'O dragão da corrupção não deve voltar', diz arcebispo de Aparecida

Arcebispo Dom Orlando Brandes pregou na missa da Padroeira do Brasil e falou de violência, corrupção e ecologia

Xandu [email protected] | @jornalovale

Pregador da missa de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro, no Santuário Nacional, dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, disse que a "impunidade está voltando" e defendeu o combate à corrupção no país.

"Deveríamos salvar a Lava Jato, porque ali estamos vencendo o dragão da corrupção, que não deve voltar."

Em entrevista, ele ainda falou de violência, ecologia e da pandemia. Confira.

Na missa, o senhor falou em despir-se de idolatria, de armamento e de idolatrar pessoas autoritárias. Foi um recado ao presidente Bolsonaro?

Não, é o próprio Evangelho. Precisamos nos desarmar de tudo. Estamos com o espírito muito armado. Temos que desarmar para viver uma vida de paz e fraternidade, e não de ódio. Nosso papa tem falado muito, o mundo gasta muito com armamentos, quando deveria gastar mais com questões sociais, o pão na mesa e a dignidade das pessoas. Então, é algo mais amplo do que a nossa realidade.

E a idolatria?

O culto à personalidade significa a divinização das pessoas, e não é muito bom, porque cria fanatismo dentro de nós e não temos a capacidade de ver o ponto de vista do outro. Tudo tem que ser conforme o ídolo que criamos internamente. Esses ídolos existem nas religiões, na política, na economia. Isso tira o lugar de Deus e da fraternidade. No fundo, um governante tem a missão de caridade social. O papa fala em amor social. Com divinização não é possível ter esse amor social.

Como vê as fake news?

É universal. Estamos nesse caminho. O pai da mentira não é Deus, mas o maligno. Sob o ponto de vista teológico, a questão da mentira, das fake news, nos tira do foco da verdade, que deveríamos ter para trazer soluções políticas e econômicas para o nosso povo. As fake news vão criando ódio, separações e raiva.

E a impunidade?

Quanto à impunidade aqui, com tudo o que aconteceu com a Lava Jato, está claríssimo que a impunidade está voltando e nós deveríamos salvar a Lava Jato, porque ali estamos vencendo o dragão da corrupção, que não deve voltar. Não somos dignos de sermos escravizados pela corrupção. A repressão foi forte, mas o poder é escravizador e ainda se faz presente num momento como o nosso.

A corrupção é o 'dragão' que precisa ser vencido no Brasil?

Há dragões, dragões bravos, que querem matar a vida, mas Maria vence com a força da palavra. E nós também iremos vencer esses dragões. E um que está voltando, muito feio, se chama impunidade, com isso a corrupção vai continuar e não teremos vida econômica suficiente.

Há queimadas recordes no pantanal e na Amazônia. É urgente falar do meio ambiente e das mudanças climáticas?

Sem dúvida nenhuma. O próprio Deus criou todas as coisas. A palavra de Deus criou todo esse jardim e transformamos esse jardim num deserto. É preciso urgentemente solucionar essas questões até para o bem da economia do Brasil. Muitas pessoas estão deixando de investir aqui, porque é preciso mais fidelidade em relação à ecologia, ao meio ambiente e ao saneamento básico. Encontramos Deus nas criaturas e na criação. As criaturas são a primeira bíblia, que nos falam de Deus. Temos a consciência mundial de que todos os povos precisam preservar a Terra, para não sermos os destruidores do planeta. É uma questão urgente. Vivemos na Igreja Católica um ano inteiro dedicado à encíclica 'Laudato si' (em português: 'Louvado sejas'), do papa Francisco, que é toda sobre a beleza da ecologia. O papa diz que a Terra se tornou um grande lixo, mas ainda há tempo de recuperar a vida planeta.

Mesmo com a pandemia, muitas pessoas vieram ao Santuário. Como o senhor vê essa fé?

O povo tem um carinho muito grande por Aparecida e, vindo aqui, se enche de alegria e paz e volta para a casa com o desejo de ser melhor. Isso está dentro do coração das pessoas. Mesmo com dificuldade por essa pandemia eles vieram. O povo tem essa sede e fome. O ser humano precisa de uma mãe, e Deus foi tão bom que nos deu Maria por mãe, e isso responde muito ao nosso psiquismo, à realidade humana. Já são 300 anos de uma história bonita, os milagres do passado e as curas, conversões e mudanças de vida que escutamos todos os dias. O povo está com saudade do Santuário. É o coração que move os pés dos peregrinos.

Como é celebrar com poucos fiéis no Santuário Nacional?

A Igreja celebrou desde março com a Basílica vazia, só os bancos. Eu nunca falava para os bancos, mas para as pessoas. Ajuda pensar em quem está do lado de lá, e não esperar somente a presença. Muitos padres estranharam a ausência dos fiéis, pois tudo se torna mais frio. Estamos muito alegres, mesmo com menos pessoas, esperando que isso termine. E que volte a multidão do povo de Deus.

Cuidar da saúde é ato de fé?

O olhar e um bom dia são acolhimento, grande gesto de solidariedade e respeito ao outro. Se não sou valorizado, me sinto rejeitado. Isso cura muito. E quando falamos em cura, é o bem estar físico, espiritual e social. O Santuário tem essa visão global.

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