E agora José? Ainda vai ter festa?

Marcos Meirelles Jornalista |

"E agora José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? O dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. E agora José?"

Aprendemos, nesses dias insanos, o que é, na prática, a distopia de Drummond.

Estamos ilhados em nossas casas, afastados daqueles que mais gostamos, dominados por uma narrativa de medo e pavor.

Se vivemos tais dilemas, imaginemos o horror na Europa no século 14, com a devastadora peste negra, que matou pelo menos 75 milhões de pessoas em oito anos. E para não irmos tão longe, lembremos o drama da gripe espanhola, com mais de 35 mil mortos apenas no Brasil no início do século 20.

Toda a evolução da ciência, todos os equipamentos médicos, não foram suficientes, desde então, para que pudéssemos encarar uma nova pandemia de modo diferente. É a morte, sobretudo o medo da morte, que nos guia. As pandemias, assim como as guerras, trazem o inexorável da morte para o nosso cotidiano. Como diz Gilles Deleuze: "a morte é tanto mais necessária quanto sempre emerge do exterior". Ou ainda: "é a necessidade da morte que faz crer que ela é interior a nós mesmos".

Nada mudou? Ah, sim, muita coisa mudou do século 20 para o século 21. Basta observar como, em quarentena, utilizamos os algoritmos das redes sociais para nos relacionar hoje com o que, cada um nós, julgamos ser o mundo real. E como este julgamento contamina, na maioria de nós, a capacidade lidar racionalmente com um problema de Saúde pública.

Há epidemias de toda ordem.

Para que tanta soberba, se estamos frente a frente, no espelho, com a nossa absoluta insignificância? Para que tanta raiva, tanto ódio disfarçado de verdade, se não temos a mínima ideia de como será o mundo daqui a três meses?

"Por que foi que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão... Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos, que, vendo, não veem." (Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago)..

 

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