Literatura atemporal: obras do passado trazem à tona desafios contemporâneos

Uma pandemia que parou o mundo e obrigou as pessoas a ficarem em casa. A ascensão de governos de cunho autoritário e populistas. E mais uma onda de revolta contra o racismo nos Estados Unidos. Tudo ao mesmo tempo. Nesse cenário conturbado do mundo real, muitos livros tradicionais e atemporais podem fazer com que as pessoas entendam melhor o momento.

Um deles é o clássico ‘1984’, escrito por George Orwell (1903-1950), em 1949, com uma visão futurista, com o domínio de governos autoritários, totalitários, e com vigilância sobre as pessoas.

Esse romance, apesar de contar a história no futuro, foi inspirado em regimes totalitários existentes nas décadas de 1930 e 1940. Muito mais do que o nazismo ou stalinismo é possível traçar paralelos com diversas formas de controle do governo e também do mercado sob a sociedade.

O ‘Ensaio sobre a Cegueira’, do escritor português José Saramago (1922-2010), é um romance que fala sobre uma epidemia de cegueira branca em uma pequena cidade, onde as pessoas começam a perder a visão inexplicavelmente. E mostra o impacto que isso leva àquela sociedade, que entrou em colapso e as pessoas passaram a ter que conviver com aquela nova realidade. Um interessante paralelo com a atual pandemia do novo coronavírus.

Outro que tem muito a ver com o momento é ‘O Presidente Negro’, do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), de Taubaté. O livro fala sobre uma luta na sociedade norte-americana entre negros e brancos e aborda a questão da eugenia. O livro, inclusive, já havia sido notícia quando, em 2008, Barack Obama foi eleito o primeiro presidente negro dos EUA.

É tempo de reler até mesmo o clássico ‘Diário de Anne Frank’, que embora não tenha ligação direta com os acontecimentos atuais, mostra a rotina de uma família judia obrigada a ficar em confinamento para fugir dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Fábio Monteiro, doutor em História e um dos idealizadores do canal no YouTube ‘Vestibular em Cena’, ressalta a importância da leitura nesses tempos conturbados da sociedade. “Eu diria que esses livros são clássicos e aqui nós poderíamos citar o italiano Ítalo Calvino, que diz que um clássico é aquele livro que nunca para de dizer aquilo que ele tem para dizer”, afirmou.

MÍDIA.

O historiador afirma ainda que a atuação da mídia vem contribuindo para um maior interesse pela leitura. “Eu diria que esse interesse pela literatura se deve em parte ao confinamento, mas em grande medida à imprensa e dos intelectuais públicos, que se esforçam no esclarecimento do que são fake news”.

Thais Travassos, professora de Literatura Brasileira no Departamento de Ciências sociais e Letras da Unitau (Universidade de Taubaté), ressalta que esses livros são uma ‘distopia’, exceto ‘O Diário de Anne Frank’. “As distopias são construções de futuro terríveis. Parece-me que o que acontece hoje é um pouco uma identificação com esse futuro, uma vez que a realidade de uma doença nova que obriga todos a estarmos trancados em casa, uma doença que é um perigo invisível, mas iminente, mas iminente, que inevitavelmente nos afetará a todos, cria tantas incertezas como nesses livros de ficção. Acredito que esse é um dos motivos pelo interesse, mas está longe de ser o único”, disse a professora.

A escritora independente Aione Simões, de São Paulo, criadora do Blog Vida Literária, tem observado maior interesse pelos livros. “Vejo pessoas procurando leituras de entretenimento como válvula de escape da realidade, ou simplesmente buscando ler mais, não só sobre temas relacionados, para preencher o tempo de quarentena”.

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