Com textos inéditos e prefácio de Margaret Atwood, antologia é um deleite para fãs de Sylvia Plath

Agência O Globo |

Sylvia Plath foi uma dessas artistas multitalentosas: do desenho à poesia, passando por contos, crônicas e um romance consagrado — "A redoma de vidro" (1963) —, a escritora manteve também correspondências e diários, hoje com valor literário consolidado. Nascida nos Estados Unidos, em 1932, Plath morreu na Inglaterra apenas 30 anos depois. Deixou dois filhos e um vasto material inédito, que ficou sob a curadoria controversa do poeta inglês Ted Hughes, com quem teve um casamento tempestuoso.

Dela, o selo Biblioteca Azul (Globo Livros) recentemente publicou a antologia "Johnny Panic e a bíblia de sonhos e outros textos em prosa", com tradução da talentosa poeta Ana Guadalupe. O livro tem de tudo um pouco: de contos mais realistas a outros com inspiração fantástica, da observação sarcástica do cotidiano à sondagem profunda da dor própria e alheia. A organização dessa obra póstuma ficou a critério de Hughes, que divide e classifica os textos assim: (1) "Os melhores contos e outros textos em prosa", (2) "Outros contos", (3) "Excertos de cadernos" e (4) "Contos da Lilly Library" (encontrados na Universidade de Indiana, depois de terem sido adquiridos da biblioteca da mãe da escritora, Aurelia Plath).

Na introdução, Hughes faz um comentário espinhoso: "É certo que a própria Sylvia Plath renegou vários dos contos aqui reunidos, de forma que são hoje publicados contra sua vontade. Deve-se levar isso em conta. Mas, apesar de seus óbvios defeitos, são contos suficientemente interessantes em si mesmos, mesmo que apenas como notas de sua autobiografia íntima."

A sugestão de que esses textos poderiam ter mais valor biográfico do que literário é problemática, mas a interpretação do poeta, que precisaria ser manejada com mais cautela, ainda orienta muitas leituras. Por isso, um acerto dessa edição foi acrescentar uma segunda introdução, o ensaio "Prosa de poeta", da escritora canadense Margaret Atwood, originalmente publicado no jornal "The New York Times", em 1979.

Para iniciados

Para Atwood, essa é uma obra de menor destaque de uma autora de grande importância e se destina sobretudo a especialistas, ou seja, a quem "aprecie o trabalho de Plath o bastante para já tê-lo lido quase em sua totalidade e se interessar por antevisões, referências cruzadas, influências e insights; e é esse tipo de público que ‘Johnny Panic’ toma para si".

Embora tenha qualidade literária acima da média — estamos falando de Sylvia Plath —, concordo que essa antologia é, acima de tudo, um deleite para fãs, pois quem conhece o trabalho da autora com intimidade pode ter uma experiência de leitura muito mais rica ao estabelecer conexões.

Quanto à questão biográfica, Atwood lembra que esses textos foram escritos por uma autora jovem e desconhecida, que tinha deixado de ser estudante para ocupar uma "outra posição subordinada", a de esposa de um poeta considerado promissor. Por isso, a tentativa de escrever textos dignos de publicação e remuneração também foram tentativas desesperadas de buscar autonomia e afirmação "em um mundo que até então tinha falhado em reconhecê-la".

"Falo comigo mesma e olho as árvores escuras, abençoadas em sua neutralidade. Tão mais fácil do que encarar as pessoas, do que precisar parecer feliz, indestrutível, inteligente. Sem qualquer máscara, eu ando, falando com a lua, com as forças impessoais e neutras que não escutam nada, e apenas aceitam o que eu sou. E não tentam me derrubar", escreve Plath em um de seus cadernos, que são a melhor parte do livro. Como disse Atwood, esses registros têm uma "espontaneidade que os contos, em seu desejo de serem literários, quase perdem". Gosto muito desse "quase".

De todo modo, o principal mérito de "Johnny Panic" é permitir que possamos testemunhar o processo de aprendizagem de uma grande escritora. "Tem tudo para destruir de vez a ideia romântica da genialidade que brota feito uma flor", acredita Atwood. O livro compartilha parte do percurso de uma autora singular, que perdemos tão precocemente, em pleno processo de ação e formação. Fala-se muito da morte de Sylvia Plath. Aqui, o registro que fica é de seu esforço de vida.

* Fabiane Secches é psicanalista e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP

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