O Burro e o Rei: quando o Santos de Pelé, recém campeão do mundo, foi derrubado pelo Taubaté

Marcos Eduardo Carvalho | @marcosovale78

No reino da bola, os súditos saúdam o recém coroado Rei, que acabara de conquistar o mundo após duelos travados nos campos de batalha da distante Suécia, contra os gigantes nórdicos. É domingo à tarde, dia 5 de outubro de 1958.

Tapete verde estendido para vossa majestade, acompanhada de cavaleiros com mantos brancos reluzentes. Tudo pronto para a vitória e... não, espera um pouquinho, havia um Burro no caminho. Um Burro!

No estádio lotado, quem poderia imaginar que o Burro destronaria o monarca e usando a inteligência como arma? Não é uma fábula, caro leitor, mas o relato de uma vitória fabulosa e aconteceu em Taubaté.

Menos de dois meses depois do jovem Pelé ter conduzido a Seleção Brasileira na conquista da Copa do Mundo, onde acabou coroado Rei do futebol, o Burro da Central tinha o desafio de encarar o temido Santos.

Como vencer? Que tal usar a velha astúcia do caipira? Ali no vestiário, poucos minutos antes do jogo, o técnico taubateano Aymoré Moreira, que iria comandar Pelé e o Brasil na Copa do Chile quatro anos depois, distribuiu as camisas para os atletas do Burrão.

Craque, Zé Américo, camisa 5, estranhou, pois ele havia recebido a 7. "Meu pai foi falar com o técnico que a camisa estava errada, mas o Aymoré falou que era isso mesmo, que o Taubaté iria jogar com quatro jogadores no meio e não como costumava, com três. Meu pai ficou confiante", recorda-se João Carlos da Silva, filho de Zé Américo.

Com o truque, que confundiu o esquadrão santista, o volante se deu bem e fez dois gols. No primeiro tempo, Zé Américo abriu o placar aos 27min. Embalado, o Taubaté ampliou com Tek, aos 30min. Na etapa final, o inspirado Zé Américo marcou o terceiro logo aos 5min. A torcida foi à loucura no acanhado e abarrotado estádio, onde hoje é a Praça da Eletro.

O Peixe tentou reagir. Hélio, aos 14min e aos 38min, marcou duas vezes para o Santos. Mas não teve jeito.

MÁQUINA.

E, para ter uma ideia da grandiosidade do trunfo: naquele ano, o Santos foi campeão paulista com apenas três derrotas em 38 partidas. Pelé foi o artilheiro do campeonato com 58 gols, enquanto o ataque santista marcou 143.

José Macia, o 'Pepe', conhecido como 'Canhão da Vila', hoje com 85 anos, estava em campo. Com 750 jogos com a camisa do Peixe, não lembra detalhadamente da partida.Afinal, foram muitas. Mas ele, que tem um caderno com anotações de todas as partidas que fez pelo Peixe, cravou ao OVALE: era o jogo 183 dele com a camisa do clube praiano.

"São tantos jogos, que a gente acaba não lembrando de todos. Mas lembro que jogar contra o Taubaté era sempre muito difícil. Era um grande time naquela época. Muitas vezes a gente se concentrava em São José um dia antes da partida".

Ele se recorda que a marcação taubateana era muito dura. "Não davam espaço para mim, para o Pelé".

O jogo em que Pepe mais se lembra contra o Burrão foi em 1955, quando o Peixe foi campeão paulista - na época, o estadual era por pontos corridos. A vitória por 2 a 1, na Vila Belmiro, foi apertada, mas acabou com um tabu de 20 anos sem títulos do Peixe. "Foi um jogo muito marcante", lembra. "Foi uma época maravilhosa, de muitas alegrias", disse Pepe, de 85 anos.

LEMBRANÇA.

Com 90 anos, Antonio Julio Taino jogou pelo Taubaté entre 1954 e 1960. E ele se lembra bem daquela época. Naquele jogo histórico de 1958, não estava na escalação. Mas acompanhou a partida do lado de fora. "Para mim, para o meu Esporte Clube Taubaté, foi uma história grandiosa, valiosa. O Pelé era um craque, mas também nunca invencível. O Campo do Bosque deixou muitas lembranças com as nossas vitórias dentro daquele estádio", diz Taino, que vive em Taubaté.

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