Literatura

Entre capas e entrelinhas (capítulo 2)

“Uma capa é feita para agredir, não para agradar”– era o lema de Eugênio Hirsch. O pensamento é seguido à risca nas experimentações de suas capas

Magno SilveiraPublicado em 10/10/2021 às 12:20Atualizado há 10/10/2021 às 12:22

Em uma matéria especial para o jornal O Estado de S.Paulo, 29 de setembro de 2001, o jornalista, biógrafo e escritor Ruy Castro presta homenagem ao artista gráfico Eugênio Hirsch, morto no dia 23 daquele mês. Inicialmente, Castro discorre sobre o livro Lolita, romance do escritor russo Vladimir Nabokov que provocara furor mundial ao ser lançado em 1955. Furor provocaria também no Brasil quatro anos depois, ao ser publicado pela Editora Civilização Brasileira (segundo Castro, Nabokov foi o inventor da palavra “ninfeta”).

A capa da edição brasileira de Lolita ficou a cargo de Eugênio Hirsch (1923-2001), artista austríaco que, após morar anos na Argentina, onde ilustrara alguns títulos infantis de Monteiro Lobato, migrou para o Brasil em 1955. Ruy Castro afirma que a capa de Lolita deu início à modernização das capas no Brasil. De minha parte, não creio ser esta uma afirmação fácil, pois consultando os livros Linha do tempo do design gráfico no Brasil (2011), organizado por Chico Homem de Melo e Elaine Ramos, e A capa do livro brasileiro (2017) de Ubiratan Machado é possível encontrar, aqui e ali, capas de envergadura moderna feitas bem antes de 1959. Na verdade, Eugênio Hirsch tem sua força e marco no conjunto da obra realizada para a Civilização Brasileira, onde implantou ousadia e inquietação inéditas nas capas brasileiras.

“Uma capa é feita para agredirnão para agradar”– era o lema de Eugênio Hirsch. O pensamento é seguido à risca nas suas verdadeiras experimentações. O artista não se preocupou com a legibilidade do nome do autor ou da obra. Preocupou-se mesmo foi com o impacto em sua totalidade, ainda que construída com a fragmentação dos elementos visuais. Apreendemos – e compreendemos – a capa de forma abrangente, total, de uma só vez. Letras, imagens, rabiscos, pinceladas, texturas, tudo constitui a leitura.

Capas de Eugênio Hirsch para a Editora Civilização Brasileira, a partir de 1959

Capas de Eugênio Hirsch para a Editora Civilização Brasileira, a partir de 1959

O trabalho de Hirsch na Editora Civilização Brasileira foi extenso e sua análise ampla não caberia nesta coluna de hoje. Chegou a ser o diretor de arte da editora e ganhou o Prêmio Jabuti de 1960 pelo conjunto da obra. Há ainda o seu trabalho como designer da coleção Museus do Mundo, cujas capas tornaram-se antológicas. Fica tudo para próxima vez, em coluna exclusiva do artista. Mas a obra extraordinária de Hirsch para os livros didáticos da Companhia Editora Nacional precisa ser abordada aqui. Nela, Hirsch não somente foi capista, mas também designer de todo o conteúdo. Lembro-me muito bem de, quando adolescente, ter convivido e admirado suas ilustrações nesses livros didáticos que circulavam na minha casa (naqueles meados de 1960, eu não tinha a menor ideia de quem era Hirsch). O artista trouxe uma lufada de vento novo aos livros didáticos com suas imagens elegantemente estilizadas. Construía sensações de transparência com um exímio uso de cores em áreas bem delineadas. Beirava a abstração às vezes. A imagem do bandeirante fixou-se na minha memória como um ícone de estilização, assim como as caravelas com a cruz de malta ao vento. Hoje revejo essas obras com um olhar totalmente novo, mas ainda marcado pela primeira impressão juvenil.

Trabalhos de Eugênio Hirsch para coleção didática da Companhia Editora Nacional, 1961

Seguindo a trilha dos livros didáticos e guardando Hirsch para retomá-lo em outra ocasião: por muitos anos os livros da Companhia Editora Nacional dominaram as escolas. Mas nos anos 1970, foi a Editora Ática quem nos abasteceu de livros didáticos e paradidáticos. Era meu tempo de colegial, quando conheci o trabalho de Eugenio Colonnese, o principal capista da Ática naqueles anos (mais tarde ele se tornou diretor de arte da editora).

Estávamos nos anos de governo militar, de milagre econômico, de Transamazônica, de ufanismo. E é o que retrata a capa de Geografia ativa, onde Colonnesse nos coloca sobrevoando os tratores que rasgam a floresta amazônica e abrem a grande estrada. O tom oficialesco do discurso fica evidente no “veículo” de passeio dos meninos – o Palácio Itamaraty. Um de nós aponta para frente, para o futuro que se vislumbra além-capa.

Eugenio Colonnese ilustrou também as capas da “Série Bom Livro” também da Ática, adotada pelas escolas como leitura complementar. Percebo agora algo interessante nessas capas dos anos 1970: os títulos foram escritos em letras minúsculas, uma premonição do que seria comum décadas mais tarde, o nosso tempo internético. Mas as capas da Ática eram desinteressantes para mim, acho porque muito oficiais e sem surpresas. Além do mais, nunca gostei dos rostos femininos traçados por Colonnese – intrigavam-me os olhos muito distanciados uns dos outros e as bocas sempre iguais. Considero que as capas da Ática desse período representam um retrocesso, se considerarmos os avanços da Companhia Editora Nacional em sua fase Hirsch.

Capas de Eugênio Colonnese para a editora Ática nos anos 1970

Em meados dos anos 1970, porém, reuniram-se nas dependências da Editora Ática quatro titãs da literatura: Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Eles acertavam detalhes do primeiro volume de uma coleção que viria a ser o grande sucesso da Ática, a coleção Para gostar de ler.

De fato, Para gostar de ler dialogava diretamente com o leitor jovem por meio de uma seleta de crônicas dos maiores autores nacionais. O editor da coleção, Jiro Takahashi, a definiu como “uma loucura saudável” para a juventude dos anos 1970. Essa “loucura saudável” explica o estilo pop das capas trazendo instantâneos das crônicas. A equipe de designers responsável pelo projeto era de peso – contou com nomes como o capista Mário Cafiero, os artistas Ary Normanha e Antônio do Amaral. Os livros de Para gostar de ler cumpriram perfeitamente o objetivo de arregimentar novos leitores com o sabor ligeiro de crônicas bem escritas. Suas capas ainda hoje cativam leitores e destacam-se na linha do tempo da Editora Ática.

A coleção Para gostar de ler foi um marco editorial, suas capas cativaram o público, em especial os jovens dos anos 1970

Como se vê, mergulhar no universo dos livros é deparar-se a todo momento com encruzilhadas e possibilidades de trilhas. Comecei com as capas de Eugênio Hirsch, mas não foi possível contornar os livros didáticos e paradidáticos, um universo todo próprio, capaz de ter suas próprias órbitas.

Seguindo a estrada principal das capas, na próxima coluna chegarei aos anos 2000 com a materialidade na obra de Moema Cavalcanti; com o processo criativo de Raquel Matsushita, uma das maiores designers de livros da atualidade e com uma capa extraordinária de Gustavo Piqueira, que selecionei para o Prêmio Jabuti 2020. Até o próximo domingo!

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