Com 'explosão' de casos e mortes, cientistas questionam relaxamento e se pico da doença já foi atingido

Para medir pico, cientistas indicam número de novos casos e óbitos diários por Covid-19, taxa de contaminação e registros de Síndrome Respiratória Aguda Grave, todos em alta

Xandu [email protected] | @jornalovale

As melhores experiências internacionais e nacionais de enfrentamento à Covid-19 apontam que medidas de relaxamento devem ser tomadas quando o número de casos estiver em queda. Ou seja, após o pico de infectados e mortos.

Mas quando se chega ao pico da doença?

Essa é a dúvida que leva gestores a precipitar a flexibilização em meio à curva ascendente de casos e óbitos em decorrência do coronavírus.

No mundo, cidades e países recuaram após abrir atividades econômicas diante de aumento dos casos confirmados, o que ameaçava colapsar o sistema de saúde.

Em São Paulo, o governo desistiu de manter regiões do interior na fase 3 (flexibilização) do Plano São Paulo de 'retomada consciente' depois que a doença cresceu. A RMVale, que chegou a ser cotada para passar da fase 2 (controle) para a 3, foi mantida no mesmo patamar por causa de aumento de internações e de óbitos.

Cientistas brasileiros apontam três fatores que devem ser levados em conta para identificar quando uma região chegará ao pico dos casos. E é preciso analisar cada região separadamente, em razão de características diferentes da epidemia no mesmo território.

A partir daí, segundo especialistas, gestores devem programar um gradual relaxamento do isolamento, mas não antes.

"Não existe uma epidemia única no Brasil. Temos uma pandemia composta por diversas epidemias locais, com padrões diferentes", disse o médico Márcio Sommer Bittencourt, do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo), em entrevista à BBC.

FATORES.

Os cientistas dizem que é mais fácil identificar o auge da pandemia quando ela já foi superada e houve redução consistente de fatores cruciais. Um deles é o número de novos casos e mortes por dia.

Enquanto esses números estiverem crescendo, não dá para dizer que o pico foi superado. E a queda não pode ser pontual e deve se manter por pelo menos duas semanas, período de incubação do vírus.

"Isso ainda não aconteceu no Brasil", afirmou Domingos Alves, professor da Faculdade Medicina da USP em Ribeirão Preto e colaborador do portal Covid-19, que monitora a pandemia no país.

No Vale, o número de novos casos por dia bateu recordes nas últimas duas semanas, com os maiores números desde o registro dos primeiros casos, em 18 de março.

Entre 2 e 5 de junho, a região começou a registrar números elevados de novos casos de Covid-19 diariamente: 128, 125, 159 e 146, batendo os recordes da pandemia.

Na última semana, porém, os casos cresceram ainda mais: 157, 158 e 237, recorde absoluto até o momento.

A estatística ficou prejudicada em razão do feriado de quinta-feira (11) e a emenda de sexta (12). Por causa disso, diversas prefeituras não atualizaram os dados da doença.

O segundo fator é a taxa de reprodução do vírus (Rt), que indica quantas pessoas em média são infectadas por alguém que já está contaminado.

Quando o índice estiver se aproximando de 1, mais próximo se está do pico da epidemia. Ultrapassar esse ponto exige Rt abaixo de 1 por um período consistente. No país, o Rt continua acima de 1, o mesmo na RMVale.

Para Raul Borges Guimarães, coordenador do Laboratório de Biogeografia e Geografia da Saúde da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Presidente Prudente, o interior paulista enfrenta uma aceleração nos casos e óbitos, o que não "justificaria o enfraquecimento do isolamento social".

O terceiro fator são os casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), indicador que ganhou importância em razão dos poucos testes de Covid-19. Esses casos são notificados oficialmente desde a epidemia de H1N1 em 2009.

De acordo o Portal da Transparência de Registro Civil, a quantidade de óbitos por SRAG cresceu 14 vezes no país em 2020 na comparação com 2019, até 12 de junho. Em São Paulo, o aumento foi de 9 vezes. No Vale, as mortes saltaram 383% no período.

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