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O mar recua. Deixando exposto o leito marinho, o mar recua. Dez minutos antes do tsunami, o mar recua. Como aconteceu em dezembro de 2004, quando ondas tsunâmicas varreram 13 países banhados pelo Oceano Índico e deixaram 230 mil vítimas, o recuo traiçoeiro do mar é visto até com curiosidade por banhistas que divertem-se nas areias da praia, sem imaginar a tragédia que aponta no horizonte. O mar recua. Depois das duas primeiras semanas de isolamento, o mar recua. Dez ou 15 dias antes do pico do novo coronavírus, o mar recua. Diante da maior crise global desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), é perceptível a olho nu que, infelizmente, há um recuo, um afrouxamento no isolamento social recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e demais autoridades sanitárias. Há um mar de gente. As ruas não estão vazias. Ou não é fácil encontrar parques cheios? Não há filas em supermercados? Estamos livres dos pontos de aglomeração? Um exemplo? Há um mar de gente. Após a Justiça determinar a liberação do cartão de gratuidade dos idosos, as empresas que operam o transporte público registraram a circulação de 7.400 idosos em ônibus segunda-feira em São José dos Campos. O bloqueio era medida para evitar a saída dos integrantes de um dos principais grupos de risco do novo coronavírus de suas residências. Sete mil e quatrocentos idosos -- pessoas do grupo de risco. Há um mar de gente. Pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira aponta que 28% dos entrevistados não seguem total ou parcialmente a orientação de ficar em casa e fazer isolamento contra o novo coronavírus. Quase um terço. Há uma nau à deriva, que ignora a luz do farol científico do conhecimento. Inegavelmente, o comportamento errático, irresponsável e negacionista do capitão da nau brasileira, presidente Jair Bolsonaro (sem partido, bússola, astrolábio, quadrante ou qualquer conhecimento sobre o comportamento do oceano, apesar de familiarizado com ondas de fake news), é um dos responsáveis por essa tragédia anunciada, que cobrará seu alto preço em vidas brasileiras. Há um mar de gente. A banda toca no convés enquanto o Titanic afunda. Esse mar de gente não recua. Mas, infelizmente, o tsunami já vem.
Baseado no romance 'Dr. Jekyll and Mr. Hyde' (1886), escrito por Robert Louis Stevenson, o filme 'O médico e o monstro' chegou ao cinema, em sua versão clássica, no ano de 1941. A trama, que se passa na Londres do século 19, traz a história do médico e pesquisador Henry Jekyll, determinado a provar a sua teoria de que o bem e o mal existem dentro de cada pessoa. Mas como? Depois de trabalhar de forma incansável em seu laboratório, Jekyll elabora uma fórmula poderosa. Para não expor ninguém a risco, ele mesmo a ingere. E, como resultado, seu lado maléfico, que se denomina Mr. Hyde, aflora. Inicialmente, o médico acredita que pode controlar a sua face oculta. Ledo engano. Logo o monstro assume o poder e toma o controle. O médico e o monstro está em cartaz em Brasília, em exibição no Palácio do Planalto. O governo é hoje um triste remake do clássico dirigido por Victor Fleming nos anos 1940. Em meio à pandemia, diante da maior crise global desde a Segunda Guerra Mundial, o presidente Jair Bolsonaro atua no papel de Mr. Hyde, sendo hoje o maior obstáculo do país no combate ao novo coronavírus. O chefe do Executivo brasileiro, inimigo do conhecimento, da lógica, da democracia e da ciência, hoje põe em risco a saúde pública, a vida de milhões de brasileiros, ao contrariar a Medicina em meio a uma pandemia, contrariando orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e até mesmo, acredite, do seu Ministério da Saúde. Todos são a favor do isolamento. Menos Mr. Hyde... Falando nele, seu alvo principal agora é o médico Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, que integra a ala técnica do governo, em contraponto à ala delirante, obscura e negacionista. Nesta segunda-feira, a equipe de Bolsonaro dava como certa a demissão do ministro -- essa medida foi, ao menos temporariamente, adiada em razão da repercussão desencadeada pela notícia. Em meio à pandemia, o presidente ameaça demitir o chefe da saúde? Para o lugar do médico Mandetta, cujo erro seria respeitar a ciência e ganhar protagonismo, com um índice de aprovação superior ao do chefe enciumado (76% a 33%), Mr. Hyde já sonda Osmar Terra. Esse, deputado federal e ex-ministro, é contra a quarentena e defende a flexibilização de ações de isolamento, alinhando-se ao que pensa Bolsonaro, contra o que diz a ciência. É inacreditável. Em meio à guerra contra a pandemia, o país corre o risco de perder um de seus melhores soldados e tudo por ciúmes, insanidade e delírio de um capitão despreparado, alienado, errático e desorientado. Diante desse quadro, o diagnóstico é lamentável e preocupante. Entre o médico e o monstro, o governo cada vez mais parece o Mr. Hyde. O final desse filme não será nada feliz.
Opulso ainda pulsa. Ali, em meio ao branco que grita na capa desta edição, está a linha de um coração que bate no ritmo da esperança de que, apesar de difícil, este pesadelo passará. O futuro, ainda uma semente, recita o poeta Fernando Pessoa (1888 - 1935) a Alberto Caieiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, com a fé de quem vê adiante, além da névoa espessa da noite mais escura deste século: "Tenho em mim todos os sonhos do mundo". Já pensou se um deles não retrucaria utilizando Mário Quintana (1906 - 1994), dando asas aos conhecidos versinhos: "Todos esses que aí estão, atravancando meu caminho, eles passarão... eu passarinho!" Fato é que o combate à pandemia, crise global mais grave desde a Segunda Guerra Mundial, um dia vai passar, porém não se sabe quando e com qual trágico saldo. Muito longe de ser uma 'gripezinha' ou 'resfriadinho', a Covid-19 já infectou aproximadamente um milhão de pessoas, com milhares de vidas já ceifadas no planeta. Trata-se de uma guerra e quem está na linha de frente, nas trincheiras da batalha diária travada entre leitos dos hospital: são os profissionais de saúde, verdadeiros heróis. São super-heróis sem capa ou superpoderes, mas que têm nas mãos a responsabilidade de tentar salvar o mundo desse inimigo tão perigoso. A capa da edição de hoje de OVALE e Gazeta de Taubaté homenageia os profissionais de saúde, vestindo o jaleco branco e mantendo o coração batendo. Pulsando. A pandemia, ainda não se sabe quando, passará. E passará, em grande medida, graças a esses profissionais. Como, de maneira magistral em 'O Mar Português', escreveu o poeta Pessoa, vai ser doloroso, mais vai passar. "Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu"..
Quanto vale a vida? No Brasil e no mundo, o início dessa semana foi marcado por declarações de políticos e empresários que, em prol da saúde da economia, sugeriram afrouxar as medidas de isolamento social adotadas em todo o planeta como forma de conter a pandemia do novo coronavírus. A primeira declaração marcante veio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou que decidirá como reabrir a economia do país na semana que vem, quando se encerrará o prazo inicial de 15 dias de isolamento social. "Não vamos deixar que isso se transforme em um problema financeiro duradouro", afirmou, deixando claro seu ponto de vista: "a cura não pode ser pior que o problema". Fã declarado de Trump, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), foi além. Naquele que talvez tenha sido o discurso mais desastroso de um chefe de Estado brasileiro, voltou a minimizar a pandemia e contradizer recomendações de autoridades de saúde. No campo empresarial, o debate também foi disseminado. Junior Durski, da rede Madero, disse que o país não pode parar por conta de "5.000 pessoas ou 7.000 pessoas que vão morrer". Alexandre Guerra, da rede Giraffas, disse que os trabalhadores deveriam estar com medo de perder o emprego, e não de pegar o vírus. Luciano Hang, da Havan, ameaçou demitir 22 mil trabalhadores e disse que "o dano na economia vai ser muito maior do que na pandemia". Roberto Justus, empresário e apresentador de TV, classificou de exageradas as medidas tomadas até agora. "No Brasil, nós temos aqui poucos casos ainda e temos, infelizmente, 25 mortos [agora já são 46], mas 25 mortos para 210 milhões de habitantes, de novo, é um número muito baixo", disse. "Estamos dando um tiro de canhão para matar um pássaro. Nós estamos exagerando na dose", completou. Mesmo em meio à pandemia, é justo que políticos e empresários estudem medidas para minimizar o impacto do covid-19 na economia. No entanto, essas ações devem ser limitadas a pacotes de auxílio, com medidas como subsídios, isenções e linhas de crédito. Quando a ideia de colocar vidas em risco passa a ser uma opção, derrotar o novo coronavírus deixa de ser o maior de nossos problemas agora..  
À beira do caos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido, sem capacidade para o cargo e sem condições de liderar o país em um momento tão crítico, entre outras inaptidões flagrantes) decidiu dobrar a aposta. Em meio à maior crise global desde a Segunda Guerra Mundial, o claudicante presidente dirigiu-se aos brasileiros na noite desta terça-feira, em rede nacional de televisão, e protagonizou um espetáculo dos mais tristes, patéticos, obscuros e preocupantes da República. Foi um verdadeiro show de horrores. Quanta alienação! Bolsonaro, que já havia chamado a grave pandemia do coronavírus de 'fantasia' e 'histeria', voltou à carga, com a tão característica desinteria verbal e alienação alucinada, as marcas de um desgoverno amébico, irresponsável, leviano e mentiroso, que não está à altura da Nação. Jogando com a vida de milhões de brasileiros, Bolsonaro dobrou a aposta pela insanidade e pediu a volta à 'normalidade', com volta às aulas, fim do confinamento e quarentena, contrariando a ciência, o conhecimento, as orientações de profissionais de saúde e os líderes do mundo civilizado. O Brasil está acéfalo. O presidente, que já havia sido criticado por infantilmente minimizar a gravidade do problema e, até mesmo por isso, tinha alterado o tom das declarações, não se contém e revela a face retrógrada e medieval de sua gestão, inimiga da liberdade, do saber, da verdade e da democracia. Ele atacou a imprensa, governadores e contrariou as recomendações das próprias autoridades sanitárias. "O vírus chegou, a vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos", disse no pronunciamento o presidente, o mesmo da MP que permitia que trabalhadores ficassem em casa, sem receber um centavo, por até quatro meses -- meia volta volver ambulante, o presidente revogou o artigo após as críticas. E Bolsonaro, perdido, engolido por uma crise que expõe sua incapacidade em tempo real, ainda foi além. Em uma fase decisiva, a chamada 'hora de achatar a curva', ele pediu o fim do isolamento -- procedimento importante para salvar vidas. "Devemos sim voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, fechamento de comércio e confinamento em massa", afirmou. Bolsonaro declarou que, dado ao seu "histórico de atleta", não teria problemas com a manifestação do vírus. Ele voltou a ironizar a doença, chamando-a de 'gripezinha' e até 'resfriadinho', "como diz um conhecido médico de uma conhecida televisão" -- em alusão a vídeos feitos pelo médico Drauzio Varella, da Rede Globo, que foram feitos em janeiro e republicados recentemente, fora de contexto, por membros do alto escalão do governo -- que inclusive retificaram essas postagens. Em um momento tão decisivo, o país está desgovernado. Ao invés de buscar a união, o presidente se mantém em uma luta desesperada contra os fatos. Ou o mundo inteiro está errado e Bolsonaro é o único certo? Ele dobrou a aposta, jogando a vida dos brasileiros em risco, blefando, com sua mão ruim e os seus dados viciados.
Patética, a entrevista coletiva convocada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido, sem capacidade para o exercício da função e sem conexão com as responsabilidades do cargo) nesta quarta-feira, concedida ao lado de um grupo de ministros e transmitida para todo o Brasil, foi emblemática. Foi uma 'fratura exposta', demonstrou o despreparo de um governo desgovernado, alienado, alheio à gravidade de uma crise mundial ainda sem precedentes, que chegou a ser classificada pelo chefe do Executivo como fantasia da mídia. Que show de horrores. O triste espetáculo, que mostrava o presidente e os ministros usando máscaras, sentados lado a lado, é um resumo da falta de políticas do Palácio do Planalto diante da pandemia do coronavírus. Bolsonaro, em uma imagem que rapidamente virou meme, não sabia nem sequer colocar a máscara. Infelizmente, esse foi o menor dos problemas. O que se viu, mais uma vez, foi a falta de coordenação ministerial e a ausência de um plano de ação que possa conduzir o país durante essa grave crise. Já acostumado a desdenhar da pandemia, com uma vergonhosa irresponsabilidade sanitária e insanidade cívica, mesmo com dois ministros já tendo sido contaminados, Bolsonaro declarou que 'não há motivo para pânico'. Deixou claro: não se surpreendam se ele for visto andando em um coletivo ou metrô, no meio do povo -- contrariando recomendações básicas de evitar aglomerações. Bolsonaro, evidentemente, não entendeu nada. Na pífia coletiva, ele fez ataques à imprensa, fez política (aquela, a velha política) e... mentiu. Fake. Novamente, o presidente lançou informações falsas para defender o indefensável. Ainda comparou o país ao futebol. "Sou o técnico", disse Bolsonaro, que, preso à sua distopia, completou: "estamos ganhando de goleada". Como? O senhor é um 7 a 1, presidente. Todo dia é um gol da Alemanha. O Brasil espera que, à revelia do seu presidente, a ala técnica cumpra o seu papel. Bolsonaro? Que tal uma quarentena verbal? O presidente é inepto. A máscara caiu. Mais uma vez..  
Em meio à dura guerra travada contra a pandemia do coronavírus, que já ameaça parar o país e acumula milhares de vítimas ao redor do mundo, há um outro vírus que espalha-serapidamente, feito praga bíblica, provocando o caos e gerando pânico. O nome? Fake news. A indústria da mentira e da boataria, criada com o tão escuso e putrefato intuíto de 'hackear' a opinião pública, ataca com todas as suas armas quando a sociedade vive situações dramáticas, desinformando e confundindo. Entre as numerosas mentiras disseminadas nas redes, espalhadas com a rapidez do rastilho de pólvora, estão receitas de remédios caseiros que aniquilariam a doença, informações falsas sobre a convulsão social provocada pelo vírus (na RMVale, por exemplo, a noite de segunda-feira foi marcada por mensagens alarmadas sobre uma rebelião em São José dos Campos, com a fuga de centenas de presos -- o motim não aconteceu) e até fantasias absurdas como, por exemplo, a China ter criado a pandemia propositalmente devido a interesses econômicos. O quadro agrava-se quando o país é governado por um presidente, conhecido pela propagação de fake news, que chegou ao cúmulo de classificar 'esse vírus aí' como uma 'fantasia' da grande mídia. Em 434 dias, Jair Bolsonaro (sem partido, sem responsabilidade sanitária, sem capacidade para ocupar a Presidência e sem projeto para a Nação) já acumula 712 declarações falsas ou distorcidas, segundo levantamento da agência de checagem 'Aos Fatos'. Em um país em que o presidente conta, em média, uma mentira a cada 14 horas, a verdade é torturada cruelmente nos porões mais baixos, sórdidos e sombrios da República todos os dias. Com ela está, obviamente, a liberdade. Não à toa, a ONU (Organização das Nações Unidas) já classificou as fake news como uma ameaça à democracia em todo o mundo. É uma guerra travada entre luz e sombra, conhecimento e confusão, fato e boato, ciência e preconceitos, verdade e mentira. Quando o planeta, em 2020, em pleno século 21, vê o crescimento de defensores das mais atrasadas teorias, como terraplanismo ou movimento antivacinas, fica perceptível o poder de persuasão dessa indústria da mentira. E se líderes globais irresponsáveis endossam fake news, vemos vidas em risco. Qual, por exemplo, é a responsabilidade de um presidente que deveria estar isolado, mas abraça manifestantes? Lamentável. A boa notícia é que existe uma vacina eficiente contra o vírus da mentira: é a verdade. Contra a indústria das fake news, o jornalismo é o único remédio..  
O diagnóstico é cristalino e o quadro clínico altamente preocupante. Os sintomas são claros: inaptidão para o cargo, falta de projetos para a condução do país e para a tão esperada retomada do crescimento, comportamento vulgar e irresponsável, desrespeito à Constituição Federal e desprezo ao sistema democrático, apreço irrestrito ao tão belicoso e caótico clima contínuo de combate político e de luta ensandecida pela fisiologia do poder, além de uma batalha pelo cerceamento e o aniquilamento do vital exercício da liberdade de expressão. Já não há dúvidas, infelizmente: o Brasil está sofrendo de 'Bolsonavírus'. E o atestado definitivo, nefasto e alarmante para o povo brasileiro, ficou evidente diante da postura, ou da falta de postura, do Palácio do Planalto diante da grave pandemia do coronavírus, que assola o planeta e exige que governos tomem medidas sérias, corajosas e inadiáveis. Jair Bolsonaro, diante desse quadro, já deixou claro: é um presidente de fantasia. Quando o país mais precisa de lideranças fortes, o Brasil é hoje uma nau à deriva, com um débil, errático e claudicante capitão no controle da embarcação. Desgoverno ao invés de governo. Além de subestimar a gravidade do problema, apelando novamente ao tsunami de fake news e classificando a doença inicialmente como fantasia, Bolsonaro persiste irresponsavelmente nos erros, levando o país a uma arriscada e temerária aventura por um revolto oceano de incertezas. Ao Congresso Nacional, o Poder Executivo ainda não apresentou um plano minimamente promissor para evitar o colapso econômico. Nem enviou reformas que, diz Bolsonaro, deveriam ser aprovadas. O despreparo é total. O presidente, que deveria estar em isolamento, em razão do risco de ter contraído o vírus durante a viagem aos EUA, deu (mais) um péssimo exemplo domingo, quando se uniu às antidemocráticas e inconstitucionais manifestações contra o Legislativo e o Judiciário. É um presidente incendiário. Esperar que Bolsonaro conduza o país nessa crise é como chamar Nero para combater o incêndio em Roma. Contra o Bolsonavírus, a democracia é único remédio.n
Fantasia. Com Mickey Mouse no papel de um atabalhoado aprendiz de feiticeiro, a animação Fantasia estreou no ano de 1940 e foi um sucesso mundial. Na história, a terceira a ser levada às telonas por Walt Disney, o ratinho mais famoso do mundo quer aprender seu ofício antes da hora, estando ainda despreparado. Para isso, Mickey rouba o chapéu mágico de seu mestre Yen-Sid e dá vida a várias vassouras para encher o caldeirão de água e cria algo que nem ele mesmo sabe como poderia controlar. Obviamente, tudo sai dos trilhos e começa então uma grande aventura. A história é um dos ícones da Disneylândia. Isso, o parque que entrou nas manchetes políticas e econômicas brasileiras em fevereiro deste ano, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, que está com cada vez menos combustível para manter-se como o 'Posto Ipiranga' do governo, disse que o dólar alto era bom, já que com o câmbio baixo 'empregadas domésticas estavam indo para a Disney, uma festa'. De lá para cá, a fantasia deu lugar à realidade. No início deste mês, ao lado do humorista Carioca, também fantasiado de presidente, Jair Bolsonaro (sem partido, sem projeto de país, sem conhecimentos básicos de economia, sem apreço pelos valores democráticos, pela verdade ou pela liturgia do cargo) esquivou-se se responder as perguntas da imprensa a respeito do 'Pibinho', da desaceleração no crescimento em 2019 -- o resultado foi 1,1%, menos da metade do que a sua equipe previa no início do mandato. Diante de um assunto tão caro ao brasileiro, a fantasia de uma piada sem graça. Nesta terça-feira, um dia depois da grave crise no mercado financeiro mundial, com a maior queda registrada na bolsa brasileira neste século, o dólar alcançando o maior valor nominal da história do Plano Real, Bolsonaro declarou que a crise é uma 'fantasia' e a responsabilidade, para variar, é da imprensa -- é mais fácil atacar o mensageiro do que admitir que o teor dessa mensagem é preocupante. A crise é só fantasia? Bolsonaro está em Miami, estado da Flórida, perto de Orlando, a cidade da Disney. Infelizmente, no caso brasileiro, estamos vendo em cartaz 'Fantasia, o aprendiz de presidente'. Despreparado, o presidente se refugia em uma ilha da fantasia e busca, com um nevoeiro de caos político e fake news, escamotear a gravidade do quadro e a sua total incapacidade de lidar com um problema complexo.Minimizar a situação só revela a imaturidade do governo desgovernado, que se alimenta de fantasiosas disputas ideológicas. É triste. O aprendiz de presidente é um pateta..