ano da transformação nas relações de trabalho. As relações de emprego foram anabolizadas por medidas provisórias que flexibilizaram (ou retrocederam?) os direitos trabalhistas. O aumento dos trabalhadores afetados pela pandemia foi quase tão veloz quanto a transmissão do coronavírus. De acordo com o IBGE, ao menos cinco milhões de trabalhadores formais já tiveram seus empregos afetados de alguma forma, seja por demissão, suspensão ou redução salarial. Contudo, entre as medidas autorizadas para manutenção de emprego, uma vem ganhando especial destaque e trazendo algum alívio: o home-office ou trabalho remoto. O mundo do negócio vem sentindo um misto de incerteza com visão de oportunidade. A adaptação dos colaboradores ao novo regime de trabalho tem sido uma grata surpresa para os empresários que resistiam ao modelo por receio de queda na produtividade. O distanciamento social também transformou substancialmente os tipos de empreendimentos atraentes. Enquanto algumas atividades foram extremamente afetadas pela pandemia – por exemplo academias – outras ganharam força e destaque, como o comércio online e setores de tecnologia. O medo de que nada será igual, é real. A crise causada pelo Covid-19 acelerou consideravelmente o processo de digitalização no mundo empresarial. Fomos forçados a sair da zona de conforto e nos deparamos com um novo modelo de trabalho que proporciona uma economia considerável de redução de custos fixos e mão de obra. Tudo indica que esse é o maior legado da pandemia – a tecnologia. E quem terá mais chances de sobreviver, é quem se adaptar mais rápido. Não é hora de resistir às mudanças, é hora de se reinventar, de abraçar as oportunidades e sobreviver. *Advogada especialista em direito e processo do trabalho
Osman Cordeiro* Pensar globalmente e agir localmente. Essa frase é amplamente falada em ambientes acadêmicos, empresariais e de inovação, apontando a busca pelo desenvolvimento socioeconômico; e isso, há décadas. Quais ações precisam ser adotadas, localmente, para ser competitivo globalmente? Nesse sentido, o caso mais expressivo e histórico da cidade de São José dos Campos foi a criação do DCTA, que, além dentre outros Institutos, gerou o ITA que, por sua vez, gerou a Embraer, ou seja, potencializou a industrialização desta cidade. A Embraer se tornou um player global com origem em São José dos Campos, voou e pousou em outras cidades e países, motivada por um melhor atrativo financeiro, tributário ou mercadológico. O fato é que São José dos Campos e/ou o Brasil deixou de ser tão competitivo quanto foi nas primeiras décadas da existência da Embraer. O governo e lideranças também não conseguiram perceber a necessidade de se envolverem para melhorar a competitividade, fortalecendo a cadeia produtiva, empregos e renda. É vital olhar para a Embraer, que ainda permanece em São José e construir as pontes necessárias para a sua permanência e crescimento nesta cidade, pois, além dos postos de trabalho gerados diretamente, existem mais de 100 empresas fornecedoras de peças e serviços para a Embraer, que estão reunidas no cluster aeronáutico, gerenciado pelo Parque Tecnológico São José dos Campos, com grande potencial técnico e de produção ainda pouco explorado, inclusive no mercado internacional. Ainda neste contexto, outro caso mais recente de São José, pós virada do milênio e que merece ser citado por já ter dado muitos frutos, é o Parque Tecnológico, focado no desenvolvimento, ciência, tecnologia, inovação e sustentabilidade. Ele está baseado na tríplice hélice: academia, empresas e poder público, e atualmente é o maior parque do país, com dois clusters consolidados: TIC tecnologia da informação e comunicação, e Aeronáutico supracitado. No entanto, é necessário desenvolver e integrar outros seguimentos econômicos locais, pois uma cidade é heterogênea, e necessita de práticas diversificadas para incluir e gerar oportunidades para toda a sociedade. É necessário que o poder público e as lideranças tenham a sensibilidade e a capacidade necessária para manter as conquistas já consolidadas, a fim de evitar erros do passado, retroceder, sempre buscando desenvolver novos seguimentos da economia, baseado nesta visão de como gerar competência global com ação local. *Empreendedor, empresá-rio, fundador Cecompi/Parque Tecnológico S. J. Campos, ex-diretor do Ciesp, ex-sec. Des. Econômico, Ciência e Tecnologia, Transportes e Admini da prefeitura de S. J. Campos
Aline Rodrigues* Quando 2020 iniciou, trouxe com ele inúmeros sonhos a serem realizados: casamentos, aniversários de 15 anos, bodas, “chá revelação” do sexo do bebê que está sendo gerado, lembrancinhas de maternidade para entregar a todos os amigos que iriam manifestar seu carinho em visita ao recém-nascido, e tantas outras celebrações. Mas, de repente, uma circunstância jamais esperada ou desejada “assalta” não apenas o povo brasileiro, mas todo o mundo: a Covid-19. Um vírus que colocou todos dentro de casa, em um isolamento social, que fechou comércio, empresas, restaurantes, salões de festas, enfim, tudo! E um ar de “medo”, “pânico” foi instaurado em nosso país. Ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos meses, na próxima semana, nem no próximo dia, pois cada cidade tem tomado uma medida diferente. E junto a isso toda a frustração pela não realização dos sonhos planejados para 2020. A não realização de um sonho gera muita tristeza, frustração e desesperança. Desesperança? Sim! Desesperança. Pois quando “perdemos” algo que estava prestes a ser realizado e não temos previsão de quando poderemos retomá-lo, perdemos um pouco da esperança, pois é como se sentíssemos que “nunca mais será realizado”. Existe uma diferença entre circunstância e escolha, e não sabemos lidar com isso. Geralmente, aquilo que deveria ser tratado como circunstância é visto como escolha e vice-versa. Uma inversão da realidade da vida que nos confunde e gera sofrimento. Vamos lá! O que é escolha? Imagine que você planejou a festa de 15 anos junto com seus pais. A banda contratada, o salão, buffet, convite, os convidados confirmaram presença e, de repente, você tem uma briga com seus pais, porque engravidou, eles ficaram muito decepcionados e decidiram cancelar a festa, que estava praticamente pronta. O clima fica horrível e você se sente incompreendida e não amada por sua família. Bom! Esta situação é uma circunstância ou escolha? Escolha! Que terá suas consequências. Perceba que essa adolescente fez uma escolha, com esse namorado, e a consequência foi uma gestação. Diante de todo ato escolhido, existe uma consequência que é preciso ser vivida também. O que difere das circunstâncias. Imagine agora que você que planejou o casamento dos sonhos. Escolheu a data, 2 de maio de 2020, pois era uma data especial para você e seu noivo e o feriado do Dia do Trabalho (01) facilitaria a vinda de todos os parentes distantes, que poderiam vir com calma. Tudo pronto! Até que em março veio o isolamento social e a proibição de qualquer tipo de festa e aglomeração. Foi como um balde cheio de gelo que caiu sobre a sua cabeça. Porém, tudo isto foi uma escolha sua? Dos seus fornecedores? Não! Aconteceu sem que ninguém tivesse planejado ou desejado. É bem este cenário que estamos vendo: fornecedores que são obrigados a remarcar as datas de prestação de serviço com seus clientes e clientes que são obrigados a remarcar suas datas com seus convidados. Sabemos o quanto é frustrante, afinal, não será mais conforme planejado, mas pode acontecer em uma nova data, basta você querer! Aqui, tratamos de circunstância, isto é, de uma situação que independe de nossas escolhas, como o contexto de pandemia, que existe, independente da nossa vontade. Se diante de nossas escolhas precisamos assumir as consequências, o que devemos fazer diante das circunstâncias? Absorvê-las! É isso mesmo! Neste momento, esta é a nossa circunstância e não devemos ficar lamentando, chorando, com raiva. É necessário absorvermos a situação e nos adaptarmos à nova realidade. Não dá para ficarmos paralisados diante das circunstâncias e não tomarmos nenhuma decisão. Na sua realidade hoje, como você tem vivido diante dos sonhos que foram interrompidos? Como você tem enxergado tudo isto: escolha ou circunstância? Psicóloga, especialista em saúde mental, e missionária da Comunidade Canção Nova. Atua com Terapia Cognitiva Comportamental; no campo acadêmico, clínico e empresarial
João Carlos de Faria* Nos idos dos anos de 1970/1980, em Paraibuna, um jovem de origem humilde, nascido na roça e acometido por uma doença grave precocemente, resolveu desafiar a lógica das coisas da forma como já pareciam estar pré-determinadas. Recuperou-se da doença, tornou-se dono de uma distribuidora de jornais e revistas e assumiu com a mãe a responsabilidade pelo sustento da família que era numerosa. Trabalhou no cinema da cidade, fazia fotos de casamento e gostava de teatro. Determinado a realizar seus sonhos foi estudar fotografia e turismo em São Paulo, aonde inclusive chegou a ser premiado por uma seleção de fotos feita na Festa do Peão de Barretos. Não ficou muito tempo por lá e voltou para agitar e mudar Paraibuna, que não seria a mesma depois dele. A começar pelos cabelos compridos, nada usuais na época, e pela estranha mania de gostar de fotografar as coisas do povo e de ler e ouvir a boa música brasileira e regional, nem sempre era recomendado como boa companhia para os “comportados” jovens de então. Apesar de tudo, transformou-se numa referência e inspirou muitos jovens que foram convencidos pelas suas ideias às vezes malucas, mas com todo o sentido. Chamava a atenção, no entanto, não pela rebeldia, mas por valorizar a cultura de raíz, vista por ele como a chance da cidade sair do marasmo e por desafiar políticos da época, incomodados com sua franqueza e a mania de dizer verdades inteiras. Deu voz a quem não tinha, levantando a bandeira da imprensa crítica, que apontava feridas e mazelas dos bastidores do poder local. Trazia consigo a experiência da vivência cultural na “paulicéia desvairada”, onde pode consumir o melhor do circuito alternativo e fez amizades valiosas. Aproveitou essa bagagem para transformar a vida cultural de Paraibuna, que andava meio devagar. Essa é uma pequena parte da longa trajetória do meu amigo João Rural, com quem convivi mais de 30 anos na lida como repórter, boa parte desse tempo militando no jornalismo rural. Hoje, cinco anos após sua morte, completados nesse dia 23 de junho, tenho a absoluta certeza de que tudo o que fez será imprescindível no futuro para a boa memória desse mundão valeparaibano. O desafio agora é nosso. Temos que manter viva essa história e fazer com que a mesma não caia no esquecimento, num país onde a cultura anda bastante abandonada. João Rural, nascido João Evangelista de Faria, vai continuar vivo em cada livro publicado, em cada foto, em cada imagem de vídeo que registrou, mas viverá, sobretudo, em cada gesto nosso feito para que a cultura caipira não pereça nunca. Jornalista