Brasil

MP investiga novo comando de facção paulista

Agência O GloboPublicado em 27/06/2021 às 09:04Atualizado há 24/07/2021 às 01:06
Expansão. Originário do Vale, grupo atua em mais de 20 estados (Divulgação)

Expansão. Originário do Vale, grupo atua em mais de 20 estados (Divulgação)

Há pouco mais de dois anos, quando o chefe da organização criminosa paulista ligada ao narcotráfico foi transferido para um presídio federal, um vácuo provisório de poder se instalou na facção. Na penitenciária de segurança máxima em Brasília, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, teve sua rede de comparsas que o conectava com o mundo externo abalada. Na ausência dele, um antigo conhecido da polícia ocupou a posição de principal liderança da facção na rua.

No submundo do crime, Marcos Roberto de Almeida atende pelos codinomes Tuta, Angola, Africano, Marquinhos, Ta? bem, Boy e Gringo. Pelo Ministério Público de São Paulo, foi alçado como o número 1 do Primeiro Comando da Capital na rua. Aos 51 anos, Tuta já foi condenado por crimes diversos, mas havia sete anos que estava em liberdade, circulando livremente enquanto praticava novas contravenções. Em setembro passado, com uma ordem de prisão expedida contra ele, passou a ser foragido da Justiça.  

Embora delegados da Polícia Federal ouvidos pelo GLOBO minimizem sua relevância, para o Ministério Público de São Paulo é Tuta quem atualmente toma as decisões estratégicas da organização criminosa - desde controlar o fluxo de caixa até levantar informações de autoridades e policiais alvos de possíveis atentados da facção. A decisão de colocá-lo como o novo líder da organização criminosa foi tomada por toda a cúpula, sem divergência, e com aval de Marcola, líder desde 2002.  

De lá para cá, Tuta vem ganhando terreno na liderança. Para o promotor Lincoln Gakiya, que está há 13 anos à frente do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público em Presidente Prudente, região que concentra o maior número de prisões do país, Tuta se tornou uma espécie de CEO (Chief Executive Officer, da sigla em inglês) da facção, ou diretor executivo. Seguindo a mesma analogia empresarial, Marcola seria o presidente do conselho de administração, o mais alto representante do grupo, mas que pouco arbitra sobre o dia a dia da companhia.    

— O Tuta é um cara que tem a confiança dos líderes, e é respeitado dentro e fora do sistema penitenciário. Hoje é ele quem resolve tudo: se a facção vai vender para a máfia calabresa, se vai comprar de determinado fornecedor... Ele é quem cuida dos negócios — afirma Gakiya.  Plano de fuga

O promotor revela que o mais recente plano de resgate de Marcola, em dezembro de 2019, ficou sob responsabilidade de Tuta. A facção já teria mapeado os arredores da penitenciária de Brasília com drones e arregimentado integrantes com conhecimentos militares. A intenção era libertar Marcola enquanto ele se deslocava para consultas e exames médicos. Para conter o plano, militares do Exército Brasileiro reforçaram a segurança do presídio. Na ocasião, foi divulgado que o mentor do resgate era o traficante internacional Gilberto Aparecido dos Santos, conhecido como Fuminho. Apesar de nunca ter sido batizado pela facção e tampouco ter uma função na hierarquia, Fuminho é tido pela polícia como uma espécie de gerente de Marcola. 

Tuta é um antigo conhecido das autoridades. Em 2006, quando já atuava na organização criminosa, foi preso em Guarulhos. Estavam com ele duas mulheres com documentos falsos. No momento da abordagem, Tuta ofereceu R$ 50 mil aos policiais das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) para que os agentes não efetuassem a prisão. Numa interceptação telefônica do MP feita em 2013, Tuta conversa com outro investigado sobre o pagamento de propina a PMs em Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo.  

De acordo com a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) de São Paulo, Tuta é egresso do Centro de Progressão Penitenciária de São José do Rio Preto desde setembro de 2014. Ele cumpria pena de 23 anos, 7 meses e 28 dias pelas práticas dos crimes de latrocínio, roubo qualificado, ameaça, cárcere privado, uso de documento falso, falsificação de documento público, corrupção ativa e dano qualificado. Saiu pela porta da frente, por progressão de pena ao regime aberto.

Segundo Gakiya, Tuta e Marcola se conheceram no raio 1 da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde cumpriram pena juntos. Foi ali que o sucessor ganhou a confiança do líder. Tuta alcançou mais relevância na organização depois que Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, foram assassinados no Ceará. Gegê havia se tornado o número 1 da facção na rua depois que deixou a prisão. Sob sua gestão, o bando consolidou o tráfico internacional de cocaína. Com a morte de Gegê, Tuta se tornou um nome forte, em especial porque estava em liberdade. Para a facção, ter alguém que não é procurado pela Justiça é um grande ativo. 

Em maio de 2019, uma operação do MP batizada de Jiboia teve Tuta como principal alvo. Segundo investigações, Tuta pertencia à chamada célula "restrita" e era responsável por rastrear autoridades e policiais. A facção planejava matar três capitães da PM, um promotor e um parlamentar. Num dos endereços de Tuta, num bairro nobre da capital paulista, a polícia encontrou um Porsche branco. Em outro local, apreendeu celulares, um notebook, R$ 182 mil em espécie e um cartão de um consulado africano. Na ocasião, não havia mandado de prisão contra Tuta, apenas de busca e apreensão.  

Em setembro do ano passado, a operação Sharks, também do MP, tentou prender Tuta - sem sucesso. Ele se encontrava em São Paulo, mas a polícia não o localizou. O promotor Gakiya diz acreditar que ele está escondido entre a Bolívia e o continente africano. Segundo a denúncia, Tuta ocupa a função de "sintonia final" da rua. Sob sua gestão, o dinheiro do tráfico de drogas é recolhido das biqueiras da Grande São Paulo, da Baixada Santista e do interior a cada três dias. Em seguida, é enviado a hotéis de luxo ou apartamentos alugados pela facção e guardado em cofres construídos para esse fim. Então é entregue a doleiros de confiança e enviado ao Paraguai. Em um ano e três meses, de acordo com o documento, a facção paulista mandou R$ 1,2 bilhão para o país vizinho, referentes apenas ao tráfico de drogas interno.   Adido de Moçambique

Segundo as investigações, em meados de 2018 Tuta foi admitido pelo consulado de Moçambique em Belo Horizonte com o cargo de adido comercial. Gakiya afirma que Tuta esteve no país africano na companhia do então cônsul honorário em BH, Deusdete Januário Gonçalves. Ao GLOBO, Gonçalves nega a viagem. Diz que Tuta foi contratado a pedido da Embaixada de Moçambique, em Brasília, "para buscar empresas e fomentar relações comerciais" com o país africano, e que nunca teve contato direto com ele. De acordo com Gonçalves, Tuta tinha a atribuição de enviar para a Embaixada e para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique, a cada três meses, um relatório detalhando suas atividades. Não recebia salário, apenas uma comissão de 10% pelos negócios intermediados.  

— Ele nunca fez uma missão sequer para o país. Quando descobri que não estava prestando relatório nem nada, mandei ele embora. A partir daí, fui perseguido pelos embaixadores, soube da minha demissão pela imprensa — diz Gonçalves.   

Em nota, a Embaixada de Moçambique informa que o país nunca possuiu um Consulado Honorário em Belo Horizonte e, por isso, não teve Tuta como funcionário. Ressaltou ainda que, embora não tivesse a sede física do consulado, nomeou Gonçalves para a função de cônsul honorário. Em julho de 2020, ele foi destituído do posto.

Gakiya explica que os países africanos são estratégicos para a facção pela logística de distribuição da droga que sai dos países andinos, passa pelo Brasil e atravessa o Atlântico. É mais vantajoso desembarcar os ilícitos na África do que em portos mais visados, como os da Bélgica, Holanda e Itália. Do continente africano, a droga seria enviada para os asiático e europeu, sem depender da intermediação das máfias europeias, que cobram 40% do valor da mercadoria pelo serviço. A intenção da facção seria abrir uma rota própria via África.  

Para Gakiya, alguns acontecimentos recentes levam a crer que Tuta pode não ser tão submisso quanto o desejado pela cúpula. Em especial diante da fragilidade atual de Marcola. Há relatos de que ele, há dois anos e quatro meses preso sozinho numa cela e sem contato físico com a família, está psicologicamente abalado e obcecado pelo resgate.  

— Marcola ainda é o grande elo de ligação  do mundo interno com o externo. Os que não têm admiração por ele têm medo. Mas acho que a tendência é ter uma disputa interna. Isso acontece em todas as organizações criminosas do mundo. Quem está embaixo quer ascender — afirma Gakiya.

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