Assuma o timão, presidente, ou abandone o navio

Fernando Salerno |

Diretor-presidente de OVALE e Gazeta de Taubaté |

Em artigo publicado em setembro de 2018 neste mesmo jornal, à época criticando a leniência do povo brasileiro face ao maior esquema de corrupção do planeta perpetrado pelo PT, que desviou mais de R$ 10 bilhões de reais dos cofres públicos, relembrei a famosa frase de Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano e um dos principais autores da declaração de independência daquele país: "Se me fosse dado decidir se devemos ter um governo sem jornais, ou jornais sem governo, não hesitaria um momento em preferir a última."

As estultices e os ataques apopléticos do presidente da República nos obrigam a refletir sobre este dilema. Ora o presidente ataca a democracia, ora ataca a imprensa, na vã tentativa de impedir o funcionamento do sistema de freios e contrapesos que se encontra no cerne dessa mesma democracia, e cuja tarefa é justamente lançar luz sobre os problemas que afligem a Nação, incomodar os governos, problematizar questões vitais à sociedade e, por fim, publicar aquilo que eles, governantes, gostariam de manter sob as sombras.

Na quinta-feira passada, em mais um episódio vergonhoso e circense, mas nada surpreendente dado o rigor e frequência do comportamento do presidente, atravessou a Praça dos Três Poderes, acompanhado de uma comitiva de empresários e assessores e se dirigiu ao Supremo Tribunal Federal, sem convite ou aviso prévio, na tentativa de pressionar o chefe daquele poder, com medidas de relaxamento do isolamento social impostas pelos Estados no combate à pandemia do covid-19, contrariando as orientações das maiores autoridades sanitárias do país e do mundo, e se convertendo no maior estorvo aos esforços de enfrentamento da doença, sempre com o único objetivo de autopreservar o seu patrimônio eleitoral, que se esfarela à medida que a crise avança e a economia patina, dando sinais de uma recessão irrefreável.

Por mais antagônico que possa parecer, ao seguir os ditadores como Nicolás Maduro, da Venezuela, e Victor Orbán, da Hungria, na tentativa de transformar a Polícia Federal numa extensão do Palácio da Alvorada para proteger os seus familiares e asseclas, Jair Bolsonaro se plasma definitivamente é com Luiz Inácio Lula da Silva. Em arroubos históricos à Luís 14, tanto Bolsonaro como Lula já declararam, respectivamente: "Eu sou realmente a Constituição" e "Eu sou a encarnação do povo". São demonstrações clássicas de vontades recônditas e mal comportadas, cuja pequenez dos horizontes é típica dos autocratas de plantão.

Um governo infante, que venera uma espécie de culto à estupidez, tem demonstrado dificuldade singular em lidar com a tempestade de crises, econômica, política e até mesmo institucional, que desata sobre o país. Se tivesse uma mínima aptidão para o exercício do cargo, o que notoriamente já demonstrou não possuir, que assuma o timão e dirija o país em direção ao norte. Caso contrário, abandone o navio, presidente. É preferível um país acéfalo, que ao menos não atrapalhe os esforços de uma sociedade justa, forte e unida, a um país comandado por alguém não reciclável, tomado de delírios paranoicos incorrigíveis.

Felizmente, a democracia brasileira, assim como a imprensa, malgrado as suas inúmeras fraquezas e dificuldades, há de se superar, e dias melhores, hão de vir..

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