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Crítica: espetáculo "Festa de Inauguração", por Daniele Avila Small

Sobre narrativas e martelos


Daniele Avila Small

"Festa de inauguração", espetáculo do Teatro do Concreto, foi apresentado no CET no dia 1º de setembro de 2019, ainda na primeira metade do 34º Festivale, que em poucos dias já colocou em cena uma grande diversidade de linguagens, apontando noções diversas de teatro para diferentes públicos.
O grupo de Brasília apresenta uma série de provocações que convidam os espectadores e espectadoras a pensar sobre as construções narrativas que formam nossas visões de mundo. O principal aspecto desse processo abordado pelo grupo é a dinâmica de construção e desconstrução que constitui as grandes narrativas. O foco crítico da dramaturgia está, a meu ver, nas construções da coisa pública (a história, a cultura, a arte, os costumes) nas materialidades dos espaços públicos (os museus, os monumentos, as cidades), em contraste com os pequenos gestos dos indivíduos – e as dimensões possíveis da repercussão desses gestos.
A criação da peça tomou como ponto de partida um fato real e bastante simbólico acontecido em Brasília em 2011, quando um vazamento provocou uma obra no Congresso Nacional. Entre as paredes que quebradas nesse processo, foram encontradas, em uma parte oculta do edifício, frases escritas pelos operários que construíram o prédio nos anos 1950. Na parte visível, um monumento arquitetônico histórico da capital do país, centro das decisões políticas mais significativas sobre a vida concreta dos brasileiros e brasileiras. Na parte invisível: os rastros dos trabalhadores que construíram esse lugar, seus pensamentos deixados para um acaso no futuro, suas vozes praticamente inaudíveis e a potência poética dessa despretensiosa micro-insubordinação em segredo.
Assim, no contraste entre o público e o privado, o grande e o pequeno, "Festa de Inauguração" faz um exame dos modos narrativos das instituições e das estratégias de inscrição dos indivíduos. Diante de referências imponentes como o teatro grego e as ruínas de Pompeia, são as vozes e os corpos dos atores e das atrizes que dão o contraste da individualidade, da subjetividade e dos afetos em escala humana diante dos acontecimentos acachapantes de um mundo imenso e imprevisível. Embaixo dos nossos pés, placas tectônicas guardam movimentos ancestrais, mas nós estamos aqui, tentando achar laços de pertencimento e uma narrativa de vida que valha a pena. O que fazem os nossos gestos? O que eles destroem ou preservam?
No início da peça, um convite para pegar um martelo. Em seguida, a proposta de que os espectadores destruam partes do cenário que simulam obras de arte aparentemente feitas de cacos de uma destruição prévia. Há quem se entregue à diversão de martelar objetos aleatórios, só pelo prazer de desopilar a tensão do cotidiano. Mas há também quem hesite antes de dar a primeira martelada. Devo mesmo aderir? Quem se beneficia com a minha adesão? É essa a cena que institui o espaço onde a maior parte da peça vai acontecer. Tudo acontece muito rápido, mas não à toa. Mesmo no teatro, mesmo na condição de espectadores, em que aparentemente não temos nenhum poder de decisão sobre os acontecimentos, ainda assim estamos cumprindo um papel.
O gesto de desconstruir não é necessariamente um impulso negativo. Nesse sentido, a arte e a crítica fazem o mesmo trabalho: quebrar uma ideia, expor suas estruturas, pode ser o caminho necessário para encontrar outras inscrições. Mas a arte e a crítica, por sua vez, também precisam de umas marteladas. A ânsia de preservação de qualquer tradição a despeito das suas violências intrínsecas, as homenagens acríticas aos mesmos homens brancos ricos que protagonizam a história da arte e do teatro, tudo isso pode estar na mira dos martelos que somos convidados a empunhar.
Entre tantas ideias, tantas perguntas relevantes que o espetáculo propõe (e é difícil segurar o desejo de tentar falar sobre tudo), uma das coisas que mais me chamou a atenção nesse trabalho do Teatro do Concreto foi a convocação à responsabilidade que temos sobre as narrativas que nos incluem ou excluem, que nos matam ou nos recolocam no mundo, que nos embalam no conforto de uma coerência linear ou que nos sacodem pelo bombardeio de incertezas. Esse chamado, no entanto, não se dá pela cobrança de uma eficiência de participação no mundo, mas por um convite à criatividade, à invenção, ao reconhecimento dos marcos e inaugurações das nossas próprias narrativas e da capacidade que temos de romper, cada um com o seu martelo, com o concreto armado da história.

Suassuna estandartizado

Valmir Santos
Ariano Suassuna deu fama e pluralizou a expressão conchambrança, que o dicionário também grafa cochambrança. A palavra desliza sentidos de entusiasmo, de harmonização e de jeitinho. “As Conchambranças de Quaderna” foi como o escritor chamou essa peça de 1987, emprestando o nome do narrador-protagonista do “Romance d’A Pedra do Reino” (1971) em sua rememoração de imbróglios. A sonora e voluptuosa conchambrança é sacada aqui sob a perspectiva negativa, ou seja, da maneira pretensamente esperta de se conseguir algo, a propósito de “Ariano - O Cavaleiro Sertanejo”, d’Os Ciclomáticos Companhia de Teatro.
Em seu intento de aproximar vida e obra do artista brasileiro da aura e da mística do personagem-título de “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha”, imortalizado pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra, a companhia do Rio de Janeiro entrega um espetáculo limitado na produção de polifonia, essa multiplicidade de sons, vozes e demais intervenções simultâneas que não os anulam, antes, alargam horizontes, como os grandes nomes da literatura o fazem. Em tempo: Suassuna atravessou 87 anos entre os séculos XX e XXI, até 2014; Cervantes foi expoente do Século de Ouro Espanhol, o XVII.
Há incapacidade de sustentar sinergia entre os planetas Suassuna e Quixote, esse emblema da cultura ocidental. Os Ciclomáticos simplesmente não elaboram acerca de pontes possíveis de João Grilo, Chicó, Quaderna e a Moça Caetana (a figura da morte) com os eventuais congêneres Quixote, Sancho Pança e Dulcineia, restando ligeira citação a Cervantes, lá pelas tantas. A insinuada travessia oceânica do escritor ao fidalgo, e vice-versa, não alcança fôlego para tanto. 
Assim como seria reduzi-lo pretender no cavaleiro andante tão somente um anti-herói ingênuo, que se deixou enlouquecer por apego aos romances de cavalaria, as remissões a Ariano Vilar Suassuna, principalmente por meio de peças e romances, viram uma miscelânea. Em vez de justaposição inventiva, a montagem circunscreve um novelo. Notas biográficas à maneira da Wikipédia são entremeadas a cenas e cancioneiros que as ilustram ou eventualmente conseguem expressar originalidade na composição (algumas criadas para a peça) e comunicar nuances vocais das pessoas que as interpretam. 
Parafraseando um termo familiar ao mundo corporativo, o que sobressai no palco é a estandartização do que foi o homem e seu legado artístico. Um Suassuna previsível, refém da padronização e dos reducionismos quando o tema e a estética versam sobre as culturas popular e nordestina, tal qual cometeram recorrentes investidas cênicas ou audiovisuais país adentro, com poucas exceções de trabalhos que de fato a leem para além da superfície aparente.
A comédia com texto e direção de Ribamar Ribeiro não foge ao esquema das biografias musicais. Sugere beber dos romances de cavalaria no fiapo de enredo em que seis figuras invariavelmente alegres narram que estão no encalço do autor de “Auto da Compadecida”, até que “invadem” a fictícia Armorial para contar e cantar “a lenda do cavaleiro nordestino”.
Aos 23 anos de atividade em artes cênicas, não é difícil notar que os integrantes da companhia têm jogo de cintura para a roda ou a festa. Mas até o que poderia ser uma virtude no quesito musical se apequena quando se quer abraçar o mundo. Não há mísera linha para situar o público não especializado acerca do Movimento Armorial, acepção de arte brasileira que pondera as sofisticações de matrizes erudita e popular, mote de manifesto assinado por Suassuna no início da década de 1970, no Recife. 
“A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos ‘folhetos’ do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus ‘cantares, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados”, escreveu no Jornal da Semana, publicado na capital pernambucana em 1975.
Sofisticação ausente do esquema narrativo que passa ligeiro por seis tópicos, entre eles o nascimento, a morte do pai e os próprios casamento e morte. Na peça, o assassinato do deputado federal João Suassuna, em 1930, é exageradamente comparado ao de vítimas de crimes políticos, como a missionária Dorothy Stang no Pará, em 2005, e a vereadora Marielle Franco (PSOL) no Rio, em 2018, ao lado do motorista Anderson Pedro Gomes, trabalhador alheio ao espectro ideológico. Essas foram execuções sob contextos distintos daquela morte derivada de intrincadas pelejas políticas, latifundiárias e caudilhescas da época.
Os grandes painéis pintados que abrem e fecham o espetáculo, afixados no fundo do palco, além dos seis estandartes distribuídos no espaço de acordo com os diferentes quadros do roteiro traduzem a recepção plana e uniforme do lado de cá. O vocabulário gestual e o sotaque são carregados dos clichês que lembram os vícios televisivos sob a ótica (e os ouvidos) “sudestinos”. Essa simpatia falseada possivelmente ajuda a explicar parte do acolhimento caloroso da obra por parte da plateia, que vai embora do teatro com uma experiência empobrecida do universo de Suassuna, ele que dizia nutrir admiração quase obsessiva por Cervantes, logo, Quixote. 
Como esta edição do Festivale orienta-se pelo trabalho dos grupos de teatro e põe em relevo os procedimentos em arte vocacionados para a cultura popular, “Ariano - O Cavaleiro Sertanejo” contrasta pela mera louvação e pouco distanciamento do homem e da obra. Isso fica mais evidente quando o festival recebe este ano um “Auto da Compadecida” (pelos mineiros Gabriel Villela e Grupo Maria Cutia) francamente politizado para sacolejar e trazer a discórdia, sem prejuízo do humor e da verve de seu genial autor. Assim como ainda se mantém fresca na memória a presença do solo “O Incansável Dom Quixote”, por Maksin Oliveira e sua Magnífica Trupe de Variedades, também do Rio de Janeiro, que na edição de 2016 toureou a transposição cênica da obra-prima com níveis de sofisticação capazes de contemplar qualquer cidadão que jamais tenha ouvido falar do cavaleiro errante e de seu fiel escudeiro.


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