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Crítica: espetáculo "Chapeuzinho Vermelho", por Daniele Avila Small

O olhar atento às antigas narrativas


Daniele Avila Small

"Chapeuzinho Vermelho", espetáculo do Projeto Gompa dirigido por Camila Bauer, traz para a cena uma versão escrita por Joel Pommerat, dramaturgo e encenador francês bastante celebrado na cena contemporânea internacional. Ele não faz alterações no enredo, mas arrisca cores mais fortes nas personagens. Sua Chapeuzinho Vermelho sente falta da mãe que está sempre ocupada (um dado da vida urbana atual que se infiltra na narrativa) e encara com determinação os desafios que se colocam para a realização da sua vontade de sair sozinha. Já o Lobo se mostra ardiloso como um homem consciente das suas táticas de aliciamento, e não um animal irracional que age por simples instinto.
O espetáculo coloca em cheque uma ideia de teatro para crianças que é sempre solar e colorido, que coloca todas as fichas na extroversão e toma a criança como um ser para quem tudo precisa ser minuciosamente explicado. A encenação de Camila Bauer aposta na escuridão como solo fértil para a imaginação infantil, criando uma atmosfera de recolhimento e escuta atenta na plateia. Contribui para isso a paisagem sonora que aos poucos se instaura no teatro antes mesmo do início da peça, preparando os espectadores para uma narrativa que não esconde seu lado sombrio. O apelo sensorial constante cria uma ambientação que preenche todo o espaço do teatro, dando suporte para os tempos estendidos da narração que demanda seus silêncios. Além de oferecer uma abordagem amadurecida da história de Chapeuzinho Vermelho, a montagem do Projeto Gompa também se arrisca na dimensão de terror das histórias infantis. A peça assume que o medo é um elemento indispensável tanto na sua fruição quanto na formação das crianças e adultos na plateia. E o medo é raramente explorado no teatro.
A encenação se comunica com crianças e adultos ao mesmo tempo. Para tanto, as imagens são ambíguas, especialmente no que concerne a tensão entre o lobo e as figuras femininas. Nas cenas mais agressivas, as crianças vêm apenas a fábula que todos conhecemos. Mas os adultos podem perceber a analogia com a violência contra a mulher – que a sociedade em que vivemos faz de tudo para naturalizar, desde os contos infantis. É importante observar que a história em questão também cumpre esse papel, ensinando que meninas não devem andar sozinhas, pois o mundo está cheio de lobos que precisam dar vazão aos seus instintos: eles não podem evitar; elas é que não deveriam se expor a tal situação.
Durante a trajetória de circulação do espetáculo, o grupo trocou o gênero da figura que salva as mulheres no final (quem as resgata passou a ser uma caçadora, e não um caçador), mas, ainda assim, essa é uma história contada por uma voz masculina. A mulher aqui não é sujeito epistemológico da sua jornada de formação. Isso se evidencia com o fato de que o narrador, que está de corpo presente, é um homem – sendo o homem (branco, especificamente) uma construção da falsa ideia de neutralidade.
Com essa observação, não quero dizer que essa história não deveria ser encenada, nem que a narradora deveria ser uma mulher, mas atento para o fato de que essa fábula colabora para perpetuar uma determinada cultura. Como ela vai continuar sendo contada, é de grande valor que alguém o faça sob uma perspectiva crítica. Identifico o olhar crítico dessa montagem especialmente na construção da figura do Lobo, um trabalho sofisticado de Henrique Gonçalves. Quanto mais ele nos assombra com a sua elegância, e nos convence como um animal de quatro patas, mais aguda e afiada é a sugestão da figura masculina subjacente, que por um momento vislumbramos quando ele se coloca de pé.
Revisitar criticamente as narrativas que nos formam é uma das coisas que faz do teatro uma ferramenta importante da vida em sociedade. Para recontar determinadas histórias, é importante desconfiar delas e assumir uma posição. Conferir uma linguagem contemporânea para um clássico não é mera exibição de procedimentos criativos. É um convite para olharmos de novo, de outra maneira, para algo que já faz parte do nosso repertório.

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