Não depende só da minha caneta, diz Saud em balanço de 100 dias de governo

Em entrevista ao jornal, prefeito fala sobre as dificuldades para colocar em prática as promessas de campanha, sobre a situação financeira do município, o enfrentamento da pandemia e uma reforma administrativa, que deve criar cargos comissionados

OV: Antes de assumir, o senhor disse que a situação financeira da Prefeitura não estava ‘nada bem’. Passados pouco mais de 100 dias de governo, algo mudou?

JS: Nós conseguimos recuperar. Não foi muito, porque com a pandemia você não consegue ter uma arrecadação adequada, mas nós melhoramos um pouco a arrecadação e conseguimos pagar algumas contas atrasadas. Mas nós investimos muito daquilo que arrecadamos a mais na saúde, não tem outro jeito. Saúde foi o grande gargalo. Mas as dívidas que a gente tinha já estamos negociando quase que todas. Pelo menos em todas já sentamos e fizemos contraproposta. A última fiz na semana passada para a EcoTaubaté, a gente estava devendo R$ 16 milhões. Nós fizemos uma proposta de 30% de desconto, 20% desconto ou 10% de desconto em tantas parcelas, e eles vão fazer uma contraproposta agora.

OV: Uma das suas principais promessas de campanha foi economizar R$ 30 milhões nos primeiros 100 dias de governo, o que seria atingido cortando gastos com mordomias, como carro oficial, celular e cartão de crédito corporativo, e também revendo contratos. Essa economia foi atingida?

JS: Em janeiro e fevereiro de 2020 foi gasto R$ 121,5 milhões aqui. Janeiro e fevereiro de 2021, nós gastamos R$ 98,9 milhões. Então, nós tivemos uma menor despesa de R$ 22,5 milhões.

OV: Que cortes foram feitos para chegar nesses R$ 22,5 milhões?

JS: Todos os gastos que a gente tinha. Cortamos os carros, celulares, cargos que só fomos atribuindo mediante necessidade, 'n' coisas que nós fizemos dentro de um contexto. Aquela Flora Taubaté [contrato de jardinagem], por exemplo, demos uma segurada. Eventos, não fizemos também.

OV: Uma das promessas também foi fazer auditoria em todos os contratos. Isso foi feito? Foi identificada alguma irregularidade?

JS: Muita coisa estava errada nos contratos. Por exemplo: rampa, que tava no contrato que era para fazer de um jeito X, fomos ver e não estava da mesma forma. Notificamos a empresa, que tem que regularizar isso, não dá para pagar daquele jeito. Telhados de escola, fomos ver e não estava dentro do que foi colocado nos contratos. A própria ABC, sentamos com ela, com o promotor, para analisar todo o contrato dela, o que poderíamos alterar ou não. Tem perspectiva de colocar o Tctau, o transporte escolar para ajudar nos bairros. Foi um trabalho árduo nos contratos, olhamos todos, um a um. Tem contratos que destoavam da realidade, estamos revendo. Deixamos de forma resolutiva, ou seja, até abrir [nova] licitação, a gente mantém [esses contratos]. Aí abrimos outra licitação, com contrato novo, dizendo o que realmente a gente necessita.

OV: Ainda na parte financeira, o senhor disse que pagaria tudo o que a Prefeitura deve para o IPMT. Quando esse problema deve ser solucionado?

JS: Estamos fazendo os nossos pagamentos. O atrasado [de 2019 e 2020] não conseguimos mexer ainda. Tem um projeto na Câmara que vai mexer com isso [a majoração da alíquota de contribuição dos servidores, de 11% para 14%], e a gente está esperando se concretizar. Já conversamos com o IPMT, já realinhamos isso. Há uma possibilidade de estar trocando por propriedades da própria Prefeitura. Ou as indústrias que queiram vir para cá, que queiram uma área cedida, quem sabe conseguem pagar parte para o IPMT. Daí o terreno não fica de graça [para a empresa] e a gente consegue deixar o dinheiro para os funcionários.

O problema todo são os quase R$ 90 milhões do que tinha atrasado [da gestão anterior]. Não se paga assim de uma hora para outra. Estamos vendo a melhor possibilidade: parcelar, trocar por algum terreno. Tudo isso está sendo discutido com o IPMT.

OV: Passados mais de 100 dias do governo, o senhor ainda não ter o secretariado completo. Tem pastas com secretários interinos, como Administração e Finanças e também Esportes. E pastas sem secretários, como Mobilidade Urbana. Quando a equipe deve estar completa?

JS: Dia 20 [de abril] eu nomeio pelo menos três: Mobilidade Urbana, Meio Ambiente e Cultura. No Meio Ambiente deve ter uma bióloga, na Mobilidade deve subir o próprio diretor que está por lá, o Tiago [Oliveira Dias], e na Cultura eu queria fazer o que propus lá atrás, de ver se o Conselho [Municipal] coloca alguém para a pasta. Talvez nomeie o próprio presidente do conselho [Dimas de Oliveira], pois se foi escolhido por todos, é um bom nome.

OV: No Brasil, como um todo, o número de casos de Covid-19 aumentou muito esse ano. Em Taubaté, não foi diferente. Mesmo assim, no começo de março, quando todos os especialistas diziam que a situação ia piorar ainda mais, a Prefeitura chegou a ajuizar uma ação, pedindo para que Taubaté, que estava na fase vermelha do Plano São Paulo, pudesse ir para a fase laranja. A Prefeitura menosprezou o alerta dos especialistas?

JS: É uma questão de visão. Eu, por exemplo, sou a favor das empresas estarem abertas. Eu acho que isso melhora o processo do Covid, porque aí não tem aglomeração. Esses funcionários estão lá trabalhando, com todos os cuidados, atendendo 20%. Estou conseguindo segurar meus funcionários aqui, não estou liberando eles para ir para a praia, parques, praças. Eu enxergo dessa maneira. O que está errado é o governo [estadual] ingerir sobre o município. Essa conversa de não poder ter parque aberto, ora, o sol é uma fonte importante de energia, você precisa estar ali. Não pode estar dentro de casa o tempo todo, fechado, isso também vai causar outras doenças. Eu fiz [a ação] e faria novamente. No parque vai ser aberto à população inteira? Não. Põe 25% lá, mas com álcool. Se a pessoa não vai no parque, vai para a praia, e depois traz a doença para cá. Temos que segurar essas pessoas aqui. Eu sou favorável à abertura do comércio, não sou favorável ao fechamento. Mas com responsabilidade: álcool gel, máscara, atendimento personalizado, poucas pessoas.

OV: Se a situação piorar ainda mais, a Prefeitura tem como ampliar a estrutura de saúde?

JS: Para você ver: mesmo tomando essas atitudes de fechar tudo, piorou. Será que eu segurando as pessoas trabalhando, não ia melhorar? Eu preciso pensar mais abrangente, junto com a comissão do Covid, que a gente já conversou até sobre os parques estarem abertos. Nós abrimos 45 leitos novos. É muito leito. São 40 mil pessoas vacinadas. Vamos iniciar agora um trabalho com o Fussta (Fundo Social de Solidariedade de Taubaté), mais a Cozinha Piloto, de distribuir sopas nas áreas mais afastadas da cidade. Os médicos cada vez mais estão ficando mais caros. Como ele [o ex-prefeito Ortiz Junior] tinha fechado, no fim do ano [de 2020], leitos, mandou muita gente embora. Para recontratar, já estavam trabalhando em outras cidades, não queriam vir de jeito nenhum. Então, ficou mais caro trazê-los de volta. Há uma possibilidade de aumentarmos muitos leitos, fazendo uma parceria grande com as cidades de Campos [do Jordão], São Bento [do Sapucaí], Santo Antonio [do Pinhal]. Isso para nós faria toda a diferença, a gente sai dessa faixa crítica.

OV: Na campanha, o senhor disse que ia zerar a fila de exames, consultas e cirurgias em até 180 dias por meio de convênios com clínicas particulares. Até agora, não foi feito nenhum convênio. Essa fila, que tinha no ano passado 23 mil pessoas, vai ser zerada até o fim de junho?

JS: Já está pronto o edital. O problema está no seguinte: algumas dessas filas não vamos conseguir contemplar enquanto estiver com o Covid desse jeito. Nós precisamos de leitos para fazer cirurgia, e não tem. Catarata dá para fazer. Exames de colonoscopia, endoscopia, dá para fazer. Dá para fazer exames de cardiologia. Tudo isso a gente vai diminuir. Vamos abrir o chamamento para as empresas interessadas participarem.

OV: Para o AME de Taubaté ser enfim inaugurado, a Prefeitura precisa licitar um equipamento pro sistema de ar condicionado que custa R$ 380 mil. Por que isso ainda não foi feito?

JS: Também tem o cilindro de oxigênio, que a base é para cilindros pequenos, temos que aumentar para cilindro maior. Temos isso também como imbróglio. Mas eu fui conversar com o vice-governador [Rodrigo Garcia, do DEM], e ele falou que isso seria só para o segundo semestre, então estamos atendendo Covid agora. Quando for próximo do segundo semestre, fazemos aquilo lá e a gente libera de uma vez por todas o AME.

OV: Outra promessa que o senhor repetiu bastante na campanha era reduzir o ISS dos setores do comércio e de serviços de 5% para 2%, e diminuir a taxa de iluminação. Por que isso não foi feito até agora?

JS: A taxa de luz não conseguimos fazer ainda porque depende de projeto de lei. No caso do ISS, já existia. As empresas novas conseguem, daí não tem renúncia de impostos, a gente já faz com 2%.

OV: O senhor falou que depende de projeto de lei, mas por que o senhor não envia esse projeto à Câmara, para atingir todo mundo, como foi prometido?

JS: Nem tudo a gente consegue fazer, não depende só da minha caneta. Depende dos secretários, e a gente cobra deles. O projeto precisa ser bem pautado, precisa ter argumento, não é um negócio simples da gente fazer. Não é só chegar lá e dizer que quero isso. Tem que provar que isso realmente não vai trazer renúncia de receita, isso não posso fazer. Não é um negócio muito simples.

OV: Isso está sendo elaborado já?

JS: Já está sendo elaborado. Não deve demorar mais do que 30 dias para a gente estar com esse projeto inteiro na Câmara, para futura votação.

OV: A gente falou sobre pandemia, sobre iniciativas que podem ajudar as empresas. Uma das principais missões do senhor obviamente seria a retomada do crescimento econômico em Taubaté. Essa situação, que já era desafiadora, se complicou ainda mais esse ano, com o anúncio do fechamento da Ford e do fim da produção da LG. O que a Prefeitura tem feito?

JS: As empresas estão indo, boa parte, por conta de ações do governo [estadual]. O governo estadual aumentar o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) não foi fácil. Realmente complicou a vida de muitas empresas. A gente levou isso para o governador [João Doria, do PSDB], para vários secretários, mas disseram que não conseguem mexer nisso por enquanto. Isso é muito grave para nós como cidade. Nós tínhamos um investimento de uma malteria, de quase R$ 2 bilhões, e eles devem fazer no Paraná, por causa do ICMS alto [em São Paulo]. É uma coisa em que a gente vai ser prejudicado, e não depende da gente.

Nós estamos buscando uma indústria de fertilizantes. Ao invés de trabalhar com [indústria] automotiva, trabalhar com tratores. Estou buscando, de todas as formas, melhorar esse processo e fazer com que a cidade cresça. Mas ninguém quer vir para o Estado de São Paulo sabendo que tem ICMS mais alto do que tinha tempos atrás.

OV: Vocês, prefeitos, têm se mobilizado para cobrar isso?

JS: Sem dúvida. É uma discussão de todos os prefeitos. Tenho certeza que teremos prejuízos grandes, não é só aqui em Taubaté.

OV: O senhor também prometeu que a Zona Azul ia ter a primeira hora grátis no geral, e duas horas grátis perto de hospitais e igrejas. O que foi feito nesse sentido?

JS: Os caras [da empresa] ficaram bravos com isso. Disseram que não pode, que não está no contrato. Aí, em que termos chegamos na conversa: abrir algumas vagas para isso, de carga e descarga, que a gente não tinha. Já ajuda bastante. Foi uma das alternativas, mas mesmo assim não estamos contentes. Essa é minha intenção e vou lutar até o fim. É um contrato de 10 anos, você não consegue mudar tão fácil.

OV: O senhor prometeu implantar o plano de carreira dos servidores. Disse que ia tirar o projeto enviado pelo ex-prefeito à Câmara e enviar um novo projeto, corrigido, até fevereiro. O projeto anterior foi realmente retirado, mas nenhum novo foi apresentado. Por que isso ainda não foi feito?

JS: Já fizemos a Reforma Administrativa, já está pronta. Do plano de carreira já está sendo discutido. E tem uma terceira parte [a autonomia financeira para as secretarias], que também deve estar indo esse mês, mais tardar mês que vem, para a Câmara.

OV: Quais devem ser os principais pontos dessa Reforma Administrativa?

JS: Algumas coisas que já fizemos aqui, como trazer o Turismo para cá [deve fazer parte da estrutura da Secretaria de Desenvolvimento e Inovação]. A Secretaria de Educação tem um diretor só, não dá. Tem que ter mais diretores. No caso da Saúde também, que tem só um diretor e um gerente, não dá também. Precisa ter um para saúde básica, outro para hospitais. Cada secretário está mandando para a gente o que necessita, e estamos organizando. Desenvolvimento Econômico só tem um diretor e um gerente também, e temos que ter um do agronegócio, um do comércio, um de serviços, outro das indústrias. Não quer dizer que a gente vai contratar amanhã, mas tem que estar pronto isso e organizado para o futuro, para a gente entender que é necessário organizar a casa. Não dá para dar autonomia para um secretário, financeiramente, e ele passar a ser responsabilizado por estar assinando os cheques, e você não dar formas para ele trabalhar, ferramentas, pessoas.

OV: Então essa reforma deve criar cargos?

JS: A gente sabe que tem aquela lei do governo federal [que impede aumento de despesas com pessoal até o fim de 2021]. Nós vamos criar cargos e cortar outros. Já conversei com o promotor [José Carlos de Oliveira] Sampaio sobre isso, e o mais importante é a gente não aumentar as despesas, isso a gente não quer.

OV: Após o senhor ser eleito, disse que queria mudar a sede da Prefeitura para outro prédio da Unitau, com acessibilidade. Depois, passou a dizer que a Prefeitura construiria uma nova sede. Como ficou isso?

JS: Dia 22 agora temos uma reunião do Consuni (Conselho Universitário) para definir isso. Eles estão vendendo aquele prédio [do Departamento de Informática]. O prédio da Unitau em Ubatuba demorou três anos para ser vendido. Em três anos [de aluguel no Departamento de Informática], a gente faz toda a diferença em um prédio novo, com menos gastos, e aí todo mundo fica contemplado. Tem um terreno ao lado, da Corozita, e eles vão ceder para nós, para que a gente utilize de forma gratuita. A gente muda esse ano.

OV: Sobre a escola cívico-militar, alguma novidade?

JS: Isso deve sair no primeiro semestre, a assinatura, e no segundo semestre a gente já tem um aval de começar a escola cívico-militar, desde que nós tenhamos o aval dessa pandemia.

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