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22/08/2018 23:17 Paula Maria [email protected]
Ativismo

Artista indígena quer desmistificar o Makunaíma de Mário de Andrade

Foto: /Divulgação
jader esbell
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Era 1917 quando "Vom Roraima zum Orinoco" (De Roraima ao Orinoco), obra escrita pelo pesquisador alemão Theodor Koch-Grünberg, foi pela primeira vez publicada. Etnólogo em visita pela região amazônica e encantado com os povos que conheceu por lá, Koch-Grünberg narrou em seu livro as lendas e os mitos xamânicos que observou durante a sua convivência com os vários povos nativos, entre eles os Makuxi, de Roraima.

Nem imaginaria o alemão que, anos depois, tais mitos transcritos por ele seriam fartamente utilizados por Mário de Andrade enquanto este escrevia "Macunaíma" (1928), marco do modernismo nacional, que trazia as peripécias vividas pelo protagonista.

Fato é que, 100 anos depois da publicação de Andrade, a visão do índio enraizada no imaginário popular - "o herói sem nenhum caráter" - começa a ser desconstruída. Ao menos, essa é a meta de Jaider Esbell, artista nascido na etnia indígena Makuxi, descendente direto de Makunaíma, que encontrou nas artes plásticas a mais poderosa forma de dar voz ao seu povo.

"Macunaíma nunca foi um personagem folclórico. Principalmente agora, que conseguimos mostrar que o nosso povo existe", cravou o artista. "Eu percebo que as palavras 'indígena' e 'índio' ainda são distorcidas em muitas ocasiões. Elas são usadas em sentidos distantes da realidade contemporânea", continuou.

"É como se os índios estivessem em um mundo à parte, longe dos campos de decisão, dos palcos de existência, do mundo interativo. E a arte nos dá essa possibilidade de pensar o indígena no seu próprio tempo. É preciso que todos olhem para a diversidade que nos compõe", concluiu.

EXPRESSÃO.

Vencedor de um Pipa, em 2016, o maior prêmio da arte contemporânea brasileira, Esbell traz nesta quinta-feira (23) a Caçapava, às 14h, a mostra "O Xamã", com obras que revelam em cores as forças da natureza.

Trata-se de "o sopro, a fuga do tempo, a desfaçatez da matéria, o poder de cuidar da alma com a vida e o trabalho das plantas pelo humano". Na coleção, os desenhos são do artista e a colorização digital do fotógrafo Marcelo Camacho.

"A identidade indígena não é simples. Nós temos várias tradições e imenso respeito pelos ancestrais. Mas também fazemos parte deste mundo conectado", disse Esbell.

Ele é também autor das mostras "Transmakunaíma - O buraco é mais embaixo" e "It was Amazon". Esta última traz uma Amazônia diferente: em preto e branco. "São 16 telas e, ao contrário da exuberância da fauna e da flora costumeiramente vistas, mostro que a floresta também está sofrendo. É uma forma de pensar onde habito. Precisamos deixar de romantizar e revelar o quanto este ambiente também está sendo degradado pelo homem", afirmou.

Agenda.

Depois de Caçapava, onde o artista participa do projeto " Cultura nas Escolas", ele segue para a Faculdade Santa Cecília (pça. Des. Eduardo Campos Maia, 59), de Pindamonhangaba. Por lá, às 19h30, Esbell participa do projeto "Encontro com o artista e escritor".

Ambos os eventos estão sendo realizados pela Estação Casa Amarela Produções e Serviços em parceria com as Secretarias Municipais de Cultura..

 

jader esbell
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Indigena jaider Esbell
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