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Quanto pior, melhor? Em meio à pandemia do novo coronavírus, que já ceifou 105 mil vidas em um país mergulhado em profundas crises política, econômica e institucional, repleto de notícias como os ataques incendiários ao meio ambiente 'passando a boiada' e o escândalo das 'rachadinhas', que envolvem diretamente a família do presidente, Jair Bolsonaro (sem partido) atingiu a sua maior aprovação de seu mandato. A informação é do Datafolha. A aprovação do mandatário, escolhido por veículos da imprensa estrangeira como o 'pior presidente do mundo no combate à Covid-19', subiu. A reprovação? Caiu. De acordo com a pesquisa, o índice dos que consideram seu governo ótimo ou bom subiu de 32%, no levantamento de junho, para 37%. Os que avaliam a gestão como ruim ou péssima caíram de 44% para 34% no mesmo período. Para 27%, o governo é regular (eram 23% em junho). Até aqui, a melhor marca bolsonarista (com 33% de aprovação) havia ocorrido em abril e maio deste ano. E como explicar que um presidente negacionista, absolutamente inepto, atingido pelo escândalo Fabrício Queiroz e que, com o protagonismo crescente do Centrão em Brasília, assumiu de vez a carapuça de 'velha política', deixando de lado a falsa imagem de 'nova política', conseguiu melhorar sua aprovação? A resposta passa por dois pontos centrais. O primeiro é o auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais -- vale lembrar que o governo defendia que fossem apenas R$ 200. No corte por regiões, o melhor desempenho relativo foi no Nordeste, justamente a região que concentra mais pessoas que recebem o auxílio. Lá, a rejeição caiu de 52% para 35%. A avaliação positiva subiu de 27% para 33%. O 'Bolsa Covid' fez muito bem à imagem do presidente. Além disso, acuado pelo escândalo das rachadinhas e pelo milionário esquema de corrupção que chega cada dia mais e mais perto do presidente, Bolsonaro passou a adotar uma versão mais contida, quase "paz e amor". O chefe do Executivo abandonou a confrontação pública com outras instituições, depois de ter chegado a ordenar a intervenção no STF (Supremo Tribunal Federal), entre outros episódios de ataque à democracia. Em plena campanha, de olho em 2022, o presidente entendeu que abrir a carteira e fechar a boca pode ser uma estratégia eficaz. Enquanto isso, em 590 dias de governo, Bolsonaro ultrapassou 1.500 declarações falsas e distorcidas. No Brasil do capitão, quanto pior melhor.
Qual é a fase? Vermelha? Laranja? Amarela? Verde? O Plano São Paulo, lançado em junho pelo Palácio dos Bandeirantes, é dividido em fases e cada uma delas é identificada por uma cor, que indica um nível gradual e crescente de reabertura da economia em tempos de pandemia. A flexibilização da quarentena ocorreu após o afrouxamento do isolamento social, fruto do corrosivo discurso negacionista do presidente Jair Bolsonaro, contrário à ciência e às orientações sanitárias, e também à forte pressão dos prefeitos no interior paulista em ano eleitoral. Atualmente, após um acalorado debate entre municípios e governo paulista, o Vale do Paraíba encontra-se na fase três do Plano São Paulo, que permite a reabertura de bares, restaurantes, salões de beleza e academias. A passagem da fase laranja para a amarela, anunciada no último dia 7, ocorreu na sequência do embate entre prefeitos que chegaram, à revelia de João Doria (PSDB) e das orientações do Plano São Paulo, a anunciar a progressão. Não era necessário. No início de agosto, já tentando diminuir a tensão, o Estado havia anunciado mudanças nos critérios, facilitando a progressão das regiões. Não à toa, no último dia 7, nove regiões do interior 'passaram' de fase. Na RMVale, como estampa a manchete de OVALE hoje, o avanço da pandemia continua. Com quase mil casos em 24 horas, a região voltou a bater o seu recorde diário de diagnósticos positivos e se aproxima de 25 mil confirmados com Covid-19. Já são, infelizmente, 750 mortes. Se inicialmente o Plano São Paulo rechaçava a possibilidade de tratar de maneira diferente as realidades locais, ressaltando que era vital ter um olhar regional, agora confirma que a RMVale abriga distintos patamares de combate ao vírus. A área mais vulnerável agora é o Vale da Fé. Qual é a fase? Vermelha? Laranja? Amarela? Verde? Diante do jogo de pressões e mudanças de critérios, a fase é de alerta. E o pior ainda não passou, infelizmente.
A quebra do sigilo bancário e fiscal do policial militar aposentado Fabrício Queiroz aniquila de maneira contundente o débil arcabouço criado pela família Bolsonaro para tentar (em vão) explicar o inexplicável e afastar-se da investigação sobre o esquema das 'rachadinhas' -- leia-se desvio de dinheiro público, do contribuinte brasileiro. É, com o perdão da chula expressão popular, batom na cueca. Queiroz, que é apontado como o operador da suposta organização criminosa, realizou o total de 21 depósitos na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro entre 2011 e 2016 (totalizando R$ 72 mil). E tem mais: Márcia Águiar, esposa de Queiroz, efetuou ainda R$ 17 mil para a esposa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No total, a família Queiroz fez 27 cheques para a primeira-dama (R$ 89 mil) Porém, e qual é a origem dessas transações? A esdrúxula explicação inicial caiu por terra. Até então, em caso revelado no fim de 2018, só havia o conhecimento de um misterioso (e nebuloso) depósito de R$ 24 mil para Michelle feito por Queiroz, fiel companheiro de Bolsonaro há 30 anos e ex-assessor do filho '01' do presidente, o hoje senador da República Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). A transação integrava uma série de movimentações bancárias suspeitas de Queiroz, que somou R$ 1,2 milhões entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. O ex-assessor afirmou, à época, que era "roleiro" e ganhava dinheiro comprando e vendendo carros. E como o presidente justificou o depósito? Também à época, Bolsonaro afirmou que o valor real seria ainda maior (R$ 40 mil) e o motivo seria o pagamento de uma dívida -- Queiroz estaria quitando um empréstimo. No entanto, havia registro? Houve declaração no Imposto de Renda? E por que na conta da primeira-dama? Existe comprovante? O presidente justificou o depósito na conta de Michelle dizendo que "não tinha tempo para sair" e, questionado se havia registro das transações, respondeu a um repórter: "pergunta para a sua mãe". Estranhamente, a análise da movimentação de Queiroz, de 2007 a 2018, não apresenta o registro de nenhum empréstimo do presidente ao amigo -- que foi preso em junho deste ano em Atibaia, em um imóvel pertencente a Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro e de Flávio. Não há registro de empréstimo. Ou foi feito em dinheiro vivo? Aliás, outra característica curiosa da família Bolsonaro, que não confia nos bancos, preferindo transações em dinheiro vivo. Um exemplo? Só para ficar na área matrimonial, documentos mostram que a ex-mulher do presidente, Rogéria Bolsonaro, adquiriu um imóvel quando era vereadora, no Rio. Como foi o pagamento? Dinheiro vivo. O caso ocorreu em 1996 e o valor pago foi R$ 95 mil, o que equivale hoje a cerca de R$ 620 mil. É plausível imaginar que alguém realmente compra um apartamento e paga essa fortuna em dinheiro vivo? O clã Bolsonaro já movimentou mais de R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo. Por quê? Por que Flávio comprou salas comerciais em 2018 e pagou R$ 86,7 mil em dinheiro vivo (via depósito)? Por que ele e a esposa, Fernanda Bolsonaro, compraram dois imóveis e pagaram R$ 638,4 mil em 2012 também em cash? Por que Queiroz pagava -- sempre usando dinheiro vivo -- as contas pessoais do filho 01? Por que a segunda esposa do presidente, Ana Cristina Valle, pagou em dinheiro vivo a compra de 5 dos 14 imóveis e terrenos que adquiriu durante 10 anos de casamento? Flávio é investigado pelo Ministério Público do Rio por chefiar um suposto esquema de rachadinha no gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), quando era deputado estadual. Queiroz era o operador do sistema, recebendo parte do salário dos assessores em repassando para o filho do presidente. Entre 2007 e 2018, os créditos nas contas do ex-assessor totalizaram mais de R$ 6 milhões. Basta seguir o dinheiro. A verdade é que os cheques na conta da primeira-dama colocam Bolsonaro em xeque.
Sinal amarelo. Ou seria vermelho? A RMVale iniciou o período de fase amarela no Plano São Paulo com um aparente sinal verde do novo coronavírus, que avança sem freio nas cidades da região. O Vale do Paraíba registrou nesta segunda-feira o seu recorde no número de mortes e ultrapassou a triste marca de 23 mil casos confirmados de Covid-19 -- obviamente, o número é ainda maior, considerada a flagrante subnotificação. Em um único dia foram divulgadas 39 mortes, 22 só em São José dos Campos. O número supera em 85% o recorde anterior, de 24 de julho, quando tivemos 21 mortes na região. Agora, oficialmente, a RMVale soma 716 óbitos -- 134 só em agosto, o que supera em mais de 38% o índice dos primeiros 10 dias do mês anterior (97). Temos ainda 80 mortes suspeitas, aguardando exames. Só em São José a pandemia já fez 255 vítimas -- o número supera, por exemplo, todos os homicídios ocorridos na cidade nos últimos cinco anos (228 de 2016 até agora). A nova quarentena, iniciada pelo Estado no sábado passado, colocou a região na fase amarela, a terceira etapa do processo de maior flexibilização no isolamento. Como os casos de hoje são reflexo do cenário de duas semanas atrás, pelo período de tempo que o vírus leva para se manifestar, o aumento recorde desaguou nesta segunda uma realidade capturada ainda no mês passado, com a região ainda na fase laranja. É plausível acreditar que com maior abertura e menor isolamento os números vão cair e a pandemia arrefecer? De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), não há razão para alívio quanto à pandemia no Brasil. Os novos casos diários estão em um platô muito alto, entre 50 e 60 mil, e a taxa de transmissão elevou-se -- foi de 0,5 a 1,5 para 1,1 a 1,5. A fase é amarela. É o amarelo do sinal de alerta.
Cem ou sem? São mais de 100 mil mortes pela Covid-19 no Brasil, país sem política nacional contra a maior e mais letal crise sanitária dos últimos 100 anos. É um número absurdo de vítimas, lembrando que a estimativa inicial do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) era de 800. São 100 mil vidas perdidas. É uma tragédia. E uma tragédia tão profunda que há quem só enxergue um número sem rosto -- ou melhor, sem a centena de milhares de faces que a pandemia já matou em solo brasileiro. Há uma indiferença sem precedentes em relação a 100 mil mortes. A tragédia já equivale à queda de 1.400 aviões como aquele que caiu em 28 dezembro de 2016, na Colômbia, vitimando a equipe da Chapecoense. A comoção, justa, emocionou uma nação inteira. Mais do que isso, o planeta. Por que hoje não ocorre o mesmo? Todo mundo lembra-se do que estava fazendo em 11 de setembro de 2001, quando os EUA e o restante do planeta viram pela televisão, horrorizados, a queda das torres do World Trade Center, em Nova York, após os ataques terroristas que mudaram a história. Foram 2.977 mortes -- o equivalente a três dias de Covid-19 no Brasil. Por aqui, a pandemia já matou o equivalente a 33 ataques de 11 de setembro e segue em ritmo forte, enquanto o processo de reabertura e flexibilização se acentua, com cenas de aglomeração pipocando por todos os cantos do país. Cem ou sem? São 100 mil mortes em um Brasil sem presidente. São 100 mil mortes em um Brasil sem ministro da Saúde titular há três meses. São 100 mil mortes em um Brasil sem critérios claros para reabertura da economia. São 100 mil mortes em um Brasil sem respeito à ciência, cada vez mais negacionista. São 100 mil mortes em um Brasil sem isolamento social. São 100 mil mortes em um Brasil sem máscara. São 100 mil mortes em um Brasil sem rumo.
A cada novidade no caso, causa ainda mais arrepio o comportamento do governo Jair Bolsonaro (sem partido) com relação ao dossiê feito pelo setor de inteligência do Ministério da Justiça e Segurança Pública a respeito de um grupo de 579 servidores federais e estaduais de segurança identificados como integrantes do 'movimento antifascismo' e quatro professores universitários. Nessa quinta-feira, por exemplo, o ministro da pasta, André Mendonça, se recusou a enviar ao STF (Supremo Tribunal Federal) uma cópia do dossiê. Ele apenas anexou dois pareceres do governo que falam sobre uma suposta necessidade de preservar o sigilo de documentação produzida pelo ministério, sem negar e nem confirmar a existência do relatório. O caso foi revelado pelo UOL no fim de julho. Desde então, o governo Bolsonaro tem se enrolado. Na semana passada, por exemplo, o ministério confirmou a existência do relatório. A partir da última sexta-feira (31), no entanto, a pasta começou a apresentar uma versão intermediária, sem negar e nem confirmar a veracidade do dossiê. Mesmo assim, o episódio levou a uma mudança na diretoria de Inteligência da Seopi (Secretaria de Operações Integradas), área apontada como autora do dossiê. O antigo diretor, Gilson Libório, foi substituído por um delegado da Polícia Federal, Thiago Marcantonio Ferreira. Ato contínuo, o ministro da Justiça declarou que abriria apuração interna sobre o caso. André Mendonça deve ser ouvido nessa sexta em uma sessão virtual do Congresso, em uma audiência fechada ao público. Ao STF, o ministro alegou que irá "esclarecer todas as questões que sejam apresentadas pelos distintos membros do Congresso Nacional". Será? Será que Mendonça irá responder quem mandou investigar essas 583 pessoas? Saberá dizer qual é a ameaça que constituem esses indivíduos do 'movimento antifascimo'? Pelo que se sabe, e também pelo que não se sabe, o episódio tem contornos que lembram a atuação da Gestapo, a polícia secreta da Alemanha Nazista. É imprescindível que todas as respostas necessárias sejam dadas pela gestão Bolsonaro. É inadmissível um governo se achar no direito de perseguir grupos de oposição.
"Vou intervir!" Era o dia 22 de maio de 2020, mas fardado de 31 de março de 1964, camuflado de 13 de dezembro de 1968 -- datas, respectivamente, do golpe militar daquele ano (e que perdurou por 21 anos) e da elaboração do AI-5 (Ato Institucional número 5), marco sombrio da ditadura, que resultou na cassação de mandatos, suspensão das garantias constitucionais, e outras violentas torturas contra a liberdade, a verdade e a democracia. Mas não era 1964 ou 1968, era 2020. Dia 22 de maio. Brasília, capital da República. Durante reunião no gabinete da Presidência, no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro (sem partido, sem respeito à Constituição Federal) comunicou a sua decisão aos asseclas: "Vou intervir!". Sobre o que o néscio falava? Em outras palavras, o presidente eleito democraticamente informava a ministros a decisão de colocar em curso um golpe contra a Carta Magna, a lei maior do país. E a ordem? Enviar tropas ao STF (Supremo Tribunal Federal) e destituir a Corte máxima do Judiciário brasileiro, destituindo seus 11 ministros -- os guardiões da Constituição. Na mente autoritária e despótica de Bolsonaro, o plano era de nomear ele mesmo novos ministros militares ou civis, "até que aquilo esteja em ordem". Apesar de provocar revolta e choque, o plano de Bolsonaro não é surpreendente. Era a materialização da profética frase de Eduardo Bolsonaro, dita em 2018, em uma palestra: "para fechar o STF basta um soldado e um cabo". Naquele 22 de maio, Bolsonaro estava diante de generais: Walter Braga Netto, o ministro-chefe da Casa Civil; Luiz Eduardo Ramos, o ministro-chefe da Secretaria de Governo; e Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional; Ramos concordava com o chefe, enquanto os dois outros tinham dúvidas se essa seria a melhor forma de intervenção no STF. Bolsonaro estava inconformado após o decano da Corte, Celso de Mello, consultar a Procuradoria-Geral da República se deveria ou não mandar apreender o celular do presidente e de seu filho Carlos Bolsonaro -- na prática, tratava-se apenas de uma formalidade, rotina, em decorrência de uma notícia-crime apresentada por partidos de oposição. O caso, ocorrido após o Supremo ter barrado a nomeação de Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro, como diretor-geral da Polícia Federal, quase levou ao rompimento da Constituição. Observe a gravidade do caso, revelado pela 'Piauí'. Bolsonaro, que enaltece torturadores e ataca a democracia diariamente, é uma bomba armada contra a Constituição Brasileira. O que falta? É hora das instituições, agindo dentro da letra constitucional, agirem de acordo e protegerem a República dos rompantes absolutistas de um avilanado déspota travestido de presidente
O TJ (Tribunal de Justiça) de São Paulo rejeitou nesta terça-feira recurso da administração Felicio Ramuth (PSDB) contra decisão de primeira instância que barrou a ampliação da flexibilização econômica em São José dos Campos à revelia do Estado. É mais uma derrota do tucano na esfera judicial, na empreitada pela maior reabertura do comércio, apesar do aumento no número de casos e morte de Covid-19. Como relata a cobertura de OVALE, a prefeitura havia decretado a progressão da cidade da fase laranja para a amarela do Plano São Paulo, contrariando avaliação do Palácio dos Bandeirantes. O anúncio foi feito em 24 de julho, mas a medida foi barrada pela juíza Laís Helena de Carvalho Scamilla Jardim, de São José, na última sexta-feira. Na primeira instância, o argumento foi claro: Felicio não tem autonomia para ampliar a flexibilização e relaxar a quarentena. "[...] A decisão sobre as análises desses dados é tomada pelo governador do Estado com o auxílio de numerosos auxiliares de diversas pastas, não tendo um município, isoladamente, autonomia constitucional para autorizar medidas de relaxamento proibidas pelas diretrizes estaduais", diz trecho da decisão. Felicio, que fez duras críticas à magistrada, recorreu ao TJ. No Tribunal, porém, o entendimento foi o mesmo. Na decisão, assinada pela relatora Maria Olívia Alves nesta terça-feira, a desembargadora aponta que o município não teria autonomia constitucional para tomar decisões isoladas, com medidas de relaxamento proibidas pelas diretrizes estaduais. "Na verdade, o retorno às atividades econômicas em desacordo com o plano estadual de flexibilização gradual da quarentena pode vir a comprometer os seus objetivos, em detrimento da saúde pública dos cidadãos, o que, por ora, configura receio de lesão grave ou de difícil reparação que justifica a manutenção da medida de urgência concedida", diz trecho da decisão. O mérito ainda deve ser julgado pela 6ª Câmara de Direito Público, formada por três desembargadores. No entanto, o resultado já é previsível. A batalha na esfera jurídica teve início em abril e já chegou até à terceira instância, sempre com derrota para o pleito do Paço. O argumento também repete-se: há entendimento pelo STF (Supremo Tribunal Federal) de que os municípios podem intensificar ações de isolamento, mas não reduzí-las. A análise caberia ao Estado. Diante deste cenário e dos resultados já ocorridos nos tribunais, o melhor caminho seria a união de esforços contra um inimigo comum: a Covid-19, que provoca também um efeito colateral grave, que é a crise econômica. Sempre com a ciência como bússola, é hora do diálogo.
Tom. O embate entre o Paço Municipal e o Palácio dos Bandeirantes, inicialmente travado em uma velada "guerra fria", subiu o tom e transformou-se em um confronto aberto, direto e com artilharia pesada. No centro do debate está o Plano São Paulo e as decisões que afetam o processo de reabertura gradual da economia na RMVale, região que assiste uma escalada no número de casos e mortes. A situação da Covid-19 em São José dos Campos e região 'preocupa', usando aqui palavras da administração João Doria (PSDB). Subiu o tom. É fato que o desgaste entre o prefeito joseense, Felicio Ramuth (PSDB), e o Estado se origina ainda em abril, quando o mandatário publicou decreto flexibilizando as regras da quarentena, à revelia de Doria -- a medida, como outras duas posteriores, acabaram naufragando nos tribunais. A aposta palaciana nos meses subsequentes foi a diplomacia e não confronto direito, até pela compreensão do previsível desfecho jurídico. Ademais, com a pressão de setores econômicos, o discurso de Jair Bolsonaro e ainda os sinais de descontentamento avolumando-se no interior paulista, Doria deu início a uma reabertura gradual na economia a partir de junho -- mesmo com, à época, a pandemia se agravando, com casos em alta e isolamento em queda. Para tentar debelar o crescente descontentamento de prefeitos do interior, também sob forte pressão em ano eleitoral, Doria criou o Conselho Municipalista, do qual Felicio é um dos 16 integrantes. O Estado parecia tentar corrigir um erro estratégico, quando o governador parecia direcionar a energia para o cenário nacional, de olho em 2022, e deixava o cuidado doméstico a cargo da Secretaria de Desenvolvimento Regional. Os números explodiram em junho e julho. Matéria de OVALE, de 1º de agosto, revela: a quantidade de casos cresceu 132% durante o mês de julho, na comparação com o período anterior -- 11.227 contra 4.835. O número de óbitos por Covid-19 em julho foi de 336, também um crescimento em relação às 157 mortes de junho: 114%. Mais casos e mais mortes na região. Com isso, a evolução gradual e o aprofundamento da flexibilização empacou na RMVale e a região foi mantida na fase dois do Plano São Paulo, a fase laranja. Então, ao lado de outros prefeitos da região, Felicio decidiu subir o tom e anunciar, contrariando orientação do Estado, o progresso para a fase três (amarela), abrindo os bares, restaurantes e academias. A alegação seria de "erros grosseiros" nos critérios e dados utilizados pelo Plano São Paulo. Posteriormente, nos dias seguintes, a "rebelião" dos prefeitos perdeu força e Felicio ficou praticamente isolado, mas persistiu na queda de braço. Por outro lado, o Estado mantinha o discurso de que apostava no diálogo. Com a derrota judicial da empreitada de Felicio, ocorrida na sexta-feira, a gestão de Doria manteve a mesma estratégia. "Vou procurá-lo [Felicio] para entender os dados que apresenta. Estamos sempre abertos ao diálogo e seguros de que usamos os dados oficiais", disse o secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, em entrevista ao 'Gabinete de Crise', de OVALE, no sábado (1). Passou do tom. Na manhã de domingo (2), no entanto, Felicio publicou artigo em OVALE e abriu fogo em direção ao Palácio dos Bandeirantes. A crise oficialmente subiu de patamar. No texto, o prefeito diz que a gestão Doria é dominada por "tecnocratas" e está longe das ruas, "distante das pessoas" e "rechaçando a boa política". "Como resultado da política equivocada, baseada única e exclusivamente na palavra dos técnicos, as cidades do Estado agonizam com a perda de vidas e com resultados díspares no enfrentamento da doença e com o cidadão cada dia mais desesperançado em relação ao seu futuro e à sua vida", diz trecho do artigo de Felicio. No mesmo dia, o Estado reagiu por meio de nota, classificando de "infundadas" as declarações do prefeito. Já na segunda-feira, o Estado deixou claro que, após apostar no diálogo, partiu para outra estratégia. Em artigo a OVALE, Vinholi foi contundente e atribuiu a Felicio a responsabilidade pela queda no isolamento social em São José, com o consequente aumento no número de mortes e casos de Covid-19. "Em maio, houve uma tentativa isolada de flexibilização da quarentena na cidade e quem sofreu foi a população, que se viu em meio à queda de isolamento social (...) e uma disputa judicial (...). O resultado foi o aumento da proliferação do vírus. A lição desse episódio é que a população precisa de um norte, de pulso firme na gestão da crise". Pouco depois, no início da tarde de segunda, em coletiva no Palácio dos Bandeirantes, Doria -- sem citar Felicio -- deu um recado claro. A leitura palaciana é que Felicio "apelou", buscando o apoio de setores econômicos e do eleitorado mais identificado com a extrema-direita, com o presidente Bolsonaro. "A maioria expressiva [dos prefeitos] vem obedecendo de maneira rigorosa as orientações do Plano SP. Para aqueles que querem colocar interesses eleitorais acima da proteção social, nós temos, primeiro, o fator imprensa: jornalistas e veículos de comunicação vigilantes. E também o MP e o Tribunal de Justiça. Nós não podemos colocar interesses políticos e eleitorais acima dos interesses da saúde e da vida da população de São Paulo". Falando em MP... o Ministério Público de São José vai pedir para a PGJ (Procuradoria-Geral de Justiça) avaliar se a atuação de Felicio no enfrentamento à pandemia do coronavírus configura crime de responsabilidade ou ato de improbidade administrativa. Pelo visto, com os novos movimentos no tabuleiro e a insistência de Felicio na aposta judicial, a guerra aberta entre Paço e Palácio deve ter novos capítulos em breve. Em meio à briga, no melhor estilo Tom e Jerry, a sociedade joseense assiste diariamente o aumento no número de casos e mortes. Não seria de bom tom deixar a política de lado e unir forças contra o maior desafio da nossa história recente? ---------- Nota enviada pela Secretaria de Desenvolvimento Regional do Estado, às 18h50: Ao contrário do que informa o editorial do Jornal O Vale de 04 de agosto de 2020, não há qualquer desentendimento entre o Governador João Doria e o Prefeito Felício Ramuth. O diálogo da Secretaria de Desenvolvimento Regional, por meio do Secretário Marco Vinholi é frequente e ao contrário do que propõe o artigo, não existiu troca de recados ou amento de tom. O Governo do Estado, através do Plano SP, utiliza dados técnicos da evolução da pandemia e controle da capacidade hospitalar, sendo aplicados a todos os 645 municípios do estado sem distinção. Nota da Redação: OVALE mantém as informações publicadas.  
Scientia. Do latim, scientia significa conhecimento. Como nos ensina a etimologia, o estudo sobre a origem das palavras, scientia deu origem ao substantivo ciência, termo indispensável, imprescindível e vital para todo debate acerca da pandemia do novo coronavírus. Afinal, a matemática, ciência exata, expõe claramente a gravidade da Covid-19. Trata-se da maior crise sanitária dos últimos 100 anos, com 17,9 milhões de casos confirmados em todo o planeta e 689 mil mortes. Já aqui no Brasil, apesar da subnotificação flagrante, são 2,7 milhões de infectados, com 94 mil óbitos. Esta semana, fatalmente, chegaremos à triste marca de uma centena de vidas ceifadas por este vírus assassino. E a estatística, outra ciência exata, mostra a pandemia se agravando na RMVale. Matéria de OVALE, publicada no dia 1º de agosto, revela: o número de casos cresceu 132% durante o mês de julho, na comparação com o período anterior -- 11.227 contra 4.835. E as mortes? O número de óbitos por Covid-19 em julho foi de 336, também um crescimento em relação às 157 mortes de junho: 114%. Mais casos e mais mortes na região. Junho e julho, meses já abarcados dentro do processo de reabertura gradual da economia, representam o pico da doença no Vale, com 16 mil casos e 493 mortes, 88% e 85% do total da região, respectivamente com 18,3 mil infectados e 582 mortes. Até aqui, sem vacina ou remédio comprovado pela ciência farmacológica, o remédio contra o vírus é o isolamento social e a adoção de cuidados básicos de higiene. Estudo da Science, revista científica, apontou que o distanciamento reduziu pela metade a transmissão do novo coronavírus. A pesquisa internacional foi liderada por cientistas brasileiros e contou com pesquisadores da Universidade de Oxford, USP, Unicamp e outras dezenas de renomadas instituições. A pandemia da Covid-19 ataca a saúde, mas tem efeitos colaterais em outras áreas, entre elas a economia e a política. Como mostra outra ciência, a economia, o novo coronavírus -- e não o isolamento -- provoca severos prejuízos, com o fechamento do comércio, corte de milhões de empregos e a paralisação do sistema produtivo. Isso, obviamente, acarreta uma forte pressão política, exercida por setores que veem os seus interesses econômicos contrariados. No Brasil, no país em que o próprio presidente coloca-se em posição diametralmente contrária ao conhecimento e à ciência, o isolamento viu-se corroído por uma dicotomia falsa entre saúde e economia -- mesmo com os exemplos práticos de uma quarentena falha só retarda a retomada dos setores produtivos. Em artigo publicado em OVALE, o prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB), fez duras críticas ao governo de seu correligionário João Doria, responsável pelo Plano São Paulo. O chefe do Executivo joseense classificou o governo estadual como "distante" das pessoas, que desconhece a situação das cidades do interior paulista, que "agonizam" diante da estratégia equivocada do Palácio dos Bandeirantes, tomado por tecnocratas que -- no conforto do ar condicionado -- rechaçam a "boa política". É um novo round da disputa entre o Paço Municipal e o Estado, com Felicio dobrando suas apostas e elevando a temperatura do debate. Se antes afirmava ter dados científicos que evidenciariam a possibilidade de maior abertura econômica em São José, o nosso passo do Paço é evidentemente político, como deixa bem claro o próprio artigo -- afinal, Felicio prega que política e ciência sejam a bússola para a tomada de decisões. Porém, afinal, o que é a tecnocracia? Refere-se à aplicação do método científico para a solução de problemas sociais, contrastando com a tradicional abordagem política. Sob esse aspecto, não é o que se espera diante de uma praga? Diante da mais grave crise sanitária do século, com vidas em risco, espera-se que sejam ouvidas a ciência e a medicina. Nesse campo, as eventuais discordâncias são salutares e devem ser confrontadas, com dados científicos e até com ajuda das ciências jurídicas. Mas que prevaleça o conhecimento. É o que se espera da boa política.