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Com Vale como epicentro, crise do desmatamento mostra Amaznia em chamas

Nesta semana, imagens do desmatamento e de queimadas na Amaznia percorreram o mundo, e causaram espanto; caso ser debatido no G7 e Bolsonaro promete combater crimes

Xandu Alves | a

 Tendo a RMVale como epicentro, a crise do desmatamento mostra a Amazônia em chamas e compromete a imagem do Brasil no exterior, colocando em xeque o comércio exterior.

Nesta semana, imagens do desmatamento e de queimadas na Amazônia percorreram o mundo, e causaram espanto. “A Amazônia precisa ser protegida”, apontou António Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas).

Ele afirmou estar “profundamente preocupado com os incêndios florestais na floresta amazônica” e que não se pode mais arcar com “os danos para uma das maiores fontes de oxigênio e biodiversidade”.

Mas essas foram as declarações mais amenas.

Na Europa, a política ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), apelidado de “presidente motosserra”, virou alvo de duras críticas dos principais líderes, que ameaçam retaliar no campo comercial.

O presidente da França, Emmanuel Macron, disse que Bolsonaro “mentiu” sobre seus compromissos com o meio ambiente e que a França vai se opor ao tratado de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul.

O acordo foi fechado em junho deste ano, após 20 anos de negociação, e chamado de “histórico” por Bolsonaro, mais ainda depende do aval do Parlamento Europeu.

As críticas feitas pelo presidente ao monitoramento do desmatamento da Amazônia feito pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que tem sede em São José dos Campos, repercutiram mal na comunidade internacional e ameaçam o acordo com a UE.

“Recebi telefonemas de apoio de cientistas e autoridades de mais de sete países, todos constrangidos com as críticas que o presidente fez ao Inpe, órgão que tem reconhecimento internacional”, disse Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe.

Ele foi demitido do cargo após confrontar publicamente o presidente Bolsonaro, que chamou os dados do Inpe sobre o desmatamento de “mentirosos”.  “Ao dizer que os dados eram mentirosos era um ataque ao Inpe, e absorvi esse ataque”, afirmou o cientista.

Além da acusação, a política ambiental do governo Bolsonaro também vem sendo colocada em xeque, especialmente por países europeus. Alemanha e Noruega suspenderam recursos ao Fundo Amazônia, acordo feito com o Ibama em 2014 com validade até agosto de 2020.

Com isso, os nove estados da Amazônia Legal já estão procurando os dois países para garantir os recursos. “O meio ambiente é a moeda econômica hoje. Ponto crítico. O governo quer controlar os dados de desmatamento porque há países que não compram soja e gado vindo de área desmatada”, disse Acioli Antonio de Olivo, pesquisador aposentado do Inpe.

Ex-ministro da Agricultura e um dos maiores produtores do país, Blairo Maggi disse, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que vê riscos para o agronegócio no discurso do atual governo em relação a questões ambientais. “Agro volta à estaca zero com discurso ambiental do governo”.

Desmatamento aumenta 50% na Amazônia em 2019

O desmatamento na Amazônia cresceu 50% em 2019, primeiro ano do governo do presidente Jair Bolsonaro. Os dados são do Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), o sistema rápido de alertas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), criticado por Bolsonaro e pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

A série anual do Deter de 2019 foi encerrada em agosto. O Inpe postou os dados no portal TerraBrasilis. O desmatamento em julho foi o pior mês da série histórica do Deter-B, com 2.254 quilômetros quadrados de alertas, alta de 278% em relação a julho do ano passado.

É mais do que o dobro do observado no pior mês do Deter até então, em agosto de 2016, que havia registrado 1.025 km².

De agosto de 2018 a julho de 2019 --desmatamento é medido em 12 meses--, o Deter viu 6.833 km² desmatados na Amazônia, contra 4.532 km² em 2018 --agosto de 2017 a julho de 2018.

A taxa oficial da destruição da floresta será dada no fim do ano pelo sistema Prodes (Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia), do Inpe. Os dados devem mostrar um desmatamento maior.

Isso porque o Deter é um sistema “míope”, que não é feito para calcular a área desmatada, mas sim para orientar a fiscalização do Ibama. “Para isso, ele faz detecções de desmatamento em tempo quase real, só que com resolução bem mais baixa que a do Prodes. Portanto, parte do desmatamento o sistema simplesmente não pega”, informou o Observatório do Clima.

“É claro que o Inpe trabalha com um conjunto grande de imagens que permitem ter a informação suficiente de onde os desmatamentos estão, em princípio não há necessidade de melhorar a qualidade dessas imagens”, completou Thelma Krug, cientista do Inpe.

Queimadas aumentam 82% no país e atingem parte da Amazônia, afirma Inpe

As queimadas no Brasil aumentaram 82% em relação a 2018, com 71.497 focos neste ano, de janeiro a agosto, contra 39.194 no ano passado. É a maior alta e também o maior número de registros em sete anos. Os dados são do Programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Cinco estados tiveram um maior aumento no número de queimadas desde o início do ano, ante 2018: Mato Grosso do Sul (260%), Rondônia (198%), Pará (188%), Acre (176%) e Rio de Janeiro (173%). Com exceção do Rio e Mato Grosso do Sul, os demais fazem parte do território da Amazônia Legal.

"As queimadas são todas de origem humana", disse Alberto Setzer, pesquisador do Programa Queimadas do Inpe.

DADOS.

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) lançou um edital nesta semana para contratar uma empresa privada que forneça dados de monitoramento do desmatamento da Amazônia. Segundo o órgão, a contratação servirá para encontrar "solução viável e operacional para atuação mais eficiente, eficaz, efetiva e com maior celeridade na gestão das ações de fiscalização.