'Coronavírus matou o meu irmão, mata as pessoas que nós amamos'

Em primeira pessoa, Wagner Carvalho fala sobre o sofrimento vivido pelo irmão, vítima da Covid-19; aos 39 anos, William Carvalho foi a terceira morte pela doença em São José, ocorrida 20 dias após o rapaz começar a passar mal

Wagner Carvalho Irmão de vítima da pandemia | @jornalovale

Meu irmão ia fazer 40 anos em maio. A mulher dele fez aniversário em janeiro. A vida deles estava muito bem, tinham quitado a casa e meu irmão sonhava em ser pai.

Ele não viajou para nenhum lugar e nem saiu de São José nos últimos tempos. Quando o governo decretou a quarentena, ele começou a trabalhar em home office. Não apresentava sintomas antes disso.

Em 23 de março, ele foi para o hospital. Estava com falta de ar e febre que não caía.

Foi tratado como suspeito de coronavírus e ficou em isolamento. Veio para casa, mas continuou mal.

O quadro piorou e ele voltou ao hospital no dia 27. Estava muito ruim. No dia 28, foi para a UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) devido a complicações respiratórias. Chegou a ser entubado.

Ele conversava com minha tia pelo celular e mandou uma mensagem a ela dizendo que estava muito cansado.

Ele chegou a ser tratado com cloroquina e havia a expectativa de que estava melhorando, mas não tínhamos ideia da gravidade. Meu irmão foi confirmado com Covid-19.

Informações diziam que ele estava reagindo bem ao tratamento. Ele estava melhor e com exames bons. No dia 30 de março, complicou de novo e continuou piorando.

Minha tia disse que ele não conseguia falar e a situação era preocupante. Os rins pararam de funcionar e iria começar a fazer diálise.

Ele foi piorando até morrer em 12 de abril, às 10h30, quando o coração dele parou.

Ficamos muito preocupados com a situação. Não tínhamos ideia do que era a doença. A cloroquina estava sendo bem falada e esperávamos que o medicamento reagisse nele, e ficamos com esperança. Mas o quadro só foi piorando. Médico disse que a morte foi pelo vírus que complicou o pulmão.

Não dá para menosprezar a doença. A começar por mim. Cheguei a não acreditar nisso. Mesmo as coisas que as pessoas pensavam. Parei de assistir televisão, muita informação pesada. Mas são informações verídicas. Tudo ocorreu muito rápido com meu irmão.

Passei a me cuidar mais depois dessa experiência. O que circula muito é dizer que o coronavírus só ataca pessoas do grupo de risco, mas atacou e matou meu irmão.

O que magoou muito foi a fake news dizendo que ele tinha ido para a China. É revoltante. As pessoas têm que acreditar na seriedade dessa doença. Ela mata quem amamos. Não é um problema menor nem pequeno..

 

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