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Do fundo do poço para a esperança: histórias de dependentes químicos que foram ao inferno do vício e voltaram à vida

Na guerra contra a epidemia das drogas, fé e ciência caminham lado a lado nesta cruzada contra a dependência química; Fazenda Esperança, no Vale, é um microcosmo dessa luta

Três dias longe da família, sem comer ou tomar banho, Tiago se jogou dentro de uma caçamba de lixo para fugir.

Mateus gastou todo o dinheiro da ceia de Natal e do presente da filha e sumiu por duas semanas. Sentiu vergonha ao voltar.

Ameaçada de perder a guarda do filho pequeno e o emprego de funcionária pública, Alexandra passou 10 anos vagando pelas ruas buscando a ilusão.  Osmir desmaiava e dormia em cima do balcão do próprio negócio, sem qualquer consciência de si mesmo.

Flertou a morte.

Os dramas acima são de pessoas diferentes, mas com uma paridade: relatos de dependentes químicos em recuperação no Vale do Paraíba.

Envolveram-se com alguma droga e destruíram a vida, cada um à sua maneira. Conheceram o fundo do poço e correram risco de nunca sair de lá. Hoje, enfrentam o desafio da sobriedade. Em quais recursos se apegam para superar o vício? O que é mais importante: a ciência ou a fé? São dimensões opostas? Complementares? Há confrontos?

Documento OVALE mergulhou na rotina de comunidades terapêuticas, acolhidos, médicos e religiosos para descobrir que papel a ciência e a fé exercem na recuperação.

LIXO.

Aos 29 anos, Tiago Reis chegou ao fundo do poço dentro de uma caçamba de lixo, em São Paulo, em 2018. Escondia-se da mulher e de amigos que o procuravam há três dias. Sem banho ou comida, vivia de drogas. “Minha esposa chorava muito, e eu já debilitado, não queria sair”.

A droga entrou cedo na vida de Tiago, que é de Potim. Na adolescência, seduziu-se pela criminalidade e foi preso aos 19. “Não vi meu filho nascer, não participei da criação”.

Tentando mudar de vida, casou-se e foi para São Paulo, mas as drogas voltaram. “Traficava e comecei a usar cocaína todo dia. Graças a Deus não conheci o crack”.

O episódio do lixo foi o fundo do poço. Depois dele, o irmão falou da Fazenda da Esperança, para onde Tiago veio em dezembro de 2018. “Chegando aqui, brigava com todos. Não conseguia entender o propósito da fazenda”.

A mudança veio quando entendeu que deveria aceitar os gestos de amor dos outros e fazer os próprios. “Não conseguia entender um homem falando que me amava. Não tinha muita fé. Mas aprendi a sair de mim mesmo, a viver pelo outro. Aqui, vi que Deus me ama e tem um propósito para mim”..

'Ciência percebeu algo de interessante na espiritualidade', declara psicóloga

Especialista em dependência química, a psicóloga Patricia Minari explica que o tratamento para deixar as drogas requer um conjunto de ações. Bom diagnóstico e avaliação clínica, interrupção do consumo, escolha do serviço mais adequado ao paciente (Caps, ambulatório ou comunidade terapêutica), presença da família, tratamento correto (medicamentoso, se necessários) e a espiritualidade. "São coisas que ajudam muito, como a pessoa ter uma rede de apoio ao redor dela. A espiritualidade é uma grande motivadora".

Patricia admite que já houve "muito conflito" entre ciência e fé, mas ambas têm se aproximado. "Tem que ver a diversidade do ser humano. Não sabe qual é a chave que vai virar [para deixar o vício]. A espiritualidade tem sido essa chave para muitos".

Psiquiatra defende tratamento médico e psiquiátrico, porém diz que fé pode ajudar

O tratamento da dependência começa com avaliação médica, conforme regulamentação. Investigam-se coração, rins, fígado, moléstias infecciosas, doenças psiquiátricas associadas e também aspectos sociais, ambientais e familiares, entre outros. "Objetivo é estabelecer um marco de início de uma fase de vida com perspectivas renovadas", diz a psiquiatra Márcia Gonçalves, professora e coordenadora de Psiquiatria, Psicopatologia e Psicologia Médica da Unitau (Universidade de Taubaté).

Defensora da "avaliação psiquiátrica antes e acompanhamento médico durante e após a abstinência inicial", a especialista reconhece o papel da fé ao lado da ciência, cada uma no seu papel e com objetivo de "reestruturar a vida da pessoa acorrentada às drogas".

Conversar com dependentes químicos é mergulhar no drama humano. O comum é a perda da dignidade, da identidade e de qualquer perspectiva de futuro.

No vício extremo, a vida perde o sentido. Não há sonho, só o próximo trago, a pedra seguinte, outra cheirada, o porre épico. As drogas retiram do ser humano a autoconsciência. O corpo urge o prazer imediato, que retirará todas as dores.

Mas elas voltam mais intensas e sombrias.

“Toda dependência é classificada como doença, há sinais e sintomas a identificar”, explica Patricia Minari, psicóloga de São José dos Campos e especialista em dependência química. “Como compulsão ou perda do controle, aumento da tolerância e síndrome de abstinência”.

Segundo a psiquiatra Márcia Gonçalves, professora e coordenadora de Psiquiatria, Psicopatologia e Psicologia Médica da Unitau (Universidade de Taubaté), há casos em que a dependência passa do limite de controle do indivíduo. “A vida do dependente já está em função do uso das drogas”.

Com o avanço do entendimento sobre a dependência, a pergunta a se fazer é: como eliminar o vício? O que é fundamental?

O franciscano de origem alemã Hans Stapel, um dos fundadores da Fazenda da Esperança em Guaratinguetá, uma das mais bem-sucedidas experiências de recuperação de dependentes no mundo, é taxativo: “Em primeiro lugar, a recuperação espiritual”.

Criada há 36 anos, hoje há 140 fazendas em 23 países, sendo 90 delas no Brasil, que ajudam mais de 3.500 pessoas, a maioria jovem, a deixar o vício da droga. O trabalho mereceu a visita do papa Bento 16, em maio de 2007, e uma mensagem do papa Francisco, em 2016. Em junho deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) conheceu o projeto em Guará.

Na ocasião, disse Frei Hans: “Deixem-nos ser como somos. Não tentem mudar e colocar normas”. Ele reclamava de eventuais obrigatoriedades em manter médicos e psicólogos nas fazendas, serviços que atende de forma pontual.

Para ele, a fé é o centro: “O problema dos dependentes é mais profundo, é espiritual. A droga é uma fuga. Vi como a palavra de Deus recuperava”.

Garantidas as avaliações médicas iniciais, afirmou Márcia Gonçalves, a fé e ciência coexistem na busca pela reabilitação, “cada uma dentro de seu momento, exercendo seus papéis. Quero acreditar que ambas estão a favor da evolução dos homens”.

Presidente da Comunidade Terapêutica Nova Esperança, com quatro unidades em São José, Dulce Paulino diz que a espiritualidade é parte da recuperação por fazer parte da vida. “Não colocamos crença, religião ou doutrina. Falamos de Deus, do amor e perdão”..

'Não tratamos o drogado, mas a pessoa', diz coordenadora

Natural de Sergipe e formada em matemática, Daniela Lima tornou-se voluntária da Fazenda da Esperança e viu nascer a vocação por seguir o trabalho na recuperação de dependentes. Em 2013, foi morar na fazenda de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, onde ficou por cinco anos e tornou-se responsável pela unidade. No começo de 2018, assumiu a fazenda feminina de Guaratinguetá e fez votos de pobreza, obediência e castidade, mantendo-se leiga. "Tinha o desejo de me casar, mas renunciei por amor a Deus e para viver esse amor a todos". Cuidando da unidade e de 60 mulheres, Daniela diz que foi conquistada pela espiritualidade da missão. "O carisma da esperança é o de acreditar sempre". Explica: "A gente não tratar o drogado, a prostituta. É a pessoa. Porque a essência é boa. Foi ser feliz na droga. Então é acreditar nessa essência".

Fazenda tem rotina de fé, labuta diária e comunidade

O dia começa às 6h para os 138 homens da Fazenda da Esperança de Guaratinguetá. De várias partes do Brasil, estão ali para aprender a viver sem drogas.

Há várias casas e cada uma abriga até 20 acolhidos. Todos trabalham: nas fábricas de água sanitária e madeira plástica, limpeza, cozinha, animais, jardim, horta. As fazendas são autossuficientes.

Além das visitas, as famílias assumem o compromisso de vender uma cesta mensal com produtos feitos na fazenda para ajudar na manutenção. Não há mensalidade.

O primeiro momento na manhã é de rezar o terço. Segundo Frei Hans Stapel, um dos fundadores, a fazenda não impõe a fé católica aos acolhidos. Oferece espiritualidade. “Deus é pra todos. Já tivemos experiência até com muçulmanos”, conta Hilário Rosa, 58 anos, um dos coordenadores da unidade de Guará e consagrado à Família da Esperança, comunidade reconhecida pela Santa Sé.  “Quem não tem religião faz sua meditação”.

Segundo ele, mais do que religião, a fazenda entrega amor, compartilhado por pessoas alquebradas pelas drogas e que faz a diferença na recuperação, baseada em espiritualidade, trabalho e comunidade.

O público é um microcosmo da sociedade. “Venho de uma família muito boa, bem estruturada”, diz Mateus Petrucelli, 23 anos, de Pindamonhangaba. “Sou funcionário público concursado em Lorena, onde morava. Estudei até o ensino médio e fiz um curso técnico”.

A droga entrou na vida na adolescência. Aos 18, foi pai e logo depois se separou da mulher, entrando em depressão e afundando nas drogas.

Depois de sumir por duas semanas no Natal e gastar o dinheiro em drogas, internou-se na fazenda em janeiro. Hoje vê a vida diferente. “Me tornei católico aqui. As pessoas vão te ajudando. Pregam muito o amor, o respeito. O recomeçar, perdoar sempre. Entendemos o carisma quando colocamos o amor em prática”.