Queda no isolamento e avanço de casos deixa porta aberta para lockdown em São Paulo

Xandu [email protected] | @jornalovale

A tempestade se anuncia.

O Vale do Paraíba enfrentará, nas próximas duas semanas, a mais dura batalha contra o coronavírus, segundo avaliação do Comitê de Contingência do Coronavírus em São Paulo feita a OVALE.

Com o pico dos casos se aproximando, a região tornou-se foco de preocupação do governo estadual e pode ser incluída até mesmo em uma eventual situação de bloqueio completo, o temido lockdown.

Se hoje a medida não está no radar, ela já surge no horizonte, e não é especulação.

"O ritmo de mortes no interior, em seis regiões [incluindo o Vale], já é superior do que a Região Metropolitana de São Paulo. Todas as cidades paulistas acima de 15 mil habitantes já tem o coronavírus. Os números vêm crescendo no interior", disse o Marco Vinholi, secretário estadual de Desenvolvimento Regional.

Principal interlocutor do governo estadual com prefeitos do interior, Vinholi disse que o feriado prolongado na Grande São Paulo, que começou na quarta (20) e segue até segunda (25), visa aumentar o isolamento, hoje em 49%, e evitar o lockdown.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), já trabalha com a possibilidade de anunciar o bloqueio total caso o superferiado não surta efeito.

"Tentamos evitar a medida extrema, mas se os índices crescerem, seremos obrigados a adotar o lockdown", disse.

BLOQUEIO.

Segundo o Estado, as condições para um lockdown são a combinação de queda no isolamento, alta de casos confirmados de Covid-19 e de mortes e aumento da taxa de ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

O Vale atende aos requisitos.Porta aberta para o lockdown?

A taxa de isolamento na região, que já teve sete cidades entre as 104 paulistas com maiores índices, caiu para apenas duas nesse patamar.

As demais estão abaixo da taxa mínima de 55% apontada pelo Comitê de Contingência do Coronavírus.

O número de casos confirmados de Covid-19 no Vale aumentou 177% em maio, passando de 572 para 1.582 em 21 dias. No mesmo período, as mortes passaram de 32 para 70, alta de 119%.

Quanto à ocupação de leitos de UTI, poucas cidades divulgam o dado regularmente.

Em São José dos Campos, que tem 37% dos casos do Vale, os leitos destacados para atender a pacientes com Covid-19 estão com 63,7% de ocupação -- dado de 21 de maio. Há um mês, o índice era de 18%.

No mesmo período, os leitos de enfermaria passaram de 18,6% para 46% de ocupação, segundo dados da prefeitura.

Em Taubaté, a ocupação de leitos de UTI estava em 35% na última quinta-feira (21), aumento comparado aos 30% de 21 de abril. No mesmo intervalo, os leitos de enfermaria caíram de 40% para 18%, mas com subida na comparação com 1º de maio (10% de ocupação).

"Faremos todo esforço possível para evitar o lockdown. Se pudermos evitar com ações, medidas e solidariedade das pessoas, melhor. Evitar a medida extrema representa respeito e atitude, mas se não tivermos solidariedade, os índices crescerem ainda mais, seremos obrigados a adotar o lockdown. Esforço nesses dias [de feriado prolongado] no estado para evitar medidas mais duras e mais restritivas",disse Doria.

FALÊNCIA.

Para o médico Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan e coordenador do Comitê de Contingência do Coronavírus, o lockdown seria adotado para evitar a falência do sistema de saúde, quando a quantidade de leitos não for mais viável para atender a demanda.

Ele cobra isolamento da população para evitar chegar a esse quadro, que não é irreal, como ele mesmo admite.

"A população terá oportunidade de fazer a sua parte, mostrar que o vírus pode ser mantido e circunscrito na sua circulação. Dias de batalha intensa contra o vírus.".

Segundo ele, se a população demonstrar que os índices de isolamento podem aumentar a valores próximos de 60%, "estará demonstrando que podemos reverter essa luta".

Ele admite que "estamos perdendo, mas podemos passar a equilíbrio e passar a vencer".

"O Centro de Contingência reúne os melhores especialistas do país em contato com os melhores do mundo para enfrentar a pandemia. E a única forma para vencer é restringir a circulação do vírus. Mantendo o vírus sob controle, acuado e não permitindo que circule. Esforço enorme para que medidas mais duras [como lockdown], que prejudicarão a todos, não sejam necessárias."

RMVALE.

A opinião dos especialistas, no entanto, não é compartilhada com os principais mandatários da região, um dos principais focos de resistência à quarentena.

Em São José, o prefeito Felicio Ramuth (PSDB) segue na defesa de flexibilizar a quarentena e prega que a cidade tem uma situação diferenciada das demais, o que permitira o relaxamento, dentro de regras e monitorado, segundo ele.

Felicio defende um isolamento seletivo. "Defendo abertura de outras atividades com segurança e responsabilidade. Acompanhando os números e resultados, podemos fazer diferente aqui na cidade", disse.

'Medida será inevitável em São Paulo se isolamento não subir, segundo pesquisa

Projeções feitas com modelo matemático desenvolvido na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) indicam que o lockdown no estado de São Paulo será inevitável caso o nível de isolamento social não suba nas próximas semanas. Segundo os pesquisadores, se for mantida a taxa de contágio -- número de pessoas para as quais um infectado transmite o vírus--, observada nos 30 dias anteriores a 10 de maio, o estado terá, no final de junho, 53,5 mil novas infecções por dia. O cálculo foi feito com dados reais de crescimento de casos no último mês, que indicam uma taxa de contágio de 1,49 para o estado. No final de abril, cada 100 paulistas infectados transmitiam o vírus para quase 150 pessoas, em média.

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