Para especialistas, cálculo político faz prefeitos defenderem afrouxar regras de quarentena

Para analistas políticos ouvidos pela reportagem, prefeitos que têm defendido flexibilizar regras de isolamento social tentam se aproximar do eleitorado de direita de cada município, polarizando o debate

Analistas políticos ouvidos pela reportagem foram unânimes: prefeitos que defendem medidas contrárias às recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo governador João Doria (PSDB) buscam radicalizar seus discursos, visando a eleição municipal de 2020.

A pedido do jornal, cientistas políticos, cientistas sociais e consultores políticos avaliaram a atuação de prefeitos que têm buscado afrouxar as regras de quarentena, abandonando a defesa de medidas rigorosas de isolamento social e passando a defender a retomada de atividades comerciais não essenciais.

“O tema acabou virando uma discussão onde esses assuntos dividiram direita e esquerda, apoiadores do [presidente Jair] Bolsonaro e críticos do presidente. Dessa forma, um conceito muito trabalhado dentro do marketing político, chamado de ‘inimigo único’, ficou ainda mais evidente, onde políticos miram seus adversários criando discursos paralelos e antagônicos como forma de ocupar o espaço deixado pelo concorrente”, disse Fernando Ivo Antunes, cientista político especialista em marketing político. Antunes ressaltou que, em cenários polarizados, são os extremos que se fortalecem. “A defesa do isolamento ou da reabertura de comércio irá dominar a primeira imagem que o eleitor fará dos pré-candidatos ou dos políticos que já possuem cargo”.

Para o cientista social Leandro Blanque, alguns prefeitos estão radicalizando seu discurso “de forma a polarizar e politizar a discussão, ao adotar uma postura que soa bem às classes médias altas e às elites econômicas”, aproximando-se de posturas adotadas pelo presidente, de olho em seu eleitorado.

Para a cientista política e social Dora Soares, a postura desses prefeitos é motivada pela pressão de empresários e do setor econômico. “Os prefeitos, pressionados pelo imediatismo econômico legitimado pelo presidente da República, são hoje reféns da hipocrisia antidemocrática: governar em defesa da saúde e do futuro ou em aliança com a ignorância e a selvageria capitalista. Mal sabemos se realmente teremos eleições, mas a possibilidade de ameaça da perda de cargos compromete sim a postura e decisões dos prefeitos”, analisou. “É hora de saber quem realmente é um líder político e quem tem apenas fome de poder”.

Já a consultora política Gil Castillo afirmou que, nesse momento, é fundamental que os governantes tenham clareza nas medidas que pretendem adotar. “O que temos visto, inclusive num nível mundial, é que quanto mais claramente o líder se posiciona na definição das políticas públicas, melhor a sua aprovação. Quanto mais confusas, com vais-e-vens, mais ansiosa e insegura fica a população”, disse. “Se o número de casos de Covid-19 aumentar e houver sobrecarga no sistema de saúde e no sistema funerário", ponderou, "nenhum prefeito estará imune de sofrer impactos. Sua postura a cada passo dessa história é que vai determinar a imagem global na hora das eleições”.

Prefeitos negam motivação política na defesa da flexibilização do isolamento

Em todo o estado, cerca de 60 municípios criaram decretos para tentar afrouxar as regras de quarentena. Na região, alguns exemplos foram São José dos Campos, Ilhabela, Guaratinguetá, Pindamonhangaba e Campos do Jordão.

Principal defensor da retomada de atividades comerciais no Vale, o prefeito de São José, Felicio Ramuth (PSDB), disse discordar da análise feita pelos especialistas ouvidos pelo jornal.

O tucano afirmou que “associar uma questão como está ‘a um cálculo político’ é desrespeitar o trabalho de toda a equipe técnica envolvida desde o início com o acompanhamento e desenvolvimento das estratégias de combate à pandemia do coronavírus”. Felicio disse ainda que “a proposta de isolamento seletivo apresentada pela prefeitura foi elaborada com informações e dados comprovados cientificamente, com o objetivo principal de preservar vidas e fazer o melhor para a cidade”.

Marcus Soliva (PSB), prefeito de Guaratinguetá, também negou motivações políticas nas medidas de flexibilização adotadas na cidade – e, posteriormente, suspensas pela Justiça a pedido do Ministério Público. “O sistema drive thru [no comércio] está permitido conforme deliberação do comitê administrativo de combate ao Covid-19 do Estado de São Paulo. Em relação aos salões e barbearias, os mesmos haviam sido autorizados com normas de higiene e segurança sanitária, permitindo inclusive uma fiscalização mais adequada da vigilância sanitária em relação a essas atividades”.

Presidente do Codivap (Associação dos Municípios do Vale do Paraíba), o prefeito de Jacareí, Izaias Santana (PSDB), também negou motivação política no caso. “O principal motivo da discordância de um isolamento e de regras uniformes de paralisação de atividades econômicas no Estado de São Paulo decorre da convicção de que a situação do avanço da pandemia é diferenciada na nossa região. A situação da taxa de isolamento deve ser diferenciada, ainda, de acordo com a categoria da cidade (cidade industrial deve ter um parâmetro; cidade litorânea deve ter outro parâmetro)”, afirmou. “Além disso, temos uma estrutura hospitalar ociosa, com taxas ainda baixas de ocupação de enfermaria e de UTI. Portanto, os critérios que justificam essa rigidez quanto ao isolamento da Capital e da Grande São Paulo não estão presentes na nossa região”.

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