Especial

Copiando estratégia da ditadura, Bolsonaro usa Copa América para tentar elevar popularidade

Bolsonaro repete o general Médici e resolve também interferir na Seleção Brasileira; presidente usa futebol para tentar elevar a popularidade e decide por Copa América

02/06/2021 às 00:00.
Atualizado em 24/07/2021 às 02:04
Bolsonaro (Divulgação)

Bolsonaro (Divulgação)

De cloroquina e chuteira.

Pária mundial pela total incompetência do governo federal em combater a pandemia do coronavírus, o Brasil se vê diante da tentativa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de tentar utilizar o futebol para tentar aumentar sua popularidade, já em ritmo de desgaste.

A medida emula um dos ‘ídolos’ de Bolsonaro, o general do Exército Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), presidente durante o período mais violento da ditadura brasileira, de 1969 a 1974.

Em 1970, o então presidente militar quis interferir na Seleção Brasileira e obrigar a convocação do carismático atacante Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro. O técnico João Saldanha não aceitou a imposição e foi demitido.

Cinquenta e um anos depois, Bolsonaro repete Médici e resolve também interferir na Seleção Brasileira. Ele atuou nos bastidores junto ao presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Rogério Caboclo, seu apoiador, para tentar demitir Tite do comando do time nacional.

Bolsonaro queria ver Renato Gaúcho no lugar do ex-técnico corintiano. Renato teria posições políticas próximas aos bolsonaristas. Não à toa, Tite passou a ser alvo de ataques nas redes sociais por parte de apoiadores do presidente, incluindo seus filhos. Tite virou ‘esquerdista’.

Além da tentativa de mexer no comando da seleção, que naufragou com o afastamento de Caboclo da CBF, após denúncias de assédio moral e sexual, a ingerência de Bolsonaro no futebol para aumentar a

popularidade teve outro alvo: a realização da Copa América no Brasil. Isso faz parte da estratégica bolsonarista.

Problemas com a pandemia e crise política levaram Argentina e Colômbia a desistir de sediar a competição, que veio para o Brasil após uma decisão às pressas de Bolsonaro, atendendo a pedido da Conmebol.

O mesmo presidente que não respondeu a mais de 50 tentativas da Pfizer de vender vacinas contra a Covid-19 ao Brasil, levou menos de uma hora para decidir pela realização da Copa América no país.

Um dos memes mais populares rebatizava a competição para ‘Cepa América’ e que o mascote do torneio seria o ‘cloroquito’, em homenagem à predileção de Bolsonaro pelo medicamento comprovadamente

ineficaz contra doença.

ATAQUE PELOS EXTREMOS.

A tentativa de Bolsonaro de aumentar sua popularidade por meio do futebol é velha conhecida da política brasileira, e dos historiadores.

O episódio mais lembrado por aqui é o do general do Exército Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), que provocou a demissão do técnico da Seleção Brasileira em 1970, João Saldanha, o 'João Sem Medo', que não quis convocar Dadá Maravilha para o time nacional, como queria Médici.

Caiu o técnico e no dia 20 de março de 1970, Dadá Maravilha desembarcava no Rio de Janeiro para iniciar os treinos com a Seleção, agora treinada por Zagallo. Ele convocou Dario como queria o general e presidente, mas não o escalou em nenhuma partida da Copa do Mundo daquele ano, vencida pelo Brasil.

Também é conhecida a utilização que a ditadura militar fez do esporte mais popular do planeta, justamente para tentar uma conexão com a população.

O documentário "Memórias do Chumbo - O futebol nos tempos do Condor", produzido pelo jornalista e historiador Lúcio de Castro, investiga as relações entre o futebol e os braços armados das ditaduras militares em quatro países da América Latina: Brasil, Argentina, Chile e Uruguai.

Castro relembra o período de instalação das ditaduras militares e a utilização das respectivas seleções de futebol, usadas pelos militares como instrumentos de propaganda do regime totalitário.

Como bem finaliza: "A recuperação da memória é imprescindível para a mudança da realidade, porque só relembrando, recordando o que aconteceu é que seremos capazes de evitar que se aconteça novamente", diz o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), que era apaixonado por futebol, em depoimento no documentário.

"Mesmo com a derrota em 1966, em uma Copa já sobre os reflexos da instalação do regime ditatorial de 1964, o futebol tem uma importância singular no esquema de controle das massas, pensado também pelo governo ditatorial. Era preciso controlar a paixão nacional e manipulá-la a favor do regime", escreve Augusto Sarmento-Pantoja, professor e pesquisador da Universidade Federal do Pará e doutor da Teoria e História da Literatura pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Ele é autor do livro "O futebol e as ditaduras nos tempos do Condor", que também investiga a relação do poder com o esporte.

Da sua maneira, Bolsonaro tenta reeditar a prática..

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