Editorial

Enem, qual é sua cara?

20/11/2021 às 23:48.
Atualizado em 20/11/2021 às 23:48

Na mitologia grega, Midas é um personagem que recebeu de Baco, o deus do vinho, o dom do toque de ouro. Absolutamente tudo em que ele encostava passava a ser feito do metal precioso. Na narrativa, o que era para ser um poder valioso se mostrou uma maldição. Mesmo assim, na vida real, o termo 'toque de Midas' é usado para se referir a alguém que tem a capacidade de fazer algo prosperar.

O 'mito' brasileiro é diferente. Desde janeiro de 2019, o país sofre com o que podemos chamar de 'toque de Messias'. Tudo em que Jair Messias Bolsonaro toca, desanda. Uma verdadeira maldição.

Em menos de três anos, o presidente da República já promoveu uma série de desmontes - na política ambiental, na pesquisa científica, nos órgãos de combate à corrupção, na cultura, no combate à fome, na saúde pública (vide a atuação irresponsável no enfrentamento da pandemia), entre outros tristes exemplos.

A mais nova vítima do 'toque de Messias' é o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Os ataques de Bolsonaro à prova são antigos, mas a interferência direta do presidente da República no exame veio à tona em meio à crise dos 37 pedidos de exoneração de servidores do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), em meio a denúncias de interferência em conteúdo. Os relatos apontam que, apenas esse ano, 24 questões teriam sido retiradas da primeira versão da prova. Além disso, teria havido um pedido para que o golpe militar de 1964 fosse tratado como uma revolução. Não coincidentemente, desde 2019, quando começou o governo Bolsonaro, nenhuma questão sobre a ditadura caiu no Enem.

Questionado sobre a crise no Inep, Bolsonaro nem disfarçou. Disse que o Enem estava começando "a ter a cara do governo", sem "aquelas questões absurdas do passado". E que a prova não media conhecimento e ainda era utilizada para "ativismo político e ativismo comportamental".

Sob ataque do presidente, o maior vestibular do Brasil terá em 2021 o menor número de candidatos dos últimos 17 anos. É o que acontece com tudo em que Bolsonaro toca. Ele não tem qualquer competência para interferir no Enem. E nem para comandar o país. O 'mito é uma questão de múltipla escolha, sem nenhuma alternativa correta.

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