Ideias

Cristiane Prizibisczki - Inpe: Quando um novo diretor já não será mais relevante

Cristiane Prizibisczki, Jornalista formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), alumni da Universidade de Cambridge
26/09/2020 às 01:48.
Atualizado em 24/07/2021 às 13:50
Inpe (Divulgação)

Inpe (Divulgação)

Desde a retirada de Ricardo Galvão da direção do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em agosto de 2019, a expectativa da comunidade científica - de dentro e fora do Instituto – sobre sua substituição definitiva tem sido cada vez pungente.

A espera pela chegada de um novo diretor definido a partir de processo com critérios inicias técnicos, por meio de lista tríplice, vem envolta na esperança de que essa pessoa traga um futuro melhor ao tão combalido Instituto.

Mas, passados 13 meses da saída de Galvão, o Inpe já está desmontado.

Sob demanda do ministro Marcos Pontes e sem ouvir a comunidade científica efetivamente, o diretor interino do instituto, Darcton Damião, já promoveu uma profunda mudança interna e o INPE perdeu sua característica organizacional horizontalizada, natural nas instituições de pesquisa e necessária para a troca de conhecimento, para se tornar um órgão cheio de hierarquias, típico das instituições militares.

Além disso, o órgão, que desde 2016 vem perdendo verbas sistematicamente, já funciona com parcos recursos. Foram apenas R$ 118 milhões em 2020, o menor valor em 15 anos. O orçamento previsto para 2021, então, vai dar só pra pagar conta de luz: R$79,7 milhões, uma queda de 32,5% diante do orçamento de 2020. O montante é só um pouco maior do que o Governo Federal destinou inicialmente para um mês de operações do Exército nas ações da GLO (Garantia da Lei e da Ordem) na Amazônia.

Soma-se a esse massacre físico, a campanha difamatória contra o INPE que vem sendo promovida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus correligionários desde o início do novo governo. Ao acusar o INPE de fornecer dados “mentirosos” e com “viés ideológico”, ao mesmo tempo que fortalece e propagandeia iniciativas paralelas de monitoramento do desmatamento e queimadas, a exemplo do Censipam, do Ministério da Defesa, o governo Bolsonaro trabalha para descontruir a credibilidade que o Instituto tem aos olhos da sociedade.

Neste contexto, vale a reflexão: ainda que o novo diretor seja escolhido por critérios técnicos, que força ele terá dentro do Governo Federal para mudar esse quadro tão desolador que já vive o Instituto?

Para mudar o futuro do Inpe, não basta um novo diretor. Vai ser preciso um novo presidente.

* Jornalista formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), alumni da Universidade de Cambridge

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