Livro de Hans Staden sobre viagem ao Brasil e prisão em Ubatuba impactou artes nacionais

Xandu [email protected] | @jornalovale

Há histórias (verdadeiras) que parecem ficção de tão extraordinárias. Esta é uma delas.

É de como um naufrágio, um banquete antropofágico, o mau tempo de Ubatuba e um dos primeiros best-sellers do mundo transformaram a cultura e a identidade do Brasil.

O livro influencia o modernismo, que influencia o Cinema Novo e todo o restante.

Hans Staden (1525-1576) era um arcabuzeiro alemão que deixou a terra natal em busca de aventuras aos 20 anos. Foi a Lisboa, mas perdeu o navio para as Índias. Então, veio ao Brasil.

Chegou em janeiro de 1549, em Pernambuco, e ajudou os portugueses a resgatarem compatriotas em guerra com índios.

De volta à Europa, retornou ao Brasil em 1550 com Juan de Sanabria (1504-1549) rumo ao território espanhol, no Sul.

“De Cananeia para baixo era tudo espanhol. Eles tinham projeto de ocupar, mas deu tudo errado, com naufrágios e tragédias”, conta o jornalista e escritor Eduardo Bueno.

Chegaram à na Ilha de Santa Catarina e naufragam. Eles perambularam por dois anos até Staden conseguirem partir em um novo navio, e naufragaram novamente, em Itanhaém.

A expedição foi a São Vicente e o alemão tornou-se coordenador da artilharia do Forte São Felipe, no canal de Bertioga, em 1554, bem no limite com o território tribal dos Tamoios (Tupinambás), que odiavam os portugueses e eram aliados dos franceses.

Numa batida, Staden foi capturado pelos Tamoios e levado a uma aldeia em Ubatuba.

Bueno conta que o capturado entrou na aldeia amarrado e pulando, dizendo: “A vossa comida chegou”. “Ia ser comido num ritual antropofágico”.

Posto para engordar, Staden viu dois portugueses presos serem devorados pelos índios. Então, passa a dizer que é francês. Não dá certo. Só é salvo da panela por causa da abundante chuva de Ubatuba.

Conta Bueno: “Ele diz aos índios que chovia sem parar porque o Deus dele estava chorando. Se o matassem, nunca mais pararia de chover”.

Supersticiosos, os índios pedem para ele fazer parar de chover. Staden reza e, de repente, para de chover.

Agora poderoso, Staden foi libertado, voltou à Europa e escreveu o livro “Duas viagens ao Brasil”, editado pelo médico, anatomista e matemático Johann Dryander em 1557, que tornou-se um best-seller.

O livro só chega ao Brasil em 1892. Mas é uma edição de 1900 que impactará o país. Os direitos foram comprados por Eduardo Prado, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e pai de Paulo Prado, financiador da Semana de Arte Moderna de 1922.

Ele teria dado o livro a Tarsila do Amaral (1886-1973) e a Oswald de Andrade (1890-1954), destaque entre os modernistas e expoentes do conceito antropofágico, de pegar a arte de fora, canibalizá-la e vomitar uma arte nova, brasileira.

Impactados pelo livro, Tarsila fez o quadro Abaporu (‘homem que come gente’, em Tupi), de 1928. Andrade lançou o Movimento Antropofágico, impactando o Cinema Novo e as artes nacionais.

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