Americanos têm medo de voltar à Broadway, afirma pesquisa

Agência O Globo |

Nova-iorquinos estão relutantes em voltar às plateias da Broadway em setembro, mês em que companhias de teatro devem retomar suas atividades nos Estados Unidos — no Brasil, muitos grupos mantêm a mesma data à vista.

De acordo com uma pesquisa feita pelo New York Times e pelo Siena College, o público americano estaria disposto a retornar aos teatros no fim de 2020, e apenas se medidas severas entrarem em vigor.

Para os hesitantes, a grande preocupação mora na poltrona ao lado. A maior parte da população diz que se preocupa com espectadores sem máscaras ou pessoas que possivelmente ignorarão as regras de distanciamento social.

Realizada entre 17 e 21 de maio, a pesquisa perguntou, a cidadãos eleitores da cidade, em quanto tempo eles se sentiriam à vontade para assistir a apresentações ao vivo como espetáculos da Broadway. Os entrevistados demonstraram receio em retornar a salas de teatro e casas de show se as atividades realmente forem retomadas por volta de 1º de setembro.

Produtores já miram 2021

Muitos dos maiores produtores culturais dos EUA já desistiram da ideia de realizar shows de outono (entre setembro e dezembro), voltando suas atenções para 2021. A pesquisa sugere que eles leram corretamente o comportamento do público.

Administradores da Broadway anunciaram que suas salas permanecerão de portas cerradas até, pelo menos, 6 de setembro. Muitos acreditam, porém, que a reabertura só acontecerá mesmo em janeiro.

No meio cultural, a indústria teatral de Nova York é a que enfrenta maiores dificuldades em sua retomada, já que os shows da Broadway são assistidos essencialmente por turistas e idosos, dois grupos que voltarão à circular pela Times Square mais lentamente do que os outros.

Com o turismo em queda dramática, os nova-iorquinos são mais importantes do que nunca para o setor, que busca reter seu público-alvo, mesmo com a escassez de visitantes na cidade.

Entre os 796 eleitores de Nova York entrevistados, apenas 39% das pessoas que assistem a peças da Broadway com alguma frequência afirmaram que voltariam a ver um espetáculo se as salas fossem reabertas em 1º de setembro.

O número salta para 57% entre os que consideram comparecer a peças em dezembro, supondo que os teatros tomassem todas as precauções que o próprio entrevistado julga ser necessária. "Isso não representa o total de clientes regulares, mas expõe um grupo considerável", ressalta Don P. Levy, diretor do instituto de pesquisa — Há aí uma audiência e um mercado.

Presidente da Broadway League, organização comercial que representa produtores e proprietários de teatros, Charlotte St. Martin diz que não está surpresa com o fato de um grupo significativo de espectadores manifestar interesse em assistir a peças a partir de setembro.

"Minha caixa de entrada no e-mail está cheia de pessoas dizendo: "Depressa, estou pronta para retornar às plateias", conta ela. "Mas não voltaremos antes que seja seguro".

Para público, colegas de plateia são problema

O estabelecimento de uma "sensação de segurança" é a maior tarefa que produtores de espetáculo ao vivo devem superar para que algumas pessoas retornem às salas. E, para muitas dessas pessoas, os principais obstáculos são os colegas de plateia.

Aqueles que dizem que não voltarão tão cedo à Broadway ressaltam que o motivo de seus receios está na falta de confiança de uma adesão geral da plateia aos protocolos de segurança.

"Um homem na fileira M pode se recusar a cobrir o nariz e a boca com a máscara", especula um dos entrevistados. "Numa fila, alguém pode ficar muito perto da pessoa na frente dela, sem respeitar o distanciamento", prevê outro entrevistado.

Segundo a pesquisa, 58% dos nova-iorquinos que assistiram a pelo menos um show da Broadway em 2019 disseram que não confiam que os demais espectadores vão aderir adequadamente ao distanciamento social.

Entre os entrevistados, 55% justificaram o temor de retornar aos teatros da seguinte forma: eles não acreditam que todos na plateia usarão máscaras de forma correta. Essas preocupações superam duas outras frases frequentes: "Chegar ao teatro não seria seguro para mim" e "Estar no distrito dos teatros é demais para mim agora".

Cerca de 72% dos entrevistados disseram que para assistir a uma apresentação ao vivo em 2020 seria necessário que o local separasse os membros da plateia em distância de 1,80 metros. A grande maioria das pessoas — cerca de 90% — exigiria produtos de limpeza profissionais para desinfetar o teatro ou a sala de concertos entre os espetáculos.

Viabilidade financeira ainda é dúvida

Organizações artísticas enfrentam dificuldades financeiras por causa do cancelamento em massa da programação cultural. Muitos produtores ainda avaliam se as futuras restrições ao ofício serão viáveis financeiramente.

Para a Broadway e as salas de ópera de Nova York, o modelo socialmente distanciado seria insustentável. A tendência, segundo gestores da área, é que os espetáculos se tornem ainda mais caros. Para as salas de cinema, o desafio é parecido.

"Como eles podem fazer com que o público se sinta seguro e ainda sejam financeiramente viáveis?", Dr. Levy questiona.

St. Martin frisa que a Liga da Broadway está estudando todos os protocolos de segurança, desde verificações de temperatura até drones que espalham desinfetantes no ar. O distanciamento social, no entanto, "não funcionará para a Broadway", atesta ela.

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