'Doença é cruel: família não pode visitar e nem vê quando morre'

Em primeira pessoa, o médico anestesista Gabriel Tamiasso, 33 anos, que atua no Hospital Municipal de São José, conta a angústia de ver sua própria mulher passar pela Covid e do enfrentamento da doença na UTI do hospital

Gabriel Tamiasso | @jornalovale

Médico em São José | @jornalovale

Essa doença não tem ideologia, ela ataca todo mundo. É gravíssima, cruel e faz com que a família não possa visitar o doente, pelo isolamento. Nem depois, caso tenha um desfecho ruim. É uma doença que ataca a todos. Muito agressiva. Tivemos pacientes que faleceram em minutos. Ela traz muita limitação e o paciente passa a ter necessidade de cuidados.

A pessoa morre com falta de ar fora do cenário hospitalar. No hospital, temos os recursos e cuidados para tratar, como respiradores. A pessoa acaba morrendo de outras coisas, como parada cardíaca, pressão muito baixa, rins parando de funcionar, paciente com disfunção do pulmão e que começa a fica muito doente, AVC. Muitos pacientes têm agressões em múltiplos órgãos, o que resulta num quadro irreversível.

Na última semana de março pareceram os primeiros pacientes aqui, com muita falta de ar. Diferente de outras doenças, nessa há muita falta de ar. Ela é mais agressiva, atinge outros órgãos, como rins e cérebro, causando AVC.

Não é só o idoso que agrava. Cuidei de pacientes de 16 anos a gente com 100 anos. A doença ataca todos eles. A diferença é que o jovem tem mais reserva e capacidade de enfrentar a doença, mas ela não faz distinção. Temos visto mais pacientes e mais pessoas com quadros graves da doença, mas estamos muito bem equipados aqui em São José.

Minha esposa é médica e também está no HM, na linha de frente, e no começo de março ela teve a doença. Ficamos de isolamento mais de 14 dias em casa. Eu não senti nada. Foi muito angustiante e ela ficou internada. Ninguém está preparado para isso. Tinha a preocupação de não vê-la mais. Ela ficou bem, teve alta quatro dias depois. Isso me marcou muito e continuo tendo todos os cuidados, porque é um vírus novo e pode ter mutações. Não é porque teve a doença que pode ficar despreocupado..

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