Felicio: São José está 'preparada', mas população deve ficar em casa

Em entrevista ao 'Gabinete de Crise', quadro especial criado por OVALE, o prefeito da maior cidade da RMVale destaca importância do isolamento social e anuncia reforço na fiscalização, além de falar sobre leitos e fake news

Caíque Toledo e Thaís [email protected] | @jornalovale

Sétimo andar do Paço Municipal. Direto de seu gabinete, o prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB), se prepara para reunir o alto escalão de seu governo, para mais um encontro do secretariado que vai debater ações de combate ao novo coronavírus.

Na estreia da série 'Gabinete de Crise', você verá os principais detalhes do planejamento do Poder Executivo de São José para evitar um colapso no sistema de saúde.

- Autoridades sanitárias apontam que a pandemia atingirá seu pico no Brasil entre a segunda metade de abril e o início de maio. São José está preparada para enfrentar esse período mais crítico?

São José tem 3,8 leitos de UTI por cada 10 mil habitantes, tanto somando os leitos públicos e privados. Lembrando que a nossa cidade tem 60% dos usuários do Sistema Único de Saúde da rede pública e 40% da rede particular. Então sim, nós acreditamos estamos preparados para poder enfrentar esse momento de pico.

- Há leitos suficientes? Há falta de respiradores e outros equipamentos de primeira necessidade?

Todos os leitos de UTI têm respiradores. Como disse, nosso índice, indicador, mostra que será suficiente. Além disso, a gente preparou planos B, C e D, de utilização de áreas públicas que já possuem infraestrutura. Muita gente me cobra, fala sobre os hospitais de campanha, e a gente tem uma linha aqui que a gente quer aproveitar todo o investimento dessa crise para ficar na cidade. Então se a gente contrata um hospital de campanha daqueles com barraca, com container, a gente vem, paga, depois ele vai embora, acaba a crise -- e ela vai acabar, a pandemia vai acabar, um dia ela vai acabar. Então a gente quer que esses investimentos fiquem na cidade. Estamos investindo todos os recursos em áreas que nós já possuímos para poder melhorar e adaptar essas áreas.

- O achatamento da curva de crescimento do contágio do vírus é tido como fundamental para que o número de infectados diminua, evitando um colapso no sistema de saúde. Em entrevista coletiva, o secretário de Saúde de São José afirmou que teremos um crescimento rápido nos números, em razão da chegada dos exames, e informou que haverá reforço nas ações de isolamento. Como será esse reforço? Por que ele é tão vital?

Hoje a nossa equipe de fiscalização, a equipe da Guarda Civil, a gente percebeu que no final de semana passada já houve um relaxamento em relação à questão do isolamento social, nós vamos ser mais rigorosos com a fiscalização. São duas frentes: uma da Guarda Civil, cuidando de evitar esses agrupamentos de pessoas. A gente já viu a volta de fluxos em todos os bairros da cidade, bairros nobres, bairros mais nas pontas da cidade, então nós já mapeamos. Esse final de semana, ainda mais por ser um feriado, nós vamos estar atentos para evitar que aconteça. Sempre a gente tem que atuar antes de acontecer, depois que tem aquele aglomerado de jovens é muito difícil dispersarmos, então nós vamos fazer isso. Sobre a fiscalização de comércios e atividades, a fiscalização é que cumpre esse papel com uma equipe também reforçada, principalmente ao longo dessa semana e do final de semana.

- Qual, na sua avaliação, tem sido o maior obstáculo ao isolamento, tido como arma mais eficaz até aqui contra a proliferação da doença?

Acredito que do ponto de vista das pessoas, quanto mais o tempo passa, mais difícil fica as pessoas se manterem. Na realidade, é uma realidade que as pessoas não estavam acostumadas e está todo mundo aprendendo um pouco como fazer isso. Tem a questão até psicológica, né. O que a gente diz é o seguinte: é importante que as pessoas fiquem em casa, mas sair para dar uma volta, uma caminhada, pegar um sol, sem aglomeração, é permitido. Deve até ser feito, mas com cuidado para não tocar nos equipamentos públicos, não tocar em postes, não sentar em bancos, não usar as academias, não usar o parquinho de diversão com seu filho. Nós já fizemos placas em todos os equipamentos públicos, mas ainda sim tem gente que insiste e acaba utilizando. Então fica em casa, e quando você tiver que sair para dar uma voltinha, o faça, pegue o sol e volta direto para casa.

- Recentemente, após a Justiça ter liberado a gratuidade para idosos no transporte público, o senhor fez uma postagem com críticas à atuação do Judiciário e do Ministério Público na crise. Como o senhor avalia a atuação deles?

O que eu previa aconteceu. Nesta segunda-feira dobrou o número de idosos andando de transporte público, lamentavelmente, era o que a gente previa. Lembrando que a gente já tinha autorizado para questão de saúde, questão social, isso eles tinham o direito de ir, mas não para ficar passeando pela cidade. A Justiça atrapalhou com essa decisão, mas nós cumprimos a decisão. E, infelizmente, essa visão é uma visão, ao meu ver, incorreta por parte da justiça. Pode até ser que do ponto de vista jurídico, das leis, ela seja, claro, correta, imagino que sim, por isso que a juíza tomou essa decisão. Mas do ponto de vista prático, do dia a dia da cidade vivendo esse momento de pandemia, era momento de ter uma outra análise a respeito dessa situação. A gente cumpre o que determina.

- Além da pandemia do coronavírus, a crise deixa clara a capacidade de impacto de outra epidemia: a das fake news. Como o senhor analisa o impacto dessas notícias falsas no combate ao Covid-19?

No início a gente percebeu um volume gigante de notícias falsas, de fake news. Uma demanda tão grande quanto cuidar da pandemia, era cuidar das fake news. Parece que estão diminuindo, parece que a população está mais consciente e as próprias pessoas que estavam divulgando e fazendo essas fake news já perceberam a atuação da prefeitura. Tinha gente que dizia que tinha gente morta que a prefeitura não falava, a gente não tem nenhuma intenção disso. Era todos os dias uma informação incorreta e ainda num ano eleitoral, que é um ano complicado, porque tem muita gente que quer levar vantagem eleitoral em uma crise como essa, e não é esse o caminho. Então, de fato, é muito duro, a gente continua ainda tendo as fake news, apesar de que na minha opinião diminuiu um pouco. O conselho para o cidadão é que ele use canais de comunicação e informação com o que a gente chama de credibilidade, que é o caso de OVALE.

- Como funciona o 'gabinete de combate à crise', a estrutura emergencial criada para essa guerra?

Fomos umas das primeiras cidades a criar o comitê de combate à crise com um grupo de especialistas. Nessa semana vou fazer a primeira reunião aqui, junto com o comitê, porque eles têm uma independência, né. Mas vou fazer uma reunião com eles, até para agradecer por todo esse período de trabalho intenso. Além disso, as reuniões constantes com o nosso secretário de saúde, Doutor Danilo, e as nossas reuniões de secretariados, às segundas-feiras, são voltadas exclusivamente quase aos temas e como cada secretário pode atuar melhor para nos ajudar, já que essa questão da crise, da pandemia, perpassa todas as secretarias, todos estão envolvidos, assistência social, educação, enfim, todos têm que trabalhar juntos.

- O presidente Jair Bolsonaro tem defendido a flexibilização do isolamento, citando a existência de uma dicotomia entre economia ou saúde. O senhor acredita que exista essa dicotomia? Como avalia a condução da crise pelo Planalto?

Desde o começo já externei minha colocação, a gente vê o presidente falando muito sobre determinadas linhas, mas na prática não fazendo nenhum ato Executivo que aponte para outro caminho. A gente tem o ministro da saúde, o Mandetta, o qual a gente segue as regras do Ministério da Saúde. Então, me parece que ele tem tido, vamos dizer, a nota dele está desafinada em relação ao que a própria equipe dele pensa. A gente está seguindo o que o Ministério da Saúde preconiza e determina e a nossa quarentena determinada pelo governo do Estado, pelo governador João Doria.

- Que medidas podem ser tomadas em São José em apoio ao comércio e empresas?

A gente já tomou algumas medidas, que foi a flexibilização do pagamento do ISS, ampliamos em 90 dias o ISS do autônomo, a taxa de licenciamento, a taxa de renovação da Vigilância Sanitária. Então, do ponto de vista produtivo, a gente conseguiu estender esses pagamentos todos. Além disso, tem o Banco do Povo, que é uma parceria do município com o governo do Estado, onde a gente tem o juros muito baixo, e agora aumentou a carência e o juros abaixou ainda mais, se não me engano, 0,35% ao mês para o pequeno empresário. Além disso a gente viu os apoios federais, agora com o R$ 600 para o autônomo, desse programa federal que é muito bem-vindo e vai ajudar também a cidade. Por fim, a ajuda que é feita através até da sociedade civil em parceria com o fundo social, em relação a cestas básicas, a condição mínima necessária para a população. De fato, o foco agora é a gente resolver o problema da saúde e depois, eu não tenho dúvida nenhuma, que o governo municipal, estadual, federal, em conjunto, vai encontrar soluções para a área econômica e comercial. Nós não vamos ter crescimento esse ano, mas a questão vai ser minimizar o impacto dessa crise de saúde na vida das pessoas do ponto de vista financeiro, econômico. Com certeza será uma segunda crise, que se dará após a gente resolver, no dia seguinte da resolução da crise da saúde. Mas não tenho dúvida de que esse trabalho não pode parar, precisa ficar claro que todos os esforços têm que ser da mesma forma que foi feito e focado, na questão da crise da saúde para a gente poder trabalhar essa crise econômica financeira.

- Qual sua orientação para o munícipe no combate à pandemia?

Esse é o momento de a gente ficar em casa, sair somente se necessário, principalmente os idosos, as pessoas com doença crônica, se cuidar. A cidade está preparada sim, mas você tem que fazer sua parte. A gente conseguiu ir muito bem até agora por conta de você, você está fazendo sua parte, continue assim e insista mais um pouquinho que a gente precisa dessa paciência para que você possa nos ajudar a combater essa pandemia, que é mundial e que São José dos Campos passará por isso sendo exemplo, mais uma vez, assim como em outras áreas. Obrigado pelo seu comprometimento e vamos juntos se esforçar mais um pouquinho para que a gente consiga passar esses últimos dias e poder em breve voltar nossa vida normal.

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