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Após críticas, livro com ofensas à Bolsonaro pago pelo FMC será retirado de bibliotecas de São José

Thais Perez | @_thaisperez

Um livro de poesias financiado pelo FMC (Fundo Municipal de Cultura) de São José dos Campos foi retirado de circulação das bibliotecas da cidade por conter xingamentos ao presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Com frases como "*** no ** do Bolsonaro", além de críticas à ditadura militar e à bancada evangélica, o livro "Beirage" foi publicado pelo escritor joseense George Furlan no início de 2019. O projeto aprovado pelo FMC custou R$ 20 mil.

O livro teve tiragem de 5 mil exemplares, que foram distribuídos em bibliotecas municipais. Eles também seriam tema de atividades pedagógicas na educação de jovens e adultos. Contudo, o livro será retirado de circulação das bibliotecas após avaliação da FCCR (Fundação Cultural Cassiano Ricardo).

Entre os 70 poemas publicados, dois provocaram críticas de membros do PSL e de vereadores da Câmara de São José por conter palavrões e opiniões contrárias ao presidente, além de falar posicionamentos contra a "bancada da bala", "bancada agropecuária", militares e a polícia.

A deputada Letícia Aguiar (PSL) se posicionou contra a aprovação do projeto no FMC. "Não concordo que dinheiro público seja investido nesse tipo de literatura, com textos obscenos. Se quiser fazer com iniciativa privada, ele pode garantir a liberdade dele", afirmou. 

Letícia Aguiar ainda afirmou que a situação está sendo avaliada pelo departamento jurídico de seu gabinete. "Estamos estudando que providências podem ser tomadas para que esse recurso volte aos cofres públicos", disse. A deputada também afirmou que enviou os textos à assessoria política do presidente Jair Bolsonaro. 

A FCCR afirmou que quando o projeto foi aprovado, foi encaminhado apenas com o título e a sinopse. " O conteúdo final da obra chegou ao conhecimento da FCCR somente após a publicação do livro".

A instituição afirmou que o fato deixará de ocorrer, já nos próximos editais os proponentes terão que entregar o texto antecipadamente, com a denominação de publicação de obra inédita em literatura.

O autor do livro, George Furlan, afirmou que sua obra é "um manifesto, um livro de poemas que trata de diversos assuntos de seu tempo, através de poemas em diversos formato". Após a publicação do livro nas redes sociais de membros do PSL, o escritor tem recebido mensagens de ofensas em seu perfil pessoal.

"Não há criação sem ideologia, não há arte sem ideologia, não há ensino sem ideologia, não há gente sem ideologia", disse o escritor. Ele também afirma que em nenhum momento o edital do FMC proíbe manifestações políticas.

"O livro tem propósito. Sobre o que disseram de "ofensa" ao Bolsonaro, o que diriam dele ter chamado os manifestantes de 'imbecis úteis'?", afirmou o escritor, referindo-se a afirmação do presidente sobre as manifestações contra os cortes no Ministério da Educação. 

Confira a nota da FCCR na íntegra:

"A Fundação Cultural Cassiano Ricardo esclarece que os projetos do Fundo Municipal de Cultura (FMC) são analisados e pontuados por uma Comissão de Seleção Externa, cujos membros são indicados pelo Conselho Gestor, que gerencia os projetos de maneira independente e autônoma. Essa comissão faz a análise artístico-cultural e documental, promovendo uma ordem classificatória dos projetos apresentados, que serão viabilizados. O Conselho Gestor é responsável pela elaboração dos editais, fiscalização e homologação dos resultados.

No caso do livro de George Furlan, o projeto atendeu ao edital na linha artística de criação e publicação literária, sendo encaminhado para análise da Comissão sem o texto, apenas com o título e a sinopse que demonstrava tratar-se de uma obra voltada às observações sociais da atualidade. Diante desse contexto, a proposta literária foi aprovada.

O conteúdo final da obra chegou ao conhecimento da Fundação Cultural Cassiano somente após a publicação do livro. Nos próximos editais esse fato deixará de ocorrer porque constará que o proponente deverá entregar, antecipadamente, o respectivo texto, com a denominação de publicação de obra inédita em literatura.

O edital não prevê regra expressa que imponha uma conduta ao autor, o impedindo de se manifestar politicamente. No entanto, o autor é responsável por aquilo que escreve, arcando com as responsabilidades quando extrapola as regras da legalidade, por exemplo, quando atinge a honra ou calúnia alguém.

Diante dos fatos constatados na publicação, não haverá distribuição dos livros nas escolas públicas e bibliotecas municipais".