Cristiane Prizibisczki - Clima de insegurança reina entre servidores do Inpe

Cristiane Prizibisczki*

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) vem sendo duramente atacado pelo Governo Federal desde meados de 2019, quando vieram à tona dados que indicavam uma alta no desmatamento da Amazônia no período, mas o golpe mais pesado aconteceu na última semana, quando a restruturação interna do Instituto, gestada desde outubro passado, veio à público.

Em coletiva de imprensa que demorou cerca de uma hora para começar, e usando de apresentação PowerPoint com erros de português, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, e o diretor interino do Inpe, Darcton Damião, apresentaram como será a nova vida funcional das centenas de servidores.

O Inpe conta atualmente com 776 servidores ativos, sendo que 86% destes estão alocados em cidades da região do Vale do Paraíba (484 em São José dos Campos e 187 em Cachoeira Paulista). Se para eles a reestruturação não era novidade - já que, desde que Damião assumiu, o militar deixou claro que esta seria a principal missão de sua interinidade -, o formato final da nova estrutura sempre foi uma incógnita.

Isso porque a mudança, ao contrário da natureza de uma instituição de pesquisa científica - na qual o debate e o espaço para o contraponto são práticas comuns e desejáveis - veio de cima para baixo, sem possibilidade de diálogo. Esta situação foi exposta por dezenas de servidores, em diferentes circunstâncias e plataformas.

O resultado foi que, de uma estrutura horizontal, onde as várias coordenações dialogavam entre si e diretamente com a direção, foi criada uma nova estrutura, verticalizada, típica das empresas privadas.

Na nova formatação apresentada pelo diretor interino - que deve ser formalizada por meio de decreto nos próximos dias - várias das 15 coordenações existentes serão extintas, outras vão sofrer fusão, restando seis grandes coordenações.

A mudança trouxe insegurança aos servidores, já que muitos serão realocados e há o receio de que suas pesquisas sejam descontinuadas, pois existe o risco de que a atividade fim de seus projetos não esteja alinhada com as finalidades do novo departamento ao qual foram designados. Os servidores não são contra uma reestruturação do Instituto. O que eles queriam é que fossem ouvidos.

Ainda não há data para que o decreto seja publicado. Mas é cada vez mais pungente entre os funcionários o temor de que, com a mudança, perca sua credibilidade e, mais importante, a autonomia. A reestruturação do Inpe apresentada foi o golpe mais duro dado pelo Governo Federal no Instituto. Até o momento, porque não se sabe quantos outros ainda virão.

* Jornalista formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), alumni da Universidade de Cambridge

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