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Caso Marco Aurélio: ‘tenho certeza de que ele saiu de lá vivo’, diz delegada da época

Sandra Vergal, que investigou o caso de 1986 a 1988, chegou a ouvir um motorista de ônibus, que disse ter dado carona a Marco Aurélio dias após o sumiço; investigação paralela, feita por amigos da família e voluntários, também reuniu relatos de pessoas que afirmam ter visto o escoteiro

Julio CodazziPublicado em 21/07/2021 às 01:24Atualizado há 27/07/2021 às 01:13
Caso Marco Aurélio. Bifurcação no Pico dos Marins, onde escoteiro foi visto pela última vez (Claudio Iatauro/Arquivo Pessoal)

Caso Marco Aurélio. Bifurcação no Pico dos Marins, onde escoteiro foi visto pela última vez (Claudio Iatauro/Arquivo Pessoal)

“Eu tenho certeza de que ele saiu de lá vivo”.

A afirmação acima foi feita à reportagem nessa terça-feira (20) pela delegada Sandra Vergal, que foi responsável pelo inquérito do Caso Marco Aurélio no fim da década de 1980.

Quando o escoteiro Marco Aurélio Simon, que tinha 15 anos, sumiu no Pico dos Marins em 1985, o delegado de Piquete era Izidro Ferraz (já falecido). Sandra assumiu a delegacia em 1986 e ficou até 1988 – atualmente, é a delegada seccional de Cruzeiro.

Foi sob o comando de Ferraz que foram realizadas buscas na montanha, que se estenderam por 28 dias e não localizaram nenhuma pista do paradeiro do jovem.

Enquanto esteve à frente do caso, Sandra chegou a promover duas reconstituições com os outros escoteiros que faziam parte do grupo que tentou subir ao cume da montanha no dia 8 de junho de 1985. “Nas duas vezes, nossa conclusão foi de que os relatos deles eram verídicos”.

MOTORISTA.

No tempo em que conduziu o inquérito, Sandra investigou diversos relatos de pessoas que afirmavam ter visto o escoteiro em outras cidades ou até em outros estados. “Tudo que chegava para a gente, a gente investigava, checava”.

Nessa fase, o depoimento mais marcante foi colhido no dia 3 de abril de 1986, na delegacia de Pindamonhangaba. O depoente era um motorista de ônibus, que trabalhava na linha Campos do Jordão/Pinda.

José Benedito Batista, à época com 39 anos, disse que aproximadamente quatro dias após o sumiço do escoteiro, um garoto embarcou no ônibus em Campos, no último horário, dizendo que precisava ir até Pinda, mas que não tinha dinheiro, pois seus amigos já haviam ido embora e ele havia ficado sozinho.

Segundo o relato, a passagem foi paga pelo próprio motorista, que notou que o garoto, que vestia calça jeans e uma blusa de malha, era estrábico e tinha uma cicatriz nos lábios (assim como Marco Aurélio). O menino teria descido no trevo do bairro Piracuama, já em Pinda, dizendo que precisava pegar outro ônibus – Batista não se recordava se o jovem havia dito que seguia para Santo André ou Santo Amaro (bairro na capital paulista, cidade onde vivia o escoteiro).

O motorista ainda afirmou no depoimento que apenas cinco dias depois disso é que ficou sabendo do sumiço do escoteiro. E que, ao olhar um cartaz com a foto do garoto, achou parecido com o jovem que havia transportado.

Por estratégia de Sandra, Marco Antônio Simon, que é irmão gêmeo univitelino de Marco Aurélio, e portanto idêntico ao escoteiro desaparecido, entrou na sala durante o depoimento. Nesse momento, o motorista disse que ele era o garoto do ônibus. “O motorista virou e falou que foi para ele [Marco Antônio] que havia dado carona. Me pareceu bastante verossímil, e a minha convicção foi de que ele realmente transportou o Marco Aurélio”, disse a delegada, que lamentou que não tenha sido possível aprofundar as investigações nesse ponto. “Não deu para ir muito além, [o depoimento] foi 10 meses depois [do sumiço]”.

O pai do escoteiro, Ivo Simon, também estava presente. Ele acreditou no depoimento do motorista, mas fez uma ressalva. “Achei que era verdade, sim. O motorista foi muito convincente. Mas, como já tinha se passado 10 meses, com a foto [do Marco Aurélio] sendo exposta [continuamente na imprensa], a pessoa pode ficar sugestionada a acreditar que era ele”.

INVESTIGAÇÃO PARALELA.

Sandra Vergal não acredita na hipótese de que o escoteiro tenha sido morto e enterrado na propriedade que fica na base dos Marins, onde o grupo acampava – após relatos de uma das filhas do antigo proprietário do imóvel, essa possibilidade será investigada agora, com a reabertura do inquérito.

Quem também não acredita que o escoteiro tenha sido morto é um grupo de voluntários e de amigos da família, que há seis anos faz uma espécie de investigação paralela do caso.

Um dos pontos que levam esse grupo a acreditar que jovem conseguiu descer sozinho a montanha é que, ao chegarem ao acampamento, os demais escoteiros encontraram apenas uma mochila aberta e fora da barraca – justamente a de Marco Aurélio.

CAMPOS DO JORDÃO, DE NOVO.

Em junho de 2020, o grupo da investigação paralela, que reúne pessoas como advogados e ex-policiais, chegou ao que entende ser mais uma peça desse quebra-cabeça. E, novamente, ela foi encontrada em Campos do Jordão.

O fato relatado ao grupo teria ocorrido no dia 9 de junho de 1985, um domingo, um dia após o sumiço de Marco Aurélio.

Nessa data, o então presidente dos escoteiros de Campos, Waldomiro Marteletto, teria sido chamado por uma vizinha da sede do grupo, que percebeu que um menino estava em frente ao prédio, sozinho e debilitado. “No dia seguinte, o Waldomiro me disse que um menino, que estava com uniforme de escoteiro, havia dormido na sede. Falou que havia dito que estava com muito frio, que havia se perdido dos amigos e que queria ir para o Sul de Minas, mas não tinha mais horário de ônibus no domingo”, relatou à reportagem o arquiteto Mitsuo Okido, que à época era chefe de tropa dos escoteiros de Campos. “Ele [Waldomiro] me disse que deu comida, deixou o escoteiro dormindo na sede e foi embora para casa. Na manhã do dia seguinte, quando foi levar café e tentar entender a história, o menino havia sumido e deixado um bilhete, agradecendo a hospedagem e dizendo que precisava pegar um ônibus cedo para Minas”, afirmou Okido. “Ele [Waldomiro] me mostrou esse bilhete. Eu vi rapidamente, mas não dei muita atenção. Era uma letra corrida, nem era muito legível. E estava assinado como Marco”, completou o então chefe de tropa.

Okido disse ainda que, na segunda-feira, 10 de junho, quando teve essa primeira conversa com Waldomiro, nenhum dos dois sabia sobre o sumiço de Marco Aurélio. “No outro dia, começou a sair notícia no jornal e ele [Waldomiro] reconheceu o escoteiro. Ele me disse: ‘era esse rapaz que estava aqui, eu tenho certeza’. Daí, nós relatamos o ocorrido para o comissário distrital [o coordenador regional dos escoteiros], mas acho que, como ainda tinha uma movimentação muito grande no trabalho de buscas nos Marins, ninguém levou adiante e foi tratado como especulação”, disse Okido à reportagem nessa terça-feira (20).

Segundo Okido, Waldomiro morreu dois anos depois. Após a morte, o então chefe de tropa chegou a procurar a família do ex-presidente dos escoteiros, mas não conseguiu mais localizar o bilhete. “O Waldomiro morreu, e o bilhete morreu com ele. Ninguém sabe onde está”, lamentou.

PROCURA.

Embora o bilhete nunca tenha sido localizado, o relato é considerado importante pelo grupo de amigos da família e por parentes do escoteiro, que dizem que Marco Aurélio tinha realmente uma caligrafia ruim – o “garrancho”, como classificam, era atribuído à fraqueza muscular do menino, que nasceu prematuro, após seis meses de gestação.

Outra arma do grupo que faz a investigação paralela é Marco Antônio, o irmão gêmeo. Com base em fotos atuais dele, foram feitas simulações de como Marco Aurélio poderia estar hoje, caso esteja vivo. O grupo apura, atualmente, declarações de que uma pessoa semelhante, que seria um morador de rua, teria sido vista em Taubaté.

Todo o material da investigação paralela será entregue à Polícia Civil, que também irá apurar, nessa retomada do caso, a hipótese de que Marco Aurélio esteja vivo.

Encontrar o filho com vida é a esperança de Ivo Simon. Mesmo católico, o pai do escoteiro se lembra que, em 1986, chegou a procurar o médium Chico Xavier em busca de uma resposta espiritual sobre o paradeiro de Marco Aurélio. “O Chico falou que sabia do caso, mas que não havia conseguido se comunicar com ele, e que só se comunicava com entes desencarnados. Quando ele falou isso, nós concluímos que ele estava vivo, mas o Chico disse que não era possível saber isso. Mas por que vou acreditar que ele está morto? Nunca acharam nenhum fio de cabelo dele”.

À esquerda, foto atual do irmão gêmeo do escoteiro, Marco Antônio. À direita, projeção de como Marco Aurélio pode estar hoje, caso esteja vivo

À esquerda, foto atual do irmão gêmeo do escoteiro, Marco Antônio. À direita, projeção de como Marco Aurélio pode estar hoje, caso esteja vivo (Reprodução)
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