Arquivos e testemunhas revelam histórias de medo e perseguição no Vale nos tempos da ditadura militar

Xandu [email protected] | @jornalovale

A sombra do autoritarismo, com ameaças à ordem democrática em 2020, reabrem feridas de um passado doloroso, de um dos períodos mais dramáticos da história brasileira, e que deixou cicatrizes profundas no Vale do Paraíba.

Viver na região durante a ditadura militar (1964-1985) era perigoso. Uma simples reunião de bairro poderia ser alvo de investigação do temido Dops (Departamento de Ordem Política e Social), órgão do governo que tinha a função de disciplinar a ordem no país.

Centenas de pessoas da região foram fichadas pela repressão e tiveram seus movimentos monitorados. Sindicalistas, políticos, estudantes, professores, líderes comunitários, artistas comerciantes e até militares.

"Tivemos várias pessoas perseguidas, presas, torturadas e alguns morreram ou tiveram sobrevida curta. Era traumático. Não participei na luta armada, mas na luta política, e fui perseguido e preso", diz o jornalista Luiz Paulo Costa.

PERSEGUIDOS.

No Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo), a "filial" paulista do órgão de repressão, milhares de documentos foram produzidos para acompanhar os subversivos.

Na região, um dos mais perseguidos foi Francisco Moreno Ariza, morto em 2003. Ele foi sindicalista atuante na década de 1950, em São José, que chegou a vereador e depois vice-prefeito, em 1962. Ariza foi preso duas vezes em 1964 para averiguação, ficando cinco dias detido. Foi indiciado, ao lado de outros "suspeitos", pela famigerada Lei de Segurança Nacional.

"Recebe correspondência dos países da Cortina de Ferro (URSS, Cuba, China, Tchecoslováquia)", diz o relatório da repressão sobre o sindicalista.

Ariza foi levado para a Base Aérea de Santos, juntamente com Costa, que na época trabalhava no então CTA (Centro Técnico Aeroespacial).

Mais de 100 dias depois da detenção, sofrendo pressão psicológica e física, os dois foram encaminhados à sede do Dops em São Paulo. Sem um inquérito contra si, Costa foi liberado. Ariza, não. "Ele ficou por ter feito uma viagem à União Soviética. Ariza foi o mais perseguido pela ditadura no Vale do Paraíba", relata Costa.

Na lista dos documentos do Dops, de pessoas e entidades investigadas na região, encontra-se de quase tudo: sindicatos, associações, escolas, organizações de classe, partidos políticos e faculdades.

RESISTÊNCIA.

Em São José, Pedro Lobo de Oliveira, 88 anos, orgulha-se de ter resistido ao estado de violência e assegura que daria a vida pela democracia.

Policial militar da reserva, banido da corporação, ele foi um dos fundadores da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), centro da resistência comandado pelo capitão Carlos Lamarca.

"O partido era contra a luta armada, mas vendo a incapacidade em se conquistar a democracia por vias pacíficas, tivemos que pegar em armas."

VERDADE.

Apresentado pela Comissão da Verdade da Câmara de São José, no ano de 2014, relatório do Centro Comunitário de Segurança do Vale, ligado ao Ministério da Aeronáutica, de 1983, mostra que empresas e militares trocavam informações sigilosas sobre a rotina de lideranças e trabalhadores que atuavam no Vale durante a ditadura. "Estamos fazendo um resgate histórico contra a ditadura militar", disse a vereadora Amélia Naomi (PT), que presidiu a Comissão.

ARQUIVOS.

Em Taubaté, gente do calibre de Monteiro Lobato tinha ficha criminal no Dops.Outros famosos também: Hebe Camargo e Renato Teixeira. O mesmo ocorreu com políticos conhecidos, como o prefeito da cidade nos anos 1950, Félix Guisard Filho, o presidente da Câmara, José Geraldo de Oliveira Costa, e o ex-prefeito Jaurés Guisard.

Esses políticos, ao lado de outras 30 ilustres moradores da cidade, foram considerados 'perigosos' por ter participado da '1ª Semana Monteiro Lobato' em 1953, quase cinco anos após a morte do escritor.

Os agentes passaram a seguir todos eles dali em diante.

Era a sombra da opressão.

Movimentos antidemocráticos preocupam perseguidos pelo regime e especialistas

Quem viveu a ditadura se preocupa com movimentos antidemocráticos que têm apoio do presidente Jair Bolsonaro. "Violência contra negros, mulheres e indígenas é estimulada pelas declarações do presidente", disse o ex-vereador João Bosco da Silva, de São José, perseguido durante a ditadura. Preso e torturado, o jornalista Luiz Paulo Costa disse que a democracia precisa ser defendida. "Não foi consolidada". Presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira vê ameaça no "aumento de seguimentos conservadores e reacionários". "Hoje temos um movimento armado, milícias, que podemos chamar de neofacistas e que estão impregnadas do ódio", diz a historiadora Maria Aparecida Papali.

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