Historiadora vê com preocupação aumento de grupos antidemocráticos e diz que não devem ser confundidos com conservadores

Com mestrado em História do Brasil e doutorado em História Social, a professora e historiadora Maria Aparecida Papali, da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), de São José dos Campos, vê com preocupação o crescimento de movimentos antidemocráticos no país, e mais ainda a aprovação e apoio a esses grupos por parte do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“Governo Bolsonaro endossa milícias antidemocráticas”, disse ela em entrevista a OVALE, na qual fala sobre o atual momento do país, a relação com a ditadura e o apoio do governo a grupos extremistas.

Há algum paralelo do momento que vivemos hoje com outro momento do país?

Vivemos hoje um momento mais específico. Em nenhum momento tivemos facções, como hoje, que trabalham com a perspectiva do ódio, de grupos fascistas de verdade. É muito singular. A questão que antecedeu o golpe de 1964 era um contexto diferenciado, havia a Guerra Fria e no país um movimento de politização que trazia uma distinção entre direita e esquerda, como acontece hoje.

Mas hoje, para além dessa questão de polos opostos, temos um movimento armado, temos milícias que podem chamar de neofacistas que estão impregnadas do ódio, da violência, de um fechamento do sistema, milícias antidemocráticas. Está acontecendo com maior proporção nos dias de hoje, o que é preocupante. Acho que temos que abrir os olhos em relação a isso.

Já viu isso antes?

Na minha interpretação da história do país, nunca vi um contexto em que tivéssemos milícias associadas a essa construção fascista, da violência, isso é preocupante.

Essas milícias se sentem representadas no governo?

Isso é que torna tudo mais preocupante ainda. Existe um endosso presidencial, um endosso do governo para isso. Tem no poder um governo que endossa e está de acordo e que vai ao encontro de manifestantes que são a favor do fechamento do Congresso. É extremamente contraditório. Essas pessoas se manifestam, e a manifestação é um ato legitimado pela democracia. Só a democracia permite que as pessoas se manifestem. Elas fazem manifestação para que tenhamos uma ditadura, o fechamento do Congresso. E o presidente vai e endossa, cumprimenta essas pessoas. Isso é perigoso.

As pessoas usam a liberdade de expressão que a democracia dá para pedir o fim da liberdade de expressão?

Totalmente contraditório. As pessoas não percebem que é um ato negacionista um do outro. Utiliza o direito de se manifestar para pedir a intervenção e o fechamento disso.

Qual o papel do presidente?

Deveria ser algo supervisionado, verificado, mas o que percebemos é o contrário. Isso está sendo aplaudido pelo atual governo. Estamos passando por um momento tenso, um cenário preocupante. A sociedade precisa se unir em favor da democracia.

O comunismo virou obsessão?

É paradoxal. O regime que essas pessoas defendem é o mesmo de governos comunistas autoritários.

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