Polêmica

'Apego aos bandeirantes tem fator xenófobo', diz historiadora sobre estátua de Borba Gato

Agência PúblicaPublicado em 30/07/2021 às 00:21Atualizado há 30/07/2021 às 00:21
Estátua de Borba Gato incendiada em São Paulo

Estátua de Borba Gato incendiada em São Paulo

Uma ação em uma estátua na capital paulista levou à detenção de três pessoas nesta quarta-feira (28). O entregador Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Galo, sua esposa Géssica Barbosa e o ativista Danilo Oliveira, o Biu, tiveram prisão preventiva decretada após comparecerem à delegacia para colaborar com as investigações que apuram a queima do busto de Manuel de Borba Gato no dia 25 de julho, no bairro Santo Amaro. Eles foram indiciados por associação criminosa, incêndio e adulteração de placa de veículo.

Esta não é a primeira vez que o monumento em homenagem à figura do bandeirante é alvo de intervenções de ativistas, que denunciam a participação de Borba Gato no processo de genocídio de povos indígenas e de crimes como estupros. Para a historiadora Deborah Neves, doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas, as sucessivas ações revelam um sentimento de descontentamento e de incômodo que os governos têm sido falhos em lidar.  

“Nenhuma dessas intervenções foram suficientes para trazer o debate para esse patamar que estamos trazendo agora”, afirma a historiadora. “Vamos continuar permitindo essa interrupção do debate enquanto a gente trata isso como um dano ao patrimônio e não como em um momento de se pensar a quem a nossa sociedade continua prestando homenagens”, analisa.

Desta vez, o grupo Revolução Periférica, do qual Galo é membro, assumiu a autoria do ato político. Antes de sua prisão no 11º Distrito Policial de Santo Amaro, ele afirmou que o objetivo da ação era abrir a discussão. “Para aqueles que dizem que a gente precisa ir por meios democráticos, o objetivo do ato foi abrir o debate. Agora, as pessoas decidem se elas querem uma estátua de 13 metros de altura de um genocida e abusador de mulheres”, disse o ativista. 

Autora do livro “A persistência do passado: patrimônio e memoriais da ditadura em São Paulo e Buenos Aires” (Alameda, 2018), Neves afirma em entrevista à Agência Pública que a Prefeitura não tem criado, no âmbito do Executivo, caminhos institucionais para dialogar sobre estes monumentos. Ela cita que um projeto de Lei para a criação de um comitê permanente para debater o patrimônio recebeu pareceres negativos no conselho que delibera sobre o patrimônio cultural do Estado de São Paulo.

Dois dias após a ação que incendiou a estátua de Borba Gato, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), anunciou que um empresário, ainda não identificado, vai arcar com o restauro da estátua. O que a historiadora questiona: “Por que a voz de um empresário que está se dispondo a financiar a recuperação desta estátua tem mais valor do que esse coletivo que decidiu dizer que essa memória tem que ser questionada?”, diz a especialista.

O monumento foi inaugurado em 1963 na Praça Augusto Tortorelo de Araújo. A obra de 20 toneladas assinada por Júlio Guerra faz parte de uma série de homenagens à memória dos bandeirantes em espaços públicos, como a Avenida dos Bandeirantes, a Rodovia dos Bandeirantes, o Monumento às Bandeiras e até mesmo a sede do governo paulista, instalada no Palácio dos Bandeirantes desde 1964.

Segundo a historiadora, essas homenagens integram um imaginário construído para fortalecer a ideia de que São Paulo é a locomotiva do Brasil. "Esse apego à memória dos bandeirantes também tem a ver com um componente xenófobo, de construção de uma identidade de que São Paulo é maior que o resto, do que o próprio país”, analisa Neves.

Para ela, ações que buscam reparação têm crescido em países como Brasil e Chile por causa da democratização do acesso ao ensino e do reconhecimento de que violações de direitos hoje têm origens históricas. “A história é cada vez mais necessária e urgente porque ela não se trata do passado, ela se trata do presente”, diz a historiadora.

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