Editorial

Vírus fatal e teimoso

Publicado em 18/09/2021 às 07:32Atualizado há 18/09/2021 às 07:32

A trapalhada do Ministério da Saúde com relação à vacinação de adolescentes sem comorbidades contra a Covid-19 mostra que, embora o presidente Jair Bolsonaro esteja empenhado em manter uma trégua entre os poderes, o bolsonarismo é uma ameaça cotidiana ao país.

É inadmissível que, após o presidente compartilhar com ele um "sentimento", o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tenha orientado a interrupção da aplicação de doses em pessoas de 12 a 17 anos sem comorbidades. E por que isso é inadmissível? Porque uma decisão dessa magnitude, que impacta na saúde de milhões de brasileiros, foi tomada sem base técnica e sem discussão com especialistas.

A própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou que não havia nenhuma razão para a tomada dessa medida. A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo concluiu que a morte de uma adolescente de 16 anos, que havia sido citada por Queiroga, não decorreu da vacina, e sim de uma doença autoimune. Médicos explicaram que os riscos da falta de imunização para os jovens são maiores do que os possíveis efeitos adversos. A câmara técnica do Plano Nacional de Imunizações, que é formada por especialistas, professores, representantes de sociedades de classe e conselhos de secretários estaduais e municipais de Saúde, ameaça uma renúncia coletiva caso o ministério não recue.

Mesmo que a pasta recue, o estrago já está feito, em mais um episódio irresponsável do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia. Foi assim na defesa de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a doença, como a cloroquina. Foi assim no estímulo às aglomerações e ao não uso das máscaras de proteção. Foi assim ao negligenciar a corrida por vacinas. Foi assim ao ironizar o perigo desse vírus mortal. Mesmo agora, passado um ano e meio da pandemia, e depois de quase 600 mil mortes, milhões de brasileiros ainda acreditam nessas baboseiras. Será diferente com relação à vacinação de adolescentes? Provavelmente não, infelizmente.

O Bolsonaro inimigo da democracia saiu de cena temporariamente, para tentar preservar seu mandato, mas o Bolsonaro inimigo da vida continua a circular, como um vírus teimoso e persistente. Nessa caso, a vacina é o voto.

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