CCBB inaugura retrospectiva da artista japonesa Chiharu Shiota nesta quarta-feira

Agência O Globo | @jornalovale

Depois de passar por São Paulo e Brasília, onde foi vista por quase 200 mil pessoas, a exposição "Linhas da vida", retrospectiva da artista japonesa Chiharu Shiota, chega ao Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro com 70 obras, muitas delas inéditas, entre gravuras, desenhos, objetos e instalações. Entre elas está "Além da memória", que recebe o público logo na rotunda do CCBB, com 13 metros de altura, feita com 20 mil folhas de papel sulfite e dois mil novelos de lã e inspirada, segundo a artista, na diversidade do povo brasileiro. A instalação também funciona, diz a curadora Tereza de Arruda, como uma dica do que os visitantes vão encontrar a seguir: um trabalho meticuloso de linhas e formas que falam sobre caminhos, afeto e memória. Ou autoconhecimento, um tema presente em todo o percurso da artista de 49 anos, radicada em Berlim há mais de 20. 

Amiga da artista e também moradora da capital alemã desde 1989, Tereza de Arruda percorreu a exposição pontuando características inerentes à obra de Shiota, que não virá ao Rio porque está montando outra mostra neste momento em Berlim. Tereza define Shiota como uma artista "tímida", que precisou ultrapassar as barreiras bidimensionais da pintura ainda jovem, por não "caber" naquele formato.

— Na primeira vez que ela saiu do Japão, em um intercâmbio da universidade para a Austrália, ela teve um sonho em que estava se transformando em pintura, como se o corpo dela fosse a superfície de uma pintura. Aí fez aquela performance — conta a curadora, apontado para a obra "Transformando-se em pintura", de 1994, uma série de quatro fotos onde a artista aparece encharcada de tinta vermelha.

Depois, aliás, Shiota descobriu que a tinta era tóxica e teve que cortar o cabelo.

— Mas foi algo muito espontâneo, uma tentativa de expandir o campo pictórico — diz Tereza.

Além desta, outras performances documentadas estão no primeiro salão da exposição, um primeiro núcleo "introdutório", como explica a curadora, entre os cinco que compõem "Linhas da vida". Nesta seção, há trabalhos que giram em torno do corpo como tema, como "No banheiro" (2002) e "Tente ir para casa" (1997). Percebe-se a preferência da artista pelo uso do branco, do vermelho e do preto, que representam início, vida e morte, respectivamente, segundo Tereza.

Adiante, o público vai se deparar com "Dois barcos, um destino" (2019), instalação que apresenta uma metáfora sobre trajetória e percursos da vida.

— O barco é uma figura recorrente no trabalho dela, mas não é usado como meio de transporte, e sim pelo formato que remete a uma mão, algo que vai te guiar, te conduzir. São barcos idealizados. A cor preta indica o fim. Aqui, ela está falando da morte. É uma viagem, e fortíssima pelo que estamos vivendo hoje, mas ela lida com isso com sutileza e fragilidade — explica a curadora.

Chiharu Shiota também toma a figura do barco como ponto de partida de diversos desenhos e gravuras expostos nos salões do CCBB, a exemplo das litografias "Linha ondulada" (2018) e "No barco" (2019), além da instalação "A chave na mão" (2015), vista em uma fotografia de grande formato. Esta foi a obra que a japonesa levou para representar seu país na 56ª Bienal de Veneza, em 2015. Para concebê-la, utilizou dois barcos cobertors por uma trama de fios de lã vermelhos que suspendem 180 mil chaves.

— Ela coletou essas chaves em uma campanha, e é interessante porque nós só entregamos chaves a quem confiamos. Para ela, essas chaves estão relacionadas a memórias pessoais de quem as entregou — observa a curadora.

Lenda japonesa

Outra instalação de destaque é "Linha interna" (2019), um site specific composto por três grandes vestidos vermelhos, com cerca de 35 mil metros de fios entrelaçados em uma estrutura retangular. A obra foi criada especialmente para ocupar a Japan House, em São Paulo, em 2019, quando a individual da artista no CCBB paulista ocorria simultaneamente. Foi inspirada em uma lenda japonesa que conta que quando uma criança nasce, um fio vermelho é amarrado em seu dedo, representando a extensão de sua corrente sanguínea, e que esse fio vai se cruzar com o fio de outra pessoa ao longo da vida, modificando caminhos.

Tereza de Arruda explica que quando a exposição acabar, em abril, os fios e papéis sulfite que formam a obra monumental do foyer serão encaminhados para reciclagem e doações. E cita, mais uma vez, a palavra que "amarra" a exposição de Chiharu Shiota:

— Ela está interessada na presença que a obra vai ter na memória das pessoas, pois a obra acaba, é desmontada, mas vai continuar existindo na memória de quem viu.

Onde: Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Primeiro de Março 66, Centro —3808-2020. Quando: De 13 de janeiro a 19 de abril. Qua a seg, das 9h às 17h. Agendamento pelo site eventim.com.br. Quanto: Grátis.

Assinar OVALE é

construir um Vale melhor


OVALE nunca foi tão lido, assistido, curtido e compartilhado. São mais de 23 milhões de visualizações por mês apenas nas plataformas digitais, além da publicação da edição impressa, revistas e suplementos especiais. E sempre com o DNA editorial de quem é líder em todas as plataformas, praticando um jornalismo profissional, independente, crítico, plural, moderno e apartidário. Informação com credibilidade, imprescindível para a construção de uma sociedade mais livre e mais justa, em um tempo em que a democracia é posta em risco por uma avalanche de fake news. Aqui a melhor notícia é a verdade. E nós assinamos embaixo. Seja livre, seja OVALE. Viva a democracia. Assine OVALE e ajude-nos a ampliar ainda mais a melhor cobertura jornalística da região.