Marcos Meirelles

E lá se foi mais um Dom Quixote

Marcos Meirelles, jornalista
13/01/2022 às 16:29.
Atualizado em 22/01/2022 às 01:33

Gilvan Procópio Ribeiro foi o meu Dom Quixote. Meu e de tantos outros alunos dos cursos de Letras e de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Hoje, em vez de falar aqui da política nefasta dos tempos atuais, de gente desmiolada e ignorante, homenageio o meu mais querido e admirado professor.

Gilvan respeitava, como nenhum outro, a impaciência de seus alunos. Culto, sem ser pedante, amigo, sem ser indulgente, despojado, sem ser informal.

Aprendi com ele muito mais sobre literatura do que em toda a minha vida, antes e depois daqueles anos dourados na Universidade Federal de Juiz de Fora. Mas aprendi também que vale a pena sonhar com um destino melhor para o nosso mundo.

Sonhar, acima de tudo. Gilvan foi o militante das palavras, da poesia, da música. Apaixonado por Murilo Mendes, conciliava o transcendentalismo do poeta juiz-forano com a aspereza de Maiakovski. Versado nos clássicos e admirador de Rimbaud, me fez conhecer Ginsberg e a perceber as nuances geniais do tropicalismo de Gil e Caetano.

Um dia, decidimos, eu, ele e mais um grupo de colegas, montar uma oficina literária. Mais uma das centenas que ele certamente liderou. Noites efêmeras em que o poeta batia palmas para aprendizes com pouca ou nenhuma inspiração. Mas era o nosso quinhão semanal de felicidade.

Junto com outras “feras” da UFJF, estive com ele também no meu primeiro emprego, ele como dirigente da Associação dos Professores da Universidade Federal de Juiz de Fora, eu como estagiário e, depois, como assessor de imprensa. 

Eu não via o Gilvan havia décadas. De uns tempos pra cá, depois que montamos um grupo de WhatsApp com antigos colegas de faculdade, comecei a arquitetar um encontro virtual. Pesquisei perfis ali e acolá, busquei contatos e nada. Pudera! Que tolice imaginar o Gilvan com um perfil no Facebook ou com uma conta no Twitter...

O Dom Quixote de Rio Novo partiu sem que eu o revisse. Ele se foi, mas sua crença na possibilidade de beleza do que é humano seguirá comigo.

Semeador do caos

Em três anos de desgoverno, os brasileiros, quase todos, se tornaram permissivos ao vírus que se instalou no Palácio do Planalto. Aceitamos de tudo, de ataques diários às instituições aos delírios do “poço Ipiranga”.

Destruição

Foram três anos de desmantelamento de políticas públicas na educação, no emprego, no meio ambiente, na saúde, nas relações externas. Três anos também de abandono absoluto da infraestrutura.

Sem limite

Pagamos a conta de luz mais cara em décadas, convivemos com estradas novamente esburacadas, assistimos ao preço dos combustíveis subir 80% em um ano. Mas aceitamos de tudo, porque o capitão vírus tudo pode.

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