Magno Silveira

Eco, morcegos e proporções

Magno Silveira é designer e fundador do Magno Studio, escritório de designPublicado em 12/09/2021 às 01:02Atualizado há 12/09/2021 às 01:02
O sistema de ecolocalização dos morcegos e a ninfa Eco. Na mitologia greco-romana, Eco é a ninfa das montanhas, cuja voz permanece viva por toda parte

O sistema de ecolocalização dos morcegos e a ninfa Eco. Na mitologia greco-romana, Eco é a ninfa das montanhas, cuja voz permanece viva por toda parte

Na coluna anterior, falei sobre naming, o processo de criar nome de marca. Finalizei demonstrando a criação do nome BRADAR, que projetei para a Embraer Defesa, divisão de radares. Hoje mostro como a criação da marca gráfica (alguns denominam “logomarca”) encontra seus alicerces estruturados desde o naming. Por isto mesmo, projetar a marca do nome à identidade visual é um valioso trunfo para o sucesso do negócio, pois o resultado final é de grande coesão.

 Recapitulando sobre o nome Bradar: ele vem da aglutinação das palavras Brasil e radar, além de remeter à emissão de um grito forte e enérgico. Pois bem, seguindo essas pistas iniciais, comecei minha pesquisa pela melhor forma, pelo melhor signo. O princípio dos radares é como o sistema de ecolocalização encontrado em algumas espécies de animais como os morcegos, por exemplo. O morcego emite uma onda sonora (por vezes inaudíveis pelo ser humano) que rebate num objeto e produz um eco de retorno. Com isto ele consegue informações precisas sobre a distância e até mesmo o tamanho do objeto. Emissão, recepção, detecção. As três palavras que me orientaram em todo o projeto da marca gráfica.

O sistema de ecolocalização dos morcegos e a ninfa Eco. Na mitologia greco-romana, Eco é a ninfa das montanhas, cuja voz permanece viva por toda parte

Depois de trabalhar livremente em inúmeros esboços, a manifestação da forma foi afunilando para uma solução que exigia estruturação formal e geométrica perfeitas. No período em que estava desenvolvendo esse projeto, me relacionava bastante com o mestre do design Alexandre Wollner, falecido em 2018. Às vezes o visitava em seu escritório no Butantan, às vezes conversávamos pelo Skype, mas não me lembro de ter lhe solicitado algum parecer sobre qualquer marca que eu estivesse desenvolvendo, mesmo porque Wollner só emitia opinião quando bem lhe aprouvesse. Para surpresa minha, em determinada etapa do projeto, uma frase de Wollner, que a princípio ouvi como quem ouve o enigma da esfinge, revelou-se importantíssima para que eu lapidasse o acabamento da marca Bradar. Mais à frente volto ao enigma.

Cada ângulo interno do triângulo equilátero equivale a 60 graus, somam 180 graus. Já os ângulos externos medem, cada, 120 graus, somam 360 graus. É belo notar a relação íntima entre o triângulo e o círculo

A figura geométrica que julguei perfeita para estruturar o símbolo foi o triângulo. Triângulo equilátero. Através dele pude emitir e receber sinais em 360 graus. Mas perceber e determinar o triângulo equilátero como estrutura era apenas o início do processo da manifestação da forma, que se mostrou um longo caminho até a chegada final.

Cada ângulo interno do triângulo equilátero equivale a 60 graus, somam 180 graus. Já os ângulos externos medem, cada, 120 graus, somam 360 graus. É belo notar a relação íntima entre o triângulo e o círculo

Com o uso do triângulo pretendi atingir outros níveis de interpretação além da pura geometria: busquei conexões com a bandeira do Brasil e também – um passo a mais é sempre bom – incluir sutilmente a letra B, de Bradar. Mais rabiscos, agora com outras pretensões, são demonstrados na imagem abaixo.

Nesta etapa da criação, os esboços já começavam a indicar o caminho final do símbolo.

 Após estes esboços, fiz um grande desenho estudando a relação do triângulo principal com outros menores. Buscava a proporção harmônica e no computador fiz um desenho muito próximo da marca final. Porém algo nele incomodava (passei dias o observando). E era justamente a proporção, conforme eu viria a saber através do enigma dito por Wollner. Ao ver o desenho “acabado”, perfeitamente inserido numa grade (grid) de construção, o mestre olhou por não mais que alguns segundos e sentenciou: “está indo muito bem, mas lembre-se que o nariz tem dois terços da testa. Tchau!”. Senti um misto de desamparo e alumbramento. Sim senhor, hein! Refleti bastante e concluí que a única forma de desvendar o enigma seria rever as proporções renascentistas e áureas. Primeiro consultei os desenhos de Albrecht Durer (Wollner seguia a escola alemã), mas encontrei a resposta foi nos desenhos de Leonardo da Vinci. Entendi imediatamente a relação visual que Wollner fizera ao ver a marca: rosto, testa e nariz, foi o que ele vira. De volta à prancheta, encontrei a proporção ideal.

Estudo sobre a proporção que Wollner citara em forma de enigma

O resultado surpreendeu-me à vera: havia agora harmonia no símbolo! Até mesmo a “bandeira do Brasil” tremulou melhor ao vento, sinuosidade construída puramente com triângulos e a perfeita proporção entre eles. Novamente pelo Skype, mostrei o resultado ao mestre: “– bom trabalho”,  disse apenas. Deixou-me uma lição envolta em pura felicidade. Serei sempre grato por ela, uma dentre as muitas que aprendi em nossas conversas. Salve, Wollner!

Desenho de Leonardo da Vinci com as proporções da cabeça. Conforme disse o mestre Wollner, “o nariz tem 2/3 da testa”

Seja pela exigência formal, seja pela lembrança que me traz de Wollner, guardo a marca Bradar entre as mais belas que já projetei. Além da criatividade, o designer tem que solucionar desafios técnicos sobre os quais poderei escrever futuramente. Tenho consciência de que a marca Bradar desempenha bem o seu papel.

Objetivo alcançado: emissão e recepção de sinais, a inicial B e uma ligeira citação à bandeira do Brasil

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