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Ampliação do desmatamento põe em risco acordo do Mercosul e União Europeia

Postura do governo Bolsonaro em criticar dados do Inpe que apontam aumento do desmatamento da Amazônia foi criticada por líderes na Alemanha e na França e pode ameaçar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia

Da redaçã[email protected] | @jornalovale

O aumento do desmatamento na Amazônia e a maneira como o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) lidou com os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre o desmate na floresta colocam em xeque o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.

Chamado de "histórico" e de "um dos mais importantes de todos os tempos" pelo presidente, o acordo ainda não foi assinado e depende de aprovações do Parlamento da União Europeia, formado por 751 deputados.

Mais de 22% das cadeiras pertencem a parlamentares da Alemanha e da França, dois dos países que têm intensificado as críticas à política ambiental brasileira.

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No último fim de semana, o governo alemão anunciou a suspensão de repasses de cerca de R$ 150 milhões para iniciativas de proteção ambiental. E também estuda retirar seus aportes ao Fundo Amazônia, que trouxe R$ 3,4 bilhões ao Brasil.

Ao seu estilo, Bolsonaro ironizou a declaração: "Pode fazer bom uso dessa grana. O Brasil não precisa disso". Ele também chamou as notícias sobre desmatamento de "sensacionalistas".

Segundo os dados do Inpe, o desmatamento da Amazônia alcançou 2.254,8 km² em julho deste ano, o que representa um aumento de 278% frente ao volume de desmate apurado em julho do ano passado, de 596,6 km².

Produtores rurais na França criticaram o acordo em razão de as leis ambientais dos países do Mercosul serem "mais frouxas". Na Alemanha, membros do Partido Verde, que já formam uma das principais bancadas do país, ameaçam bloquear o avanço do tratado. O principal argumento é o crescimento do desmatamento na Amazônia.

Revista britânica vê ameaça de 'colapso ecológico' na Amazônia

A revista britânica The Economist, de alcance global, publicou em sua edição do começo de agosto uma reportagem sobre a Amazônia. Na capa do periódico, a manchete: "Relógio da morte para a Amazônia". No texto, a revista afirma que a região da floresta está "perigosamente perto do ponto de inflexão", do qual não haveria como retornar. "O Brasil tem o poder de salvar a maior floresta tropical da Terra, ou destruí-la", escreve a publicação, em editorial, que responsabiliza o presidente por um futuro "colapso ecológico": "Bolsonaro está acelerando o processo".

'Tem que ratificar o nosso método', afirma diretor interino do Inpe aos pesquisadores

O diretor interino do Inpe, o militar da reserva Darcton Policarpo Damião, disse a pesquisadores do instituto, na última sexta-feira, que será preciso "ratificar" o método de trabalho na instituição quanto ao monitoramento do desmatamento da Amazônia. Ele também atribuiu a uma "pane de comunicação" entre o Inpe e o governo. Disse que a situação foi "muito mal conduzida de lado a lado".

"O Inpe é uma organização de excelência e vai continuar fazendo com excelência. Não temos que nessa 'querela' [entre o governo e Galvão]. Isso é um problema para fora daqui. Aqui dentro a gente tem que ratificar o nosso método", disse Damião, destacando que será preciso "trabalho de comunicação", de "convencimento".