Logo Jornal OVALE

OVALE Entrevista: 'Inpe é a pedra no sapato deles', diz ex-diretor do Inpe sobre gestão Bolsonaro

OVALE conversa com Ricardo Galvão, diretor demitido do Inpe após embate com o presidente Jair Bolsonaro; ele defende o trabalho do instituto e a ciência: 'Não há autoridade acima da dignidade do conhecimento científico'

Xandu [email protected] | @xandualves10

Na tranquilidade do lar em São José dos Campos, Ricardo Galvão, 71 anos, admite: "Foram as semanas mais tumultuadas da minha vida. Provação seria mais correto".

Ele se refere aos dias após o confronto público com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) no qual defendeu o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a própria honra. Acabou demitido do cargo de diretor do Inpe 13 meses antes de terminar o mandato.

O presidente chamou de "mentirosos" dados do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia e sugeriu que Galvão tivesse ligação com ONG estrangeira, com interesse em prejudicar o Brasil.

Nesta entrevista, Galvão fala da repercussão de seu embate, do Inpe e vê posição 'obscurantista' no governo.

Que atividade o sr. terá após o Inpe?

Sou professor titular na USP (Universidade de São Paulo) e estava comissionado no Inpe. Vou retornar à USP.

O sr. viveu os dias mais tumultuados da carreira?

Definitivamente, foram as semanas mais tumultuadas da minha vida e da minha família. Provação seria o termo mais correto. Na minha idade, nunca imaginaria que iria ter o embate que tive com o presidente da República, e não pensava que haveria consequências tão amplas.

Já atendeu quantos jornalistas?

Parei de contar quando passou de 20.

De quais países?

México, Estados Unidos, Portugal, Holanda e Inglaterra.

Arrepende-se?

De nada. Sei que tive atitude contundente contra o presidente, mas não foi por emoção. Esperei um dia depois que vi a entrevista dele [Bolsonaro]. Esperei o ministério [da Ciência e Tecnologia] entrar em contato, uma mensagem de apoio ao Inpe. A maneira como ele [Bolsonaro] colocou nos colocava numa posição que não poderia voltar atrás, pois seria uma derrota.

Por quê?

Se ele falasse que havia dúvidas nos dados do Inpe, que deveria melhorar, isso é normal na ciência, estamos acostumados. Mas ao dizer que os dados eram mentirosos era um ataque ao Inpe, e absorvi esse ataque. Quem produziu os dados foram cientistas de altíssimo nível do Inpe e [o presidente] os estava acusando de crime de falsidade ideológica. É acusação grave. Tem havido na comunidade muitas ações de compliance e esses cientistas do Deter não fazem só isso. Eles publicam em revistas internacionais e são editores de publicações. A Thelma Krug é vice-presidente do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], tem reputação internacional. Apontar crime de falsidade ideológica em público a essas pessoas e me acusar de estar a serviço de ONG foi muito forte. Tinha que marcar a posição e agir com contundência. Estava indignado.

Faltou apoio do Ministério da Ciência?

Me senti desamparado. Procuramos o ministério desde janeiro. Em março tive reunião no ministério e avisei que esse embate com o [Ministério do] Meio Ambiente iria causar sérios danos ao Brasil. Mandei ofício para que se abrissem canais de comunicação entre Inpe, Ibama e os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura, e que o Inpe estava disposto a mostrar os dados e até a desenvolver ferramentas, mas não tive nenhuma resposta. O presidente me acusa e não há nenhuma manifestação do ministério em 24h. Me senti desamparado. O ministério é que teria de se sentir incomodado de um dos seus institutos de pesquisa estar sendo atacado.

Pressentiu esse embate?

Sentia que haveria embate e tinha preocupação com isso. Em 2008, o Inpe teve embate com o então governador Blairo Maggi quando o Inpe disse que o Mato Grosso era o estado que mais desmatava. Naquela época, só para dizer que a questão não é ideológica, o [ex-presidente] Lula estava meio contra o Inpe, mas tínhamos alguém como a Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente. Ela marcou uma reunião com todos os lados e o presidente, sob pressão dela, mandou fazer um sobrevoo nas regiões nas quais o Inpe apontava desmatamento, e ficou provado que o Inpe tinha toda a razão. Porque o atual governo não fez isso dessa vez? Porque desde antes da posse eles viam o Inpe como pedra no sapato, contra os interesses deles.

O confronto era iminente?

Não diria um confronto direto com o Inpe, mas uma intenção clara de tentar esconder dados do desmatamento da Amazônia. Dizer que queria contratar empresa para substituir o Inpe é um absurdo.

E a reação da comunidade?

Fiquei felicíssimo, não esperava reação tão forte de toda a comunidade científica. A Academia Brasileira de Ciência e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência enviaram, antes do entrevero, quando o general [Augusto] Heleno e o [Ricardo] Salles criticaram o Inpe, um ofício ao ministro Marcos Pontes [Ciência e Tecnologia] e ele não respondeu, se omitiu.

O presidente tem permissão para falar o que quiser?

O primeiro telefonema que recebei de solidariedade foi de um brigadeiro da Aeronáutica da ativa, dizendo do constrangimento dele ao ver a entrevista do presidente fazendo aquela acusação infame ao Inpe. No próprio ambiente que o presidente circula há pessoas de altíssimo nível, como generais, que devem estar incomodados. Não sei quantos enfrentam o presidente. Os militares têm firme essa questão de hierarquia e não contestam. Mas, no Inpe, somos comunidade científica e não há nenhuma autoridade acima da dignidade do conhecimento científico.

(*) Nesse momento da entrevista, Galvão conta que recebeu um telefonema de apoio de Marina Silva. “Ela me telefonou e conversamos por mais de 50 minutos”.

O episódio fortaleceu a defesa da ciência no país?

Sem dúvida. Essa reação aconteceu e é uma verdade muito clara. Já havia insatisfação grande com a maneira de o governo tratar a ciência, principalmente escutando alguém como o anticientista Olavo de Carvalho, que não deveria dar conselho a nenhum governo sério. Minha resposta contundente abriu uma fronteira forte e desencadeou essa reação. Recebi mensagens até do exterior, congratulando na defesa da ciência e da veracidade.

O que espera da área científica nesse governo?

Sou republicano. Temos presidente eleito e espero que todo esse embate faça com que ele mude o posicionamento. Primeiro quanto às mudanças climáticas, mais a preservação da Amazônia e as ciências. Há muitas besteiras. Ele tem que mudar esse relacionamento, e espero que o faça para que propostas boas do governo vinguem, senão não vai resistir à reação da sociedade.

As mudanças que o governo quer fazer nos dados do Deter fazem sentido?

O que tem sido feito é dar desculpa para não tomar ação que deveria na fiscalização da Amazônia. Não podemos esquecer que o Deter foi utilizado pela Marina Silva para reduzir a taxa de desmatamento entre 2004 a 2012, que foi enorme e deu um grande prestígio ao país, ajudou a vendar mais agroprodutos com selo verde. Isso ocorreu porque Ibama e Meio Ambiente fizeram a fiscalização. Não fazê-la é economicamente muito prejudicial ao país.

Espera que teorias como a da “terra plana” surjam no governo?

Acho que não vai. Embora o presidente e seus filhos tenham posicionamento obscurantista e anticientífico, que não é só no país, mas está espalhado pelo mundo, há no governo pessoas como o [Marcos] Pontes, o ministro da defesa [Fernando Azevedo e Silva], que são de alto nível e nunca iriam apoiar se o governo fosse nessa direção.

BIOGRAFIA

Ricardo Galvão tem 77 anos e graduou-se em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense, em 1969. Obteve mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas, em 1972, e doutorado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em 1976.

Foi diretor do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), entre 2004 e 2011, e presidente da SBF (Sociedade Brasileira de Física), entre 2013 e 2016.

Professor titular na USP (Universidade de São Paulo), Galvão é pesquisador do Laboratório de Física de Plasmas da USP, onde realiza pesquisas na área de fusão nuclear.

Atuou como professor da Unicamp, entre 1971 e 1982, e na USP desde 1983, onde atualmente é professor titular. Paralelamente, atuou também como pesquisador pelo Centro Técnico Aeroespacial, de 1982 a 1986.

Em setembro de 2016, ele assumiu a direção do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), sendo demitido em julho de 2019 após embate com o presidente Jair Bolsonaro.