CPI da Covid

Advogada diz que Prevent Senior fez 'pacto' com gabinete paralelo para divulgar 'kit covid' e tentar evitar lockdown

Em depoimento à CPI da Covid, Bruna Morato contou que havia um grupo de médicos que assessorava o governo federal

Agência O Globo - Publicado em 28/09/2021 às 17:30Atualizado há 28/09/2021 às 17:32
Advogada Bruna Morato, que representa 12 médicos que trabalharam na Prevent Senior, é ouvida nesta terça-feira (28) na CPI da Covid (Agência Senado)

Advogada Bruna Morato, que representa 12 médicos que trabalharam na Prevent Senior, é ouvida nesta terça-feira (28) na CPI da Covid (Agência Senado)

Em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira, a advogada Bruna Morato afirmou que o governo federal tinha um "pacto" com a Prevent Senior para validar o tratamento com o chamado "kit covid", de medicamentos sem comprovação científica contra a doença, como cloroquina. Morato representa os médicos que trabalharam e denunciaram a operadora de saúde e afirma que existia uma estratégia para que a Prevent ajudasse a equipe que assessorava o governo, conhecida como "gabinete paralelo", a validar o chamado tratamento precoce, como forma de tentar evitar o lockdown. 

De acordo com a advogada, no início da pandemia, o diretor da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, tentou se aproximar do então ministro da Saúde, Henrique Mandetta. À época, houve várias mortes na rede hospitalar em razão da Covid-19, o que levou Mandetta a criticar a empresa. Sem sucesso na aproximação, o diretor da Prevent conseguiu por "outras vias" descobrir um grupo de médicos que assessorava o governo de forma paralela, disse Bruna, relatando as informações que foram repassadas pelos médicos que a contrataram:

— Por conta das constantes críticas do ministro Mandetta, a direção tinha que tomar uma atitude. Num primeiro momento, se aproximar do ministério, por meio de um médico familiar de Mandetta, mas Mandetta não deu abertura, fazendo com que procurasse outras vias. O doutor Pedro [Pedro Benedito Batista Júnior, diretor da Prevent Senior] foi informado de que existia um conjunto de médicos assessorando o governo federal e alinhado com o Ministério da Economia — disse Bruna.

A informação chamou a atenção de membros da comissão, mas Bruna explicou que isso não significava envolvimento do ministro Paulo Guedes.

— Existe um interesse do Ministério da Economia para que o país não pare e, se nós entrarmos no sistema de lockdown, teremos um abalo muito grande. Existia um plano para as pessoas saírem para a rua sem medo. Eles desenvolveram uma estratégia. Qual? Através do aconselhamento de médicos. Era Anthony Wong, toxicologista, a doutora Nise Yamaguchi, especialista em imunologia, o virologista Paolo Zanotto. E a Prevent Senior iria entrar para colaborar com essas pessoas — disse a advogada.

Na sequência, ela disse:

— É como se fosse uma troca, a qual nós chamamos na denúncia de pacto, porque assim me foi dito. Alguns médicos descreveram como aliança; outros médicos descreveram como pacto.

Anthony Wong morreu de Covid, informação que foi omitida certidão de óbito, segundo documentos em posse da CPI. Conhecido defensor do "tratamento precoce", ineficaz contra a Covid-19, ele foi submetido às mesmas drogas cujo uso defendia em um hospital da Prevent Senior. Nise Yamaguchi e Paolo Zanotto são apontados como integrantes do gabinete paralelo. Em reunião no ano passado com Bolsonaro e outros médicos, Zanotto sugeriu a criação de um "shadow cabinet", ou seja, um "gabinete das sombras" para tratar do enfrentamento á pandemia.

A advogada afirmou ainda que, após os contatos dos médicos do chamado gabinete paralelo, a empresa sentiu segurança de que não seria incomodada pelo Ministério da Saúde.

— A informação que eu tive é que uma vez realizado esse pacto ou aliança junto com a... Entre esse conjunto de assessores que depois foram denominados por esta Comissão Parlamentar como sendo o gabinete paralelo, mas que, na época, eram apenas os assessores, é que após esse contato lhe foi transferida certa segurança, então, a Prevent Senior tinha segurança que ela não sofreria fiscalização do Ministério da Saúde ou de outros órgãos vinculados ao Ministério da Saúde.

De acordo com a advogada, o prontuário de Anthony Wong mostra que, de fato, ele foi tratado com remédios sem eficácia para a Covid-19. E rebateu a versão da Prevent Senior de que os dados foram vazados de forma ilegal por um médico. Segundo Bruna Morato, as informações sobre Wong foram entregues pela própria empresa ao ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo.

Bruna Morato afirmou que a prescrição do "kit covid" levava em conta a redução de custos para a empresa:

— Uma estratégia de redução de custos, uma vez que era mais barato fornecer medicamentos do que fazer a internação.

A advogada também disse que o termo de consentimento para aceitar o tratamento sem eficácia comprovada era genérico. De acordo com ela, os pacientes eram induzidos a assiná-lo sem ter clareza do que se tratava:

— No momento em que eles iam fazer a retirada do medicamento, era passada a seguinte informação: para retirar a medicação, precisa assinar aqui. Não tinham ciência de que o "assine aqui" era o termo de consentimento.

O senador governista Marcos Rogério (DEM-RO) afirmou que quem deveria falar eram os médicos, e não a advogada, uma vez que estava sendo trazida uma questão trabalhista. Ela disse então que não há ação trabalhista envolvida.

— O meu papel é defender meus clientes. Eles estão sendo ameaçados e coagidos — disse a advogada.

— Agora temos a figura da testemunha por procuração — criticou Marcos Rogério.

— Os fatos trazidos pela doutora Bruna são contundentes — rebateu o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM).

A advogada criticou Marco Rogério.

— Se o senhor desconhece a função social do advogado, não deveria estar aqui me inquirindo. Eu vou defender os interesses dos meus clientes, relatando a verdade — disse Bruna Morato, acrescentando: — Essa descompostura, deselegância na tentativa de desqualificar a denúncia só mostra que não tem condição técnica para rebater o fato.

Em seu depoimento na semana passada, Pedro Benedito Batista Júnior, diretor da Prevent Senior, afirmou que profissionais já desligados da empresa adulteraram planilha interna para dar a ideia de fraude. Nesta terça, Bruna rechaçou essa versão, dizendo que nunca houve alteração de dados. Ela também afirmou que não era leal à empresa sofria sanções, como a redução de plantões.

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