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Março 07, 2020 - 02:00

Brasil tem altas taxas de gravidez na adolescência

Governo Federal defende que jovem retarde o início da vida sexual como forma de prevenir gravidez precoce; saiba mais

Paula Maria Prado @paulamariaprado

A natureza humana envolve alguns mistérios. Se no início do século 20, as moças menstruavam aos 17 anos, hoje nem bem completam 12 e já menstruam. A razão para a redução da idade da menarca? Provavelmente a melhor nutrição das crianças.

Nos tempos de outrora, mulheres se casavam cedo - até mesmo antes da fase reprodutiva - e, ao menstruar, vinham os filhos, um atrás do outro, até a menopausa. Assim, mesmo com a alta taxa de mortalidade infantil da época, casais costumavam ter cinco ou seis filhos - sobreviventes.

No entanto, nos tempos atuais tudo mudou. Na chamada Era da Informática, casais passaram a planejar com cuidado o tamanho de suas famílias de olho no investimento necessário na criação de cada filho.

Já não há, inclusive, qualquer espanto quando a maternidade é deixada para os 40 anos de idade. No entanto, paradoxalmente, ao lado dos costumes dos novos tempos, seguimos convivendo com um antigo problema: a gravidez na adolescência - aliás, agravado pelo início precoce da fase fértil feminina.

Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 930 adolescentes e jovens dão à luz todos os dias, totalizando mais de 434,5 mil mães adolescentes por ano. Trata-se de uma das maiores taxas se comparada aos países da América Latina e Caribe.

Dados revelam ainda que a gravidez precoce traz consequências não só sociais e econômicas, mas de saúde. 15,3 óbitos são registrados a cada 1.000 nascidos vivos de mães jovens (até 19 anos), uma das maiores taxas de mortalidade infantil. Isso ocorre porque além da imaturidade biológica, condições socioeconômicas desfavoráveis influenciam nos resultados obstétricos.

Não à toa, os Ministérios da Saúde; Mulher, Família e Direitos Humanos; Cidadania; e Educação assinaram acordo para a construção de uma agenda intersetorial para os próximos quatro anos e um dos temas é a gravidez na adolescência.

A campanha "Tudo tem seu tempo", que visa educar jovens sobre sexo, tem como foco duas faixas etárias: de 15 a 19 anos e abaixo de 15 anos. Ela defende que o jovem retarde o início da vida sexual como forma de prevenção da gravidez.

"Estamos construindo um plano nacional de prevenção do sexo precoce. Essa ação é só o começo. Existem consequências graves, físicas e emocionais para o sexo antes da hora. Vamos fazer cartilhas, vamos para as escolas mostrar arte, música. Vamos cuidar das 'novinhas', e não apenas chamá-las para o sexo", afirmou a ministra Damares Alves, na época da coletiva do lançamento.

A DPU (Defensoria Pública da União) e a Defensoria Pública de São Paulo reagiram antes mesmo da divulgação da campanha e enviaram recomendação ao Ministério da Saúde e ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humano para que não a veiculassem.

O argumento principal é de que a defesa da "abstinência" como política pública não tem qualquer suporte científico, pelo contrário, pesquisas demonstram o quão ineficiente é esse tipo de campanha.

Ainda segundo as defensorias, a medida traz risco de desinformação entre jovens uma vez que não privilegia a orientação adequada em relação ao uso de métodos eficazes contraceptivos e que evitam doenças sexualmente transmissíveis.

Já Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, destacou também na coletiva a relevância da ação. "Isso é elemento de discussão, sim. Nós precisamos olhar os números e saber as consequências. É papel de todos que têm uma responsabilidade com os jovens e adolescentes criar uma consciência", afirmou. "O que se diz para uma criança assim [abaixo de 15 anos] a não ser 'tudo tem seu tempo'? Não é idade de medicalizar, de interferir. A discussão é complexa".

Biologia.

Mas, afinal, quando um corpo feminino está pronto para dar à luz? Segundo Maira de La Rocque, ginecologista e obstetra do hospital carioca Perinatal, tecnicamente, após a primeira menstruação, o corpo feminino está pronto para gestar pois seu ciclo hormonal está amadurecido.

"Porém, as meninas têm menstruado cada dia mais cedo, com 10, 11, 12 anos e, nessa época, psicologicamente e em termos de desenvolvimento corporal, a gente sabe que a menina não está completamente desenvolvida. Uma gestação tão precoce traz riscos tanto para a mãe quanto para o bebê", ponderou.

"Além dos prejuízos sociais e psicológicos, meninas de 12 e 13 anos têm maior risco de doenças como pré-eclâmpsia e parto prematuro, que afetam tanto elas quanto o feto. Os filhos de adolescentes têm ainda mais risco dos danos da prematuridade e de nascer com um peso abaixo do esperado", continuou.

Para a médica Rozeny Anute de Lima, ginecologista e obstetra da Unimed São José dos Campos, o corpo feminino só estará pronto de fato para uma gravidez na vida adulta, ou seja, após os 19 anos. "Este é o momento em que tanto a parte física quanto hormonal estarão preparados para dar suporte ao desenvolvimento fetal", afirmou.

Ainda segundo ela, são muitas as mudanças que ocorrem na gravidez. Mas quatro são as mais importantes: alterações emocionais, aumento do volume uterino, desenvolvimento mamário e adaptação do sistema musculoesquelético. "Na adolescência esses órgãos não estão ainda bem desenvolvidos. Isso pode afetar o desenvolvimento fetal e gerar mais desconforto materno", ressaltou.

Rede de apoio.

A médica pediatra Ana Fonseca alerta que, muitas vezes, mães adolescentes são negligentes com o acompanhamento médico durante a gestação, fator de riscos. "Uma mãe que não se cuida, não cuida do bebê", cravou.

Por outro lado, a especialista defende que diálogo, informação e suporte emocional são as "armas" para evitar a gravidez na adolescência. "Precisamos estar vigilantes e atentos sobre com quem os nossos filhos andam e onde estão", disse ela, que também defende a educação sexual.

"É preciso informar o jovem, responder suas perguntas e curiosidades. Eles precisam ser informados para se protegerem, precisam ter abertura para falar sobre sexo dentro de casa. Por isso creio ser tão importante criar mecanismos para informar, sensibilizar e fortalecer a rede de proteção em torno da criança e do adolescente".n

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