'Fiquei pensando até onde seria enterrada. Temi pela minha vida'

Falando em primeira pessoa, a médica anestesista Adriana Delega Lami, 49 anos, narra a angústia de ter contraído Covid-19 e ficado 19 dias internada na Santa Casa de São José: 'Não é uma gripezinha qualquer. Você fica no chão'

Adriana Delega LamiMédica de São José dos Campos | @jornalovale

Ao descobrir que estava com coronavírus fiquei muito preocupada, foi difícil, principalmente por ser médica. Sabia das complicações e uma delas seria a de ter que ser entubada, ficar no respirador, precisar fazer uma traqueostomia, fora que poderia ter comprometimento renal. Quem é da área médica sabe que tudo pode piorar numa UTI. Também se pode pegar outras infecções e comprometer o quadro.

A ida para a UTI é a parte mais angustiante. Na enfermaria, tem o celular, televisão, tem algum contato com o mundo externo, mas na UTI não pode mais. Eu fiquei mais preocupada por saber que meu marido também estava com a doença.

Na UTI, no coronavírus, o contato é bem pouco com enfermagem e médicos, eles só vem para o extremamente necessário, e todos com os equipamentos de proteção.

Fica com um pouco de frio e não pode colocar cobertor por causa da febre. Escutava que outros pacientes estavam complicando e pensava: 'Serei a próxima?'.

Temi pela minha vida.

Fiquei pensando até onde seria enterrada. Só rezava e pensava. Como cheguei a ponto de ser entubada, pensei que poderia morrer.

Foi até agora o pior episódio da minha vida, nada se compara a isso. Principalmente por ter passado tudo praticamente isolada, longe da família e amigos. Passei tudo: dor, medo, desconforto, desespero, tudo ao mesmo tempo e ainda não me recuperei. Estou há mais de 40 dias do início dos sintomas e fico cansada com qualquer esforço um pouco maior. A doença é muito grave.

Algumas coisas vão mudar na minha vida, tenho que me cuidar mais, mais atividade física e até ter tempo para minha família, os amigos. Isso não há o que pague. Nos momentos em que estive angustiada, depois soube que muitas pessoas estavam rezando por mim, até amigos que não via há anos.

Tem que arrumar tempo para vê-los, de qualquer maneira. São os amigos e a família que fazem a vida valer a pena. Vou diminuir meu ritmo de trabalho e me cuidar e conseguir ver todo mundo que amo.

As pessoas devem se cuidar, se proteger, manter as medidas de higiene, sair de máscara, todos os cuidados recomendados pela saúde.

O isolamento é muito importante, porque a doença não é brincadeira. Quando é grave, é desesperador. Não é gripezinha qualquer não. Você fica no chão. O quadro pode se agravar de uma hora para outra.

Estou em recuperação na minha casa, mas me sinto cansada, tenho feito fisioterapia três vezes por semana e novos exames. Não estou recuperada.

As pessoas estão minimizando a doença, não levam a sério o isolamento em muitos lugares. Muitos podem morrer..

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